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31/03/2015 17:51 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Se você pensa que os seus princípios morais são inabaláveis, este estudo prova o contrário

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Você acha ok trair o seu cônjuge? E o assassinato? Pode, em alguns casos, ser justificado?

Você pode até pensar que as suas decisões são baseadas em convicções morais inabaláveis, mas as suas decisões morais podem simplesmente ser o resultado de como você vê a situação em um determinado momento.

De acordo com um novo estudo provocador, os movimentos oculares e estímulos visuais desempenham um grande papel na forma como deliberamos sobre questões morais.

O novo estudo - uma colaboração entre pesquisadores suecos, britânicos e americanos - é o primeiro a sugerir que o olhar de uma pessoa está intimamente relacionado com a forma como ela toma decisões morais e, portanto, o meio onde ela vive pode exercer uma influência significativa em juízos éticos complexos.

Digamos que, por exemplo, você recentemente tenha decidido se tornar vegetariano, porque acredita que é imoral comer carne.

Mas quando está em um restaurante você é tentando a pedir o seu prato de carne favorito. Como você decide o que pedir?

"Se você está na dúvida, algo tão sutil quanto o garçom vir até à sua mesa, no momento em que seus olhos momentaneamente param no item do cardápio frango cacciatore (e não macarrão à primavera) pode levá-lo a pedir uma refeição que está em conflito com a crença moral que você abraçou", disse um dos autores do estudo, o Dr. Michael Spivey, psicólogo da Universidade de Merced, na Califórnia, ao The Huffington Post, por email.

"Se o garçom chegasse meio segundo mais cedo ou mais tarde, o vegetariano poderia ter se fixado na massa naquele momento e pedido isso."

Mas, e em questões morais mais pesadas - como o assassinato ou adultério?

Para testar como o olhar de uma pessoa afeta esse tipo de decisão, os pesquisadores acompanharam os olhos de um grupo de participantes do estudo enquanto eles ponderavam sobre as perguntas como "será que às vezes o assassinato é justificado?"

Cada participante tinha a opção de responder "sim" ou "não", com base no que eles acreditavam ser moralmente correto.

Sem o conhecimento dos participantes, os pesquisadores rastreavam os movimentos de seus olhos entre dois alvos - a palavra "sim" e a palavra "não", posicionadas em lados opostos de uma tela - enquanto os participantes deliberavam.

Quando o participante focava em uma das palavras por um pouco mais de tempo do que em outra, os pesquisadores pediam que ele tomasse imediatamente a sua decisão.

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É sempre errado mentir? Como influenciar decisões morais, explorando a dinâmica do olhar

Eles descobriram que a decisão moral dos participantes tendia a ser favorável, de forma significativa, à palavra que eles estavam olhando no momento da decisão.

Então, se o participante estivesse olhando para a palavra "sim", ele era 8 por cento mais propenso a decidir que o assassinato é, em certas ocasiões, justificável.

Por quê? Parece que as imagens das palavras "sim" e "não" influenciavam os processos de pensamento dos participantes.

Nossos olhos se movimentam três a quatro vezes por segundo, e as imagens que coletamos em cada movimento podem afetar a cognição, disse Spivey.

"Se a dinâmica visual do ambiente estiver disposta de forma a tirar proveito dessa influência, então a mesma pessoa pode fazer uma sequência sutilmente diferente de movimentos oculares em um contexto visual comparado com outro", disse Spivey.

"Essa sequência diferente de impressões sensoriais poderia fazê-lo produzir respostas diferentes para a mesma pergunta, até mesmo perguntas sobre seus princípios morais."

Isto sugere que nossas escolhas morais são movidas não apenas pelas nossas crenças éticas mais profundamente arraigadas, mas também por uma série de outros fatores - alguns dos quais fora da nossa percepção consciente.

"Esta pesquisa demonstra que muitas das suas decisões morais podem surgir 'do nada', como resultado de você olhar e interagir com o meio ambiente", disse Spivey.

"Como muitas das decisões cotidianas, as decisões morais nem sempre vêm de crenças mais profundas no cérebro de uma pessoa, mas em vez disso podem emergir a partir das interações momentâneas imprevisíveis entre uma pessoa e os seus arredores."

Os resultados foram publicados no dia 16 de março na Revista Proceedings of the National Academy of Sciences.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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