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20/04/2015 09:50 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

O que podemos esperar de Mohammadu Buhari, o novo presidente da Nigéria?

AP Photo

No último mês, a Nigéria elegeu o candidato de oposição Mohammadu Buhari para ser o próximo presidente da nação de 173 milhões de pessoas - a mais populosa do continente. É a primeira vitória da oposição desde que o país retornou à democracia, em 1999.

A vitória de Buhari, ex-general que se diz "convertido à democracia" foi vista com otimismo por especialistas ouvidos pelo Brasil Post.

Sidney Leite, professor de Relações Internacionais e pró-reitor acadêmico do Centro Universitário Belas Artes diz acreditar que a oposição do país tenha conseguido identificar as principais demandas da sociedade nigeriana.

"Buhari tem o poder simbólico de ter sido o governo em uma ditadura militar, de ter um discurso duro de combate às questões de segurança, mas agora vai ser um presidente dentro de um regime democrático, entrando nesse jogo", afirma ele.

Para Olusegun Akinruli, economista e diretor do Centro de Negócios, Cultura e Cooperação Nigéria Brasil, a volta do ex-general ao poder - ele governou a Nigéria entre janeiro de 1984 até agosto de 1985, logo após o golpe militar de 1983 - não coloca a democracia do país em risco.

"Ele se submeteu ao rigor da democracia quatro vezes e já entendeu o que é a voz do povo".

Segundo Akinruli, o novo líder também deve dar um novo fôlego às relações internacionais da Nigéria. "A primeira coisa que o Buhari irá fazer é mostrar sempre essa característica de disciplina e de zero tolerância à corrupção, diz Akinruli, que acredita que o novo governo poderá trazer mais investimentos para o país.

Boko Haram

Outro aspecto importante no novo governo será o combate ao Boko Haram, grupo que vem aterrorizando o nordeste do país, na tentativa de estabelecer um estado islâmico.

O grupo extremista fez um dos seus ataques mais mortíferos no começo de 2015 e, segundo a Anistia Internacional, sequestrou mais de 2.000 mulheres e jovens desde o começo do ano.

"O Boko Haram cresceu muito durante o governo do atual presidente, Goodluck Jonathan, que tem se mostrado incompetente", afirma Leite. O combate do governo ao grupo extremista foi, aliás, um dos pontos mais criticados nos últimos tempos em relação à gestão de Jonathan.

No ano passado, o governo demorou mais de uma semana para mobilizar recursos para buscar as jovens que foram sequestradas em Chibok, pelo Boko Haram. Jonathan insistiu no discurso de que o sequestro era apenas uma "chantagem" do grupo extremista.

Mesmo assumindo o poder apenas no dia 29 de maio, Buhari se manifestou sobre o sumiço das 276 jovens nesta semana, quando o sequestro completou um ano. Alegando não querer fazer falsas promessas à população, ele disse que não poder prometer que as jovens serão encontradas, visto que seu paradeiro ainda é desconhecido.

"A nova maneira de fazer as coisas deve começar com a honestidade. Não sabemos se podemos resgatar as meninas de Chibok e também não sabemos onde elas estão. Não posso prometer que vamos encontrá-las, mas sim que meu governo fará o possível para devolvê-las às suas famílias."

Para Leite, o combate ao Boko Haram é mais complicado por se tratar de um grupo fundamentalista que tem no terrorismo uma das suas principais armas. No entanto, diferentemente do Estado Islâmico, que já tem um território relativamente estabelecido, o Boko Haram ainda tenta conquistar cidades na região, e enfrenta a resistência de tropas da Nigéria, do Chade e dos Camarões. Por outro lado, como não possui um território estabelecido, o grupo tem maior capacidade de renovação.

Provavelmente Buhari sabe que, desde a última vez que governou a Nigéria, muita coisa mudou.

"Ele [o novo presidente] vai ter que dialogar com as organizações internacionais. Compartilhar soluções, estratégias, conhecimento. Seu desafio é não apenas se converter a democracia, mas saber usar as ferramentas, saber se valer das possibilidades que a democracia oferece, inclusive de se internacionalizar, de consolidar suas alianças, de promover tratados, de se inserir nas organizações internacionais."

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