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04/03/2015 15:30 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Benjamin Netanyahu mentiu para o Congresso americano? Checamos cinco afirmações que ele fez em seu discurso

AP Photo

Em um controverso discurso perante o Congresso dos Estados Unidos, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu advertiu que as negociações internacionais sobre o programa nuclear iraniano poderiam colocar em risco a segurança internacional e a de Israel.

Em uma fala cheia de trocadilhos, platitudes e referências aos “persas” (um nome histórico para os iranianos), Netanyahu delineou os perigos de um Irã com armas nucleares, um assunto que preocupa o líder israelense há décadas.

Enquanto Netanyahu falava em Washington, o secretário de Estado americano, John Kerry, estava reunido na Suíça com seu colega iraniano na mais recente rodada de negociações entre o Irã e o grupo de seis potências conhecido como P5+1 – Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido, França e Alemanha. O grupo definiu o fim de março como o prazo para que se chegue a um princípio de acordo que restrinja a atividade nuclear iraniana em troca de um alívio gradual nas sanções econômicas.

Os discursos de Netanyahu são notórios por suas bravatas retóricas, seu inglês impecável e até mesmo cartuns. Para além do estilo, o World Post decidiu conferir a substância do que disse o líder israelense, checando algumas das afirmações feitas por Netanyahu em seu discurso:

1. O Irã apoia a desordem promovida pelas milícias xiitas no Iraque.

“O documento fundador do Irã promete morte, tirania e a busca da jihad. E, com o colapso de Estados no Oriente Médio, o Irã está atacando os espaços vazios justamente com esse objetivo.

Os jagunços do Irã em Gaza, seus lacaios no Líbano, seus guardas revolucionários nas Colinas do Golã estão cercando Israel com três tentáculos do terror. Apoiado pelo Irã, [Bashar] Assad está massacrando os sírios. Apoiadas pelo Irã, milícias xiitas estão promovendo a desordem em todo o Iraque.”

O Irã reconheceu apoiar milícias xiitas no Iraque e também o Exército Iraquiano. E essas milícias têm sido acusadas por grupos internacionais de defesa dos direitos humanos de cometer violência terrível contra civis.

Mas as milícias estão – para o bem ou para o mal – ajudando o Exército iraquiano a manter-se em pé na luta contra os militantes do Estado Islâmico. O Irã afirma buscar estabilidade, não caos, em seu vizinho. E o governo iraquiano diz que a assistência iraniana tem sido fundamental para conter o avanço dos militantes. Os Estados Unidos até aceitaram tacitamente o papel do Irã na luta do Iraque contra o Estado Islâmico.

2. O Irã é responsável por milhares de baixas americanas no Iraque e no Afeganistão.

“O Irã tomou dezenas de americanos como reféns em Teerã, assassinou centenas de soldados e marines americanos em Beirute e foi responsável pela morte e pela mutilação de milhares de americanos e americanas no Iraque e no Afeganistão.”

Autoridades americanas afirmam que o Irã apoiou grupos insurgentes que combateram as forças dos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão na última década. A afirmação de Netanyahu de que o Irã é responsável por “milhares” de baixas americanas ecoa declarações de políticos americanos, incluindo um recente discurso do senador republicano Tom Cotton, do Arkansas. Não está claro em que esses dados se baseiam, mas eles são genéricos o suficiente para que provavelmente sejam verdadeiros.

Quase 7 000 soldados americanos foram mortos e centenas de milhares feridos nos conflitos do Iraque e do Afeganistão. As estimativas variam no que diz respeito à responsabilidade dos milicianos apoiados pelo Irã, mas o embaixador americano no Iraque disse em 2010 que, até então, grupos apoiados pelo Irã eram responsáveis por cerca de um quarto das mortes americanas.

3. O Irã e o Estado Islâmico só discordam sobre quem está no comando.

“O Irã e o ISIS estão competindo pela coroa do Islã militante. Um se denomina República Islâmica. O outro, Estado Islâmico. Ambos querem estabelecer um império militar primeiro na região e depois no mundo. Eles só discordam entre si sobre quem terá o comando desse império.”

Irã e ISIS têm muitas outras discordâncias. As básicas: a religião oficial do Irã é a denominação xiita do Islã; o ISIS considera os xiitas apóstatas. O regime pós-revolução do Irã mistura teocracia com (imperfeitas) eleições democráticas; o ISIS chamaa democracia de “perversão”.

Comparar ISIS e Irã é problemático e enganoso. Suas lideranças podem ter uma coisa em comum – a identificação com a segunda maior religião do mundo. Mas o Irã é uma nação de 80 milhões de habitantes, diversa e dona de uma história longa e admirável. O ISIS é um grupo militante que emergiu em sua forma atual em 2013 e tem dezenas de milhares de combatentes, segundo estimativas da CIA.

4. O Irã não vai sofrer restrições depois de um acordo nuclear temporário.

“A segunda grande concessão cria um risco ainda maior de que o Irã consiga a bomba cumprindo o acordo. Porque todas as restrições ao programa nuclear iraniano vão expirar automaticamente em mais ou menos uma década.”

O presidente americano, Barack Obama, disse na segunda-feira que uma das condições dos Estados Unidos para um acordo é que o Irã congele por dez anos as atividades nucleares consideradas sensíveis. O Irã rejeita esse prazo.

Mesmo que um acordo futuro suspenda as restrições americanas no final desse período, o Irã ainda está sujeito a restrições internacionais sobre seu programa nuclear, pois é signatário do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (que não foi assinado por Israel). O Irã vem sendo repetidamente acusado pela Agência Internacional de Energia Atômica de zombar dessas restrições, mas seu programa nuclear não teria liberdade completa.

5. O acordo, como proposto hoje, permitiria que o Irã desenvolvesse armas nucleares em questão de semanas.

“O líder supremo iraniano diz isso abertamente. Ele afirma que o Irã quer ter 190 mil centrífugas, não 6.000 ou mesmo as 19 mil que o país tem hoje, mas dez vezes mais – 190 mil centrífugas enriquecendo urânio. Com essa capacidade enorme, o Irã poderia produzir combustível para um arsenal nuclear completo, e em questão de semanas.

Meu amigo de longa data John Kerry, secretário de Estado, confirmou na semana passada que o Irã poderia ter essa capacidade enorme de centrífugas quando o acordo expirar.

Peço que pensem nisso. O maior patrocinador de terrorismo global poderia estar a semanas de ter urânio enriquecido em quantidades suficientes para um arsenal de armas nucleares completo, e tudo isso com perfeita legitimidade internacional.”

A Casa Branca negou que vá aceitar um acordo que permita ao Irã desenvolver um programa de armas nucleares durante um congelamento de dez anos. Na verdade, os Estados Unidos insistem que qualquer acordo deva aumentar o prazo necessário para que o país seja capaz de desenvolver a bomba. Susan Rice, a chefe do Conselho de Segurança Nacional, disse na reunião do comitê de Assuntos Públicos Americano-Isralenses que os Estados Unidos querem que o acordo estenda esse prazo de desenvolvimento de armas, hoje estimado em vários meses, para pelo menos um ano.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.