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30/04/2015 09:38 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Ação da Polícia Militar da era Beto Richa é criticada por especialistas e supera truculência do governo Alvaro Dias, há 27 anos

Montagem/Divulgação APP-Sindicato

Mais de 200 feridos e uma série de imagens que viajaram pelo mundo. A ação da Polícia Militar contra professores que protestavam em frente à Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), e que terminou em violência, foi recheada de erros, segundo especialistas. Apesar do governador Beto Richa (PSDB) ter defendido a PM, ele parece estar sozinho, sobretudo diante do farto material que circulou nas redes sociais.

“Nunca vi uma coisa dessas. Mais de 200 feridos, é sinal de alguma coisa muito errada. Aquela área é fácil de conter, fazendo dois ou três cordões de isolamento. Não vejo nenhuma explicação para a tropa correr atrás de manifestantes”, disse Ao Brasil Post o ex-secretário Nacional de Segurança Pública e coronel da reserva da PM de São Paulo, José Vicente da Silva Filho.

Richa disse, em entrevista coletiva após o ataque dos PMs contra os professores, que os policiais ‘apenas reagiram’ depois de terem sido agredidos pelo que chamou de ‘black blocs’. Afirmou ter imagens que comprovam a sua versão – embora não as tenha apresentado até o momento – e tratou o protesto como uma ‘instrumentalização política’, da qual o PT estaria por trás – coincidentemente, o governador Geraldo Alckmin, também do PSDB, usou o mesmo expediente para negar a greve de 46 dias dos professores em São Paulo.

“A polícia estava lá por determinação do Poder Judiciário para proteger a sede do Poder Legislativo, uma instituição democrática que não pode ser afrontada no seu direito”, afirmou Richa. Já o coronel da reserva da PM paulista não vê como defender a ação dos colegas paranaenses. O uso de cães e até um helicóptero para atacar os professores, de acordo com José Vicente da Silva Filho, é um erro básico.

“O policial não pode atirar nada de um helicóptero. Pode machucar alguém, você não tem precisão e essa não é a utilidade da aeronave em uma operação como essa. Cães a PM de SP não usa faz muito tempo, é um equívoco usá-los em ações de contenção”, explicou. Outros especialistas vão pela mesma linha. De achrdo com o coordenador do Centro de Estudos em Segurança Pública e Direitos Humanos da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Pedro Bodê, o comportamento da tropa tem ligação com quem a comanda.

“É reflexo de uma cadeia: um governador que não teve constrangimento em permitir o cerco da Assembleia, um secretário de Segurança conhecido pela truculência”, avaliou, em entrevista ao jornal Gazeta do Povo. Já o ex-coordenador-geral de Defesa Institucional da Polícia Federal, Daniel Sampaio, viu equívocos já desde a concepção da própria operação. “A primeira diretriz é colocar uma equipe de gerenciamento de negociação muito forte. Por que há confronto? Porque houve uma progressão das atitudes, que é mais fácil de ser contida preliminarmente com diálogo”.

Para o secretário-geral do diretório do Paraná da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-PR), Eroulths Cortiano Junior, não houve nenhum confronto, conforme tentou argumentar o governo no Estado. "O que vimos foi praticamente um massacre, cenas de abuso da força e um despreparo total para lidar com essa situação".

De acordo com a APP-Sindicato, entidade que representa os professores do Paraná, 14 pessoas foram presas. Nas contas da organização, mais de 400 pessoas ficaram feridas, incluindo crianças.

Jurídico da APP acompanha detidos e vítimasVários advogados da APP-Sindicato estão, juntamente com advogados voluntá...

Posted by APP-Sindicato on Quarta, 29 de abril de 2015


O ‘novo 30 de agosto’ para os professores

A violência policial contra os professores não é uma novidade para a categoria no Paraná. Em 30 de agosto de 1988, o então governador Alvaro Dias – hoje senador do Estado pelo PSDB – ordenou a ação da PM contra uma manifestação de docentes em frente ao Palácio Iguaçu, sede do governo paranaense. O ataque da PM ficou notório pela presença da cavalaria da corporação.

Para o cientista político da Uninter, Luís Domingos Costa, a ação da PM no dia 29 de abril de 2015 superou em muito a repressão registrada no governo de Alvaro Dias. “É a pior repressão já vivida até hoje no Paraná pela sua simbologia, já que foi ataque contra professores”, comentou, também à Gazeta do Povo.

Além da escalada da violência, a diferença entre as duas ações está nos números: se nesta quarta-feira foram mais de 200 feridos, em 1988 foram registrados apenas dez feridos. “Não é só um erro político, que pode levar ao governador perder a sua maioria no parlamento. É um erro institucional. É uma afronta a todos os critérios de democracia, um problema muito mais sério”, concluiu Costa.

Um protesto em favor dos docentes do Paraná está marcado para as 12h desta quinta-feira (30), no Centro Cívico. Até o momento, mais de 21 mil pessoas confirmaram presença na página criada no Facebook.

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