LGBT
10/05/2015 19:47 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:03 -02

Dia das Mães: Casal de mães descreve experiência da adoção tardia

Luna Nóbrega

Este será o primeiro Dia das Mães de professora universitária Lana Nóbrega Meyer, 35, e da webmaster Luna Nóbrega Meyer, 24, ao lado dos filhos. E também o primeiro que Thiago, 5, e Yasmin, 8, passam com as mães após os quase três anos que viveram em um abrigo, onde aguardavam por uma nova família após terem sido retirados do convívio dos pais biológicos.

Yayá é despachada e já chegou na faixa amarela de kung fu. Tico é mais tímido e sonha em ser desenhista, ou 'desenhor', como gosta de dizer. Começaram a desabrochar depois que voltaram a ser regados com o amor materno. Mãe Lana e mãe Luna, como as crianças gostam de chamá-las, levam os filhos para encontrar com os outros dois irmãos biológicos, que foram adotados por outra família, todo fim de semana.

Em entrevista ao Brasil Post, Lana disse estar ansiosa para viver o primeiro Dia das Mães ao lado dos filhos. Disse que eles estavam preparando uma apresentação de dança surpresa. "Estamos curtindo muito, e eles mais ainda. Deve ser bacana comemorar depois de um tempo."

Veja, abaixo, o relato de Lana sobre as alegrias e desafios da adoção tardia e da maternidade, que classifica como "jornada incrível". E entenda como o amor pode salvar a vida de uma criança.

"A história do nascimento a gente reconta para eles. Dizemos: 'no dia em que você nasceu, papai do céu disse: essa aqui vai ser da mãe Luna e da mãe Lana! A gente reconta essas histórias para que eles entendam que o nascimento deles foi especial, e tinha um propósito."

"Do processo da época que fizemos o curso, até coletar os documentos, a entrada, ser chamada pela entrevista, receber assistente social, foram exatamente 9 meses. Até brincamos que foi quase uma gestação!"

"Não é mãe adotiva, é mãe. Minha filha outro dia saiu com uma resposta maravilhosa! Perguntaram 'Você sente saudade da sua mãe verdadeira?' E ela: 'Por que, se eu moro com ela?'"

Sempre quis adotar, sempre foi um percurso natural. Mesmo antes de me descobrir gay. Me descobri com 29 anos, antes disso fui noiva inclusive."

"Fomos o primeiro casal homossexual da nossa cidade a se casar no papel. Um dos motivos pelos quais casamos foi por causa dos filhos. Queríamos já ter os nome das duas, e com isso o processo seria facilitado."

"Fizemos o curso de adoção e nos foi informada a realidade dos abrigos brasileiros. Foi dito que mais de 80% das crianças são negras e acima dos 5 anos, e 85% têm irmãos. Então terminamos o curso de adoção tendo amadurecido em nós que queríamos uma adoção tardia. Nosso perfil foi de crianças até 8 anos, indiferente de sexo, raça, doença soropositiva..."

"O formulário que você preenche é bem cruel. As perguntas: você aceita filho de drogado, de estupro, de incesto? Tínhamos noção de que se estava na fila de adoção e que seriam realidades complicadas.

"A partir do momento em que fomos inseridas no cadastro, até o momento que achamos as crianças, foi assustadoramente rápido. Foi uma semana. Recebemos ligações no primeiro dia."

"Essa foi a parte mais difícil, porque ninguém nos preparou pra isso. E começamos a receber um monte de ligações e e-mails de fóruns do país inteiro nos oferecendo crianças. A gente ficou um pouco desesperada e foi muito sofrido. Porque como se escolhe entre crianças?"

"Na hora, um arrepio percorreu meu corpo inteiro. Até hoje, quando falo disso, sinto a mesma coisa. Na hora soube que eram os nossos."

"Três dias depois, fomos vê-los. Porque com crianças mais velhas tem de ter esse período de aproximação, e você vai se preparando também. Passamos quase três meses nos vendo de 15 em 15 dias."

"A primeira vez foi maravilhoso. Brincamos com eles, chamamos eles em um canto, perguntamos se eles sabiam por que estávamos ali."

"'Queremos ser as mamães de vocês. Vocês querem?' Eles disseram que sim. Falamos que eramos um casal, eles disseram que tudo bem."

"A psicóloga já havia feito um trabalho muito legal. Levou levou eles para conhecerem outra criança adotada, filha de duas mães. Quando falamos, ela perguntou 'vocês beijam na boca?' A gente falou que sim e, na hora, nós quatro morremos de dar risada."

"Temos de saber que são crianças que têm memórias do que aconteceu com eles, então de vez em quando vem coisas da vivência anterior deles. Eles foram expostos a muita coisa. O mais importante dialogar bastante, dar muito amor"

"As pessoas às vezes dizem que 'Ai, vocês são muito corajosas'. Odeio que digam isso. Ter um filho é desafiador em qualquer contexto, é uma aventura. Não podemos temer a maternidade. O que quer que precisemos passar enquanto mães, vamos passar. Não faz diferença nenhuma. São nossos, nasceram para ser nossos, e a gente nasceu para ser deles."

"Para você ter noção, nos três primeiros meses meu filho Thiago cresceu sete centímetros. Foi um negócio assustador, porque finalmente ele estava sendo alimentado de todas as maneiras, com comida e com amor.

"Com certeza tem gente que não concorda, já teve comentário de aluno. Aí vamos na escola e conversamos. O que sempre digo é que crianças não são preconceituosas, os pais são. Não dá pra dizer que não há preconceito. E as crianças são negras, adotadas, filhas de duas mães, e precisam estar preparadas para enfrentar o dia a dia."

"Eles brincam que somos uma família de chocolate branco e chocolate preto. E eu sou mais morena que a Luna, e eles brincam com isso, dizem que puxaram isso de mim. Minha filha sente muita cócega e, como a Luna sente cócegas, ela que puxou isso da mãe. E realmente temos essas afinidades. Não está na cor, mas está em tudo mais"

"A minha filha é muito arretada, eu sou cearense. Ela é leonina e chega chegando. Já no primeiro dia da escola, contou a história na frente da sala de aula, disse que era adotada e tinha duas mães, é muito bacana!

"Essa semana meu filho estava me ajudando a limpar o jardim, fazendo farra comigo. Ele virou e disse: 'Mãe sabe o que eu mais gosto no universo inteiro? Ficar junto de vocês!'"

"No dia seguinte, estávamos indo ao parque e ela disse: 'Mãe, sabe que meu coração tem de ficar cada vez maior para amar cada dia mais vocês?'"

"Eu sou ativista, acho que falta representatividade, tem muita gente no armário porque há tanto a enfrentar. O primeiro preconceito que a gente sofre é em casa. As pessoas que nunca pensamos que virariam as costas para nós viram. Não é fácil. Quando existe alguém que se expõe, isso alimenta as pessoas que ainda estão precisando de forças."

"Hoje, que me sinto forte o suficiente para tudo isso, é minha vez de mostrar para que as pessoas que estejam onde já estive possam usar isso. As redes são maravilhosas nesse sentido porque você sabe que tem gente como você"

"Eu acho que a maternidade é absurdamente transformadora, quando você é mãe, é te dado o privilégio de você ter a cadeira vip na vida de outra pessoa. E cabe a você se deixar ser transformada. Desde o início eu embarquei nessa com essa perspectiva. Eles me transformam a cada dia para melhor, e é impressionante como redimensiona tudo, seu coração, sua vivência. É uma jornada incrível, absolutamente incrível."

As cartinhas de Yayá e Thiago