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20/03/2015 14:46 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:35 -02

Reservas hídricas podem diminuir 40% até 2030, o equivalente a mais de 4 milhões de Cantareiras, aponta ONU (ESTUDO)

Montagem/Estadão Conteúdo

Se sem um Sistema Cantareira o abastecimento de mais de 6 milhões de pessoas na Grande São Paulo já sofre, imagine um mundo sem mais de quatro milhões de sistemas parecidos? É um cenário que pode ser registrado, segundo estudo divulgado nesta sexta-feira (20) pela ONU (Organização das Nações Unidas). O planeta pode enfrentar um déficit de 40% no abastecimento de água até 2030, caso não tome medidas drásticas para melhorar a gestão do recurso natural.

Atrelado às ações dedicadas ao Dia Mundial da Água, celebrado neste domingo (22), o 'Relatório Mundial das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento de Recursos Hídricos - Água para um mundo sustentável' foi lançado em Nova Déli, na Índia. Falando em litros, seria perder 17,5 quadrilhões de litros, de um total estimado de 43,75 quadrilhões de litros hoje existentes no mundo, com base em dados da FAO (Organização de Agricultura e Alimentos das Nações Unidas).

Tomando por base que o Cantareira possui a capacidade total de 982 milhões de litros, uma manutenção da atual gestão da água pelos gestores mundiais significaria a perda de mais de 4 milhões de sistemas de abastecimento parecidos pelo planeta, um dado preocupante, levando em conta que, segundo o estudo da Unesco, hoje 748 milhões de pessoas em todo o mundo ainda não têm acesso a água potável. Na outra ponta, o consumo não para de subir e deve mais do que dobrar até 2050 – ano em que a agricultura, grande consumidora de água, deverá produzir 60% de alimentos a mais.

De acordo com a Unesco ,o objetivo do relatório é estabelecer um objetivo em relação ao uso da água. A proposta seria fixar metas sobre temas como governança e qualidade da água, gestão de águas residuais e prevenção de desastres naturais. Levando em conta outro dado, o de que a indústria crescerá a sua demanda em 400% nos próximos 35 anos, é preciso rever os atuais formatos de consumo e aplicar medidas mais eficientes de cuidado com a água.

“O crescimento econômico, o desenvolvimento social e a proteção ambiental deve beneficiar todos, sem distinção de qualquer natureza, tais como idade, sexo, deficiência, cultura, raça, etnia, origem, condição migratória, religião, situação econômica ou outro status, conforme destacado na agenda de desenvolvimento da ONU pós-2015”, disse recentemente, em comunicado, o relator especial da ONU sobre o direito humano à água potável e ao saneamento, o brasileiro Léo Heller.

Falando em Brasil, o relatório coloca o país como um dos que mais causa mal aos recursos hídricos com a falta de mais políticas de saneamento básico e alteração do curso de rios – medida utilizada, segundo o relatório, entre 1981 e 2010 e que foram voltadas para construção de represas e usinas hidrelétricas. O estudo sugere ainda quatro pontos a serem adotados pelos países para cuidar melhor da água:

- Conhecimento e melhor monitoramento da origem da água, sua qualidade e utilizar melhor distribuição;

- Projetar estratégias visando o futuro, com cenários diversos previstos para a distribuição da água;

- Integração das gestões de agricultura, energia e recursos hídricos, tornando melhor e mais sustentáveis as decisões em todas as áreas;

- Melhor governança da água, com decisões transparentes e que contem com a participação da sociedade civil, deixando claro que a participação da população é fundamental para a meta da sustentabilidade.

Sem mais medidas que sigam essas normativas, é possível que as disputas pela água se intensifiquem nas próximas décadas, complementa o estudo da Unesco. Não é ao acaso tal conclusão: há uma estimativa de que a população mundial deva subir de 7,2 bilhões para 9,1 bilhões em 2050, sendo que 6,3 milhões viverão em áreas urbanas. Assim, o combate ao desperdício e o subsídio para métodos mais eficientes de uso na agricultura e na indústria são sugeridos.

Outras frentes devem considerar também formas de energias renováveis, como a eólica e a solar.

Brasil aparece também com medidas positivas

O relatório da Unesco destaca as iniciativas de um programa batizado de Rio Rural, realizado na região Norte do Estado do Rio de Janeiro. O programa, que até 2018 receberá recursos do Banco Mundial, é voltado para a produção agrícola na região.

“Em partes do Norte do Estado do Rio de Janeiro, políticas rurais do passado priorizaram a monocultura do café e da cana-de-açúcar, além da pecuária. O desmatamento e a exploração não sustentável resultaram em degradação do solo e em esgotamento dos recursos hídricos”, informa o estudo, destacando que, desde 2006, o programa Rio Rural trabalha para reverter a situação, com suporte para que pequenos agricultores adotem sistemas produtivos mais ecológicos.

“Como a maioria das tecnologias mais sustentáveis tem custos mais elevados de implementação e baixo impacto sobre a renda rural, é fundamental estabelecer um sistema de incentivo financeiro para apoiar a sua adoção”, afirma o trabalho.

Com apoio do Banco Mundial, governos federal, estadual e do setor privado, a previsão é de que o Rio Rural receba um total de US$ 200 milhões até 2018, atingindo uma área de 180 mil hectares e 78 mil agricultores. Desse total de agricultores, 47 mil recebem incentivos financeiros diretos e assistência técnica para melhorar a produtividade. Em troca, os agricultores se comprometem em conservar áreas florestais remanescentes.

(Com Estadão Conteúdo)

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