COMPORTAMENTO
11/04/2015 00:17 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:47 -02

A ciência comprova: exercícios na forma livre, sem uso de aparelhos, são mais eficientes

flickr.com/ambernussbaum

Nos últimos tempos, as academias “alternativas”, que oferecem aulas de crossfit, exercícios funcionais ou yoga, têm ganhado cada vez mais adeptos, que fogem daquelas tradicionais salas de musculação cheias de equipamentos.

Essas modalidades se utilizam dos chamados exercícios na forma livre, que não precisam da parafernália das atividades guiadas por máquinas, e usam pesos e cordas. Às vezes serve apenas o peso do corpo.

Um exemplo da popularização desse tipo de atividade é a multiplicação dos centros de treinamento especializados no Crossfit, um protocolo de exercícios muito popular nos Estados Unidos, que chegou no Brasil em 2009 por iniciativa do treinador Joel Fridman. A escola utiliza movimentos do levantamento de peso e ginástica olímpicos. Uma vertente similar, estabelecida desde o início dos anos 2000, é o treinamento funcional.

exercício

Na contramão dos modismos que se popularizam à revelia da ciência, os exercícios na forma livre contam com o respaldo de pesquisas recentes que confirmam sua superioridade para melhorar a força, o equilíbrio e a resistência.

Nas universidades, há 60 anos se discute quais exercícios - livres ou guiados - seriam melhores, com ligeira preferência pelos exercícios na forma livre. Segundo a bióloga Marília Coutinho, treinadora e atleta da modalidade de levantamento de peso básico, conhecida como powerlifting, “em todos os casos, se constata que os exercícios realizados na forma livre, seja com pesos, roldana ou massa corpórea, são mais eficientes do que os realizados em forma guiada”.

Estudos comparativos já mostraram um ganho maior em força e coordenação, além da eficiência de um gesto específico, como por exemplo um bloqueio no jogo de vôlei.

exercicio

Um exemplo é a pesquisa que compara as duas formas de exercício, realizada por Keith Spennewyn, na Universidade Globe de Minnesota, em 2008. Ele comparou três grupos de dez indivíduos cada. Um grupo não praticou nenhuma atividade, servindo como controle. Entre aqueles que realizaram exercícios na forma livre, houve um ganho de força de 115% e no equilíbrio a melhora foi de 245%. Aqueles que trabalharam na forma guiada obtiveram apenas 57% de ganho de força e 49% de evolução no equilíbrio.

Por conta das evidências nesse sentido, a treinadora Marília Coutinho afirma que os exercícios na forma livre são mais recomendados para todos os perfis de praticantes. Isso incluiria pessoas em fase de recuperação de lesões ou completamente sedentárias.

“A ideia de que o movimento guiado proporcionaria mais segurança articular é falsa. Colocar idosos em máquinas desse tipo apenas subtrai deles o que já estão perdendo: coordenação e propriocepção [sensibilidade própria aos ossos e músculos que fornece informações ao cérebro sobre o equilíbrio e o deslocamento do corpo]”, exemplifica Coutinho.

exercicio

ADAPTAÇÃO

Academias tradicionais têm ampliado o espaço para treinamentos na forma livre, principalmente por conta de uma demanda do público especializado, mas a maior parte destes estabelecimentos ainda prioriza o espaço para máquinas articuladas.

Grandes redes como a Bioritmo e a Bodytech começaram a abrir novos espaços ou criar aulas específicas para os interessados em fugir dos equipamentos tradicionais. Ainda assim, os profissionais responsáveis por desenhar o treinamento dessas companhias apresentam ressalvas com relação aos exercício na forma livre.

Segundo Leonardo Cabral, coordenador geral da Bodytech, para receber os novos alunos que se matriculam todos os meses e nunca praticaram atividades físicas, as máquinas de exercícios guiados são úteis pois proporcionam maior controle e segurança ao iniciante.

Ele ressalta a vantagem desses equipamentos para trabalhar certos músculos de forma isolada, mas admite “como tendência mundial e necessidade técnica o aumento da participação e do espaço destinado para exercícios fora das máquinas guiadas, ainda que no modelo de academia tradicional elas continuem predominantes”.

exercicio

O diretor da Bioritmo, Saturno de Souza, ressalta o aspecto psicológico dos exercícios em máquinas, que seriam mais “amigáveis” para quem não está acostumado com uma academia, além de demandarem menos tempo.

Ele lembra que, no Brasil, apenas 3% das pessoas frequentam academias de forma regular e, em São Paulo, esse número cai para 1,5%. “Sala de musculação não é um ambiente amigável para quem não frequenta. Quanto mais seguro e simples for esse espaço, mais fácil reter as pessoas dentro da atividade”, avalia.

Na visão do coordenador do laboratório de biomecânica da Escola de Educação Física da USP, Júlio Serrão, o problema das discussões sobre exercícios é que as pessoas tendem a assumir uma posição maniqueísta, de defender qual é o melhor ou o pior.

Para ele, superioridade não é uma característica absoluta. “Não se pode falar genericamente. O exercício livre é mais intenso, gera um maior recrutamento muscular, isso pode ser adequado, mas nem sempre.”

Segundo Serrão, o mercado de treinamento físico é muito grande e movimenta muito dinheiro, o que envolve diversos interesses, por isso sempre haverá defensores de determinadas técnicas, como ocorreu com os aparelhos guiados na década de 1980. Para ele, agora o que acontece é um movimento de “equilíbrio entre as duas práticas”.

LEIA MAIS:

- 7 formas de começar a correr (e fazer disso algo divertido)

- 5 motivos pelos quais a 'blogueira fitness' de 9 anos é preocupante

- 'É tão normal', diz mãe da 'primeira blogueira fitness infantil'