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04/03/2015 18:48 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Pastor ligado a Malafaia ameaça PT no comando da Comissão de Direitos Humanos; evangélicos isolam Jean Wyllys

Montagem/Estadão Conteúdo

Em uma manobra orquestrada com os líderes dos partidos, a Bancada Evangélica registrou uma candidatura avulsa para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e isolou parlamentares que poderiam votar contra, como o deputado Jean Wyllys (PSol-RJ).

Horas antes do início da sessão em que seria eleito o presidente, líderes de alguns partidos modificaram a composição da colegiado. O PTB, que tinha cedido uma vaga ao deputado do PSol, por exemplo, voltou atrás e o excluiu. No lugar de Jean Wyllys, o partido indicou Ronaldo Nogueira (PTB-RS), considerado representante da Assembleia de Deus gaúcha na Câmara.

Com o colegiado repleto de votos da Bancada Evangélica, o deputado Sóstenes Cavalcanti (PSD-RJ), da Assembleia de Deus de Jacarepaguá, registrou a candidatura avulsa para concorrer ao posto com o deputado Paulo Pimenta (PT-RS). Pimenta foi indicado pelo PT, partido que ficou com o comando da comissão na divisão feita pelo Colégio de Líderes.

Acordo

Pelas regras de proporcionalidade da Casa, os líderes escolhem pelo bloco e partido qual legenda vai ficar com qual comissão. O bloco liderado pelo PT, ao qual o PSD faz parte, teve direito a sete, sendo que pela, proporcionalidade de deputados por partido, os petistas ficaram com duas e o partido de Sóstenes, também com duas.

De acordo com uma resolução do STF, cabem candidaturas avulsas neste ano apenas entre deputados do mesmo bloco, o que se encaixa nesse caso. Ainda assim, o deputado Assis de Couto (PT-PR), atual presidente da Comissão da Direitos Humanos, indeferiu a candidatura de Sóstenes.

A sessão foi marcada por discussões e pelo desespero do líder do PT, Sibá Machado (AC), em tentar costurar um acordo de última hora para não perder o comando do colegiado.

O PT conseguiu suspender a sessão por meia hora e pediu ao líder do PSD, Rogério Rosso (DF), que impedisse a candidatura de Sóstenes. Sem consenso, uma nova sessão foi marcada para a escolha do presidente na próxima quarta-feira (11). O PT tem até lá para articular o comando da comissão.

Para Paulo Pimenta, nesse período, Sóstenes vai perceber que é melhor recuar.

"O deputado, como pastor evangélico, sabe que cumprir a palavra é um grande ato. Tenho certeza que a atitude dele, como pastor, será a de voltar atrás. Não acredito que um servo de Deus não vá voltar atrás pela honra da palavra."

Sóstenes, por outro lado, garantiu que permanece candidato.

"Não entendo o porquê de tanto preconceito com a minha candidatura. Eles poderiam perder e preferiram fazer essa manobra de suspender a sessão. Não fui comunicado que não poderia ser candidato. Fui comunicado apenas depois de ter me inscrito, e recuar agora seria ridículo. Não vou fazer isso de maneira nenhuma."

Aliado do pastor Silas Malafaia, o deputado disse ainda que os países liderados pela esquerda estão "lá embaixo" nos rankings de direitos humanos. "E os que são ligados ao protestantismo estão lá em cima. Como pastor, a vida é o principal valor para mim. Sempre militei pelos direitos humanos, não terei problemas em dialogar", justificou.

Articulação

Se Couto não tivesse sido reeleito em 2014 e a comissão tivesse sido presidida pelo deputado mais velho — Jair Bolsonaro (PP-RJ), os evangélicos teriam emplacado o presidente. Nas contas deles, pelo menos 15 integrantes da comissão optariam por Sóstenes.

Além de Bolsonaro, um dos principais defensores da candidatura do pessedista é o deputado Marco Feliciano (PSC-SP), que presidiu a comissão em 2013.

A gestão dele foi marcada por conflitos entre progressistas e conservadores. Na época, a maior polêmica ocorreu em torno do projeto da "cura gay", que previa tratamento psicológico para curar a homossexualidade.

O movimento da Bancada Evangélica também significa mais uma derrota política ao governo da presidente Dilma Rousseff. A maioria dos partidos que participaram da articulação são da base aliada.

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