MULHERES
06/03/2015 21:45 -03 | Atualizado 22/01/2018 12:43 -02

ONG brasileira, W.I.L.L. luta contra o preconceito de gênero para impulsionar a carreira das executivas brasileiras

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Se as mulheres ainda enfrentam dificuldades para entrar no mercado de trabalho e ganhar um salário proporcional aos dos homens, imagina fazer parte de um conselho de administração ou chegar à liderança das empresas no País.

A tarefa não é nada fácil. Um estudo realizado em 2010 pelo Insper mostra que a participação das mulheres restringe-se a somente 10,3% dos conselhos de administração e apenas 5,6% das diretorias de empresas abertas no Brasil. O relatório foi feito com base em 153 empresas que participavam do Ibovespa entre 2004 e 2008.

De lá para cá, pouca coisa mudou. Com a saída conturbada de Graça Foster da presidência da Petrobras e de Dilma Pena do comando da Sabesp, as maiores empresas brasileiras de capital aberto passaram a ter apenas homens no comando.

Nenhuma das 63 companhias que integram o principal índice de ações da Bolsa, o Ibovespa, tem mulheres no posto de presidente. Um estudo da consultoria Bain & Company mostra ainda que apenas 4% dos principais executivos entre as 250 maiores empresas brasileiras são do sexo feminino.

"Muitas mulheres acabam não sendo nomeadas em conselhos, mesmo tendo competência para tal", explica Flávia Coelho Warde, diretora da AbrilPar Participações e uma das fundadoras da ONG W.I.L.L. (Woman in Leadership in Latin America).

A ONG, criada em dezembro de 2013, tem como objetivo mudar esse panorama.

"A W.I.L.L. quer fomentar o mercado de executivas. Mulheres que se destacam na arquitetura, medicina, mercado financeiro, ou em qualquer área, poderem ter voz participativa na sociedade."

Mesmo nova, a ONG já é reconhecida internacionalmente e abriu escritórios em Nova York e em Londres. "Não só no Brasil, mas em qualquer país, as mulheres são raramente chamadas para os conselhos de administração."

Segundo Flávia Coelho, crescem pesquisas em todo o mundo que apontam as diferenças e qualidades femininas como um valor a ser agregado a posições de liderança, tanto no ambiente de negócios, como na esfera política.

"Vários estudos apontam certas características fundamentais para posições de liderança como habilidades naturalmente femininas. Entre elas a inteligência emocional, empatia, resiliência, comprometimento e capacidade de avaliar consequências", afirmou Silvia Fazio, presidente da W.I.L.L. no Brasil.

Barreiras: elas sentem, mas eles reconhecem pouco

Segundo o estudo da Bain & Company, quando questionadas sobre o interesse em alcançar uma posição de alta gestão, 43% das mulheres dizem ter esse objetivo nos primeiros dois anos de empresa; enquanto 34% dos homens dizem o mesmo. No entanto, ao longo do tempo, os níveis de aspiração das mulheres caem mais de 60%, enquanto os dos homens permanecem os mesmos.

Entre os funcionários experientes (aqueles com dois ou mais anos de experiência), 34% dos homens ainda almejam o topo, enquanto apenas 16% das mulheres continuam com esse desejo.

Apesar de as mulheres serem mais de metade dos recém-formados e cerca de 40% dos especialistas em MBAs, elas representam magros 5% da lista dos principais CEOs da Fortune — rol das maiores companhias do mundo.

Silvia Fazio analisa que, no mundo inteiro, o preconceito ainda é apontado como principal barreira para acesso de mulheres aos cargos de presidente, vice-presidente e conselheira, e demais funções de liderança em grandes empresas de atuação internacional.

"Outra causa citada por grandes especialistas é a falta de estímulo recebida pela própria mulher para ambicionar posições de liderança, muitas vezes gerada por fatores socioculturais, que prescindem à capacidade e ao conhecimento", conta.

Para Flávia Coelho, a cultura corporativa ainda atrapalha a ascensão feminina. Ela conta que em áreas que lidam com muito dinheiro, como mercado financeiro e empreendedorismo, as mulheres sofrem ainda mais preconceito. "É o pensamento arcaico que prevalece, com premissas de que a mulher não precisa e não sabe trabalhar tanto quanto o homem."

Para tentar combater esses (e outros) problemas, a ONG vai agir por meio de palestras, artigos e workshops. A ideia é abrir um canal de contato entre as mulheres que queiram crescer na carreira e empresas que estejam abertas a incluí-las nos conselhos de administração. "Vamos tentar mostrar essa vantagem nas empresas da América Latina."

Sigam-me as boas

As mulheres que queiram construir sua carreira para alcançar um cargo de liderança devem, primeiramente, se espelhar naquelas que chegaram lá, orienta Flávia Coelho. "Além disso, elas devem confiar em seu potencial, ter segurança sobre o seu trabalho e gostar do que fazem."