MULHERES

Ela teve 18 filhos, adotou 28 e acompanhou 308 partos. Conheça Dona Flor

10/05/2015 01:24 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Dona Flor não participa de grupos de mães na internet. Nem está no Facebook - na comunidade onde ela mora, Moinho, próximo a Alto Paraíso, em Goiás, o celular mal pega. É por isso que não consegui falar com ela para contar a sua história. Mas falei com outra Flor, a dos Santos, que se uniu a outras produtoras para visitar o povoado do Moinho e assim contar a história dessa senhora mãe da Chapada dos Veadeiros.

Dona Flor teve 18 filhos. Pensa que é muito? Ela adotou outros 28. Perdeu quatro dos filhos biológicos que teve com o marido, Donato, também raizeiro como ela. Além de conselheira e porta-voz dos conhecimentos da medicina tradicional local, sábia no uso de plantas, Dona Flor é também parteira, ofício que aprendeu auxiliando o nascimento da irmã - e também na própria pele. "Eu queria ver por que é que a mulher ia ter o filho escondida no quarto. Eu queria saber como é. Só vou aprender quando tiver o meu filho? Quando eu vou ter o meu eu vou ter é só. E tive o primeiro só", ela conta.

Com sua assistência, nasceram mais de 300 bebês do povoado. Alguns ela adotou. "Como ela diz, quase todos são seus parentes, pois muitos nasceram em suas mãos e por ela foram alimentados e cuidados durante os primeiros meses de vida", explica a outra Flor, a documentarista.

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Aos 78 anos, Dona Flor já foi garimpeira, tropeira, quitandeira, tecelã e agente de saúde. Aprendeu o ofício de raizeira e parteira sozinha. Este último foi aos 18 anos, quando ajudou no nascimento de uma irmã. Seu último parto foi em 2008, mas hoje ela ainda dá aulas para agentes de saúde e doulas. Doulas? Sim: muitas profissionais que acompanham partos nas cidades vão até lá para aprender a tradição com Dona Flor.

Os cursos são no próprio povoado. "Dona Flor quer transmitir seu conhecimento porque sabe que não viverá muito e sente necessidade de deixar esse legado para as futuras gerações", explica Flor dos Santos. Além do uso de ervas e plantas, a parteira tradicional contribui para o movimento com "a humanidade e o cuidado que ela traz desde sempre em seus ensinamentos, muito antes de haver redes defensoras da humanização do parto", explica a documentarista.

Dona Flor defende, por exemplo, que o pai deve acompanhar o parto e o sofrimento da mulher, sem abandoná-la. "Isso acontece muito em função do que ela vê no povoado: adolescentes grávidas e mulheres, sozinhas, arcando com todas as responsabilidades de ter um filho", explica Flor dos Santos.

Como não há infraestrutura de saúde, transporte e trabalho, a relação dos moradores locais com a natureza é muito próxima. Eles realmente dependem do ambiente. "Por isso, todos sabem um pouco sobre plantas medicinais e vão passando de geração em geração, ajudam-se, trocam experiências sobre suas descobertas e recomendam remédios", conta a documentarista. Para ela, quem vem de fora recebe essa sabedoria tradicional. "Naquele universo, a natureza não está separada do ser humano."

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Lá no Moinho, Dona Flor é líder comunitária. Pessoas vêm à sua casa todos os dias procurando conselhos, remédios e cura. Como o posto de saúde do povoado está fechado e o hospital de Alto Paraíso não dá conta da demanda da região, sua presença ajuda a cuidar da saúde do povoado. Ela também usa medicina convencional - e, quando fazia partos, impunha a condição de que as mulheres fizessem o pré-natal regularmente nos centros de saúde.

"Com Dona Flor podemos resgatar nossa humanidade, nossa sabedoria natural, nossa curiosidade. Resgatar o conhecimento de nossas mães, avós, bisavós, que vem principalmente da observação da natureza e seus ciclos, da intuição, e de todo esse fio feminino que estamos perdendo com a correria e a mecanização da vida urbana."

Flor dos Santos se reuniu a três outras mulheres - Érika Bauer, professora da UnB (Universidade de Brasília), Cidinha Matos, jornalista, Flavia Soledade, também jornalista - para fazer um documentário sobre a raizeira e parteira. "Queremos contar a sua história, registrar a vida dessa personagem tão especial e sábia que nunca pôde estudar, cujo aprendizado foi movido principalmente pela vontade de ajudar sua comunidade e as pessoas que a procuram", diz Flor dos Santos. "Contar a história de Dona Flor e do Moinho é também contar a nossa história."

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As quatro produtoras estão levantando fundos no Catarse para finalizar o documentário - e dos R$ 50 mil de meta inicial, elas já chegaram a R$ 64 mil arrecadados. Ou seja: o documentário vai sair (em breve!) - e mais pessoas poderão acompanhar de perto a história da senhora que nem tem acesso à internet mas se tornou, sozinha, referência em humanização do parto.

Assista ao trailer: