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25/02/2015 01:12 -03 | Atualizado 23/05/2017 13:18 -03

Quem está falando a verdade sobre os trotes na Faculdade de Medicina da USP?

Montagem/Reprodução Facebook

Fundada em 1928, a Associação Atlética Acadêmica Oswaldo Cruz (AAAOC) foi criada para fomentar a prática esportiva entre os alunos da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). Porém, tanto a AAAOC quanto atléticas de universidades de todo o Brasil estão no centro do debate sobre trotes. É nelas que se concentram os veteranos acusados de abusos contra calouros. São em seus eventos que ocorrem casos de racismo, abuso físico, moral e sexual.

Convidados para dar o seu lado na CPI que apura na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), alunos e ex-alunos da FMUSP que integraram a atlética e o centro acadêmico da instituição relataram, em sua quase totalidade, um cenário de "alguns problemas" e um desconhecimento de situações degradantes ou reprováveis.

A postura irritou parlamentares e alunos que foram vítimas de trotes na faculdade.

A 'verdade' alegada...

A festa "Carecas no Bosque", realizada pela AAAOC em 2014, foi marcada por denúncias de agressões, homofobia e canções preconceituosas. Os casos foram relatados na página da festa no Facebook.

Presidente da atlética durante o ano passado, Douglas Rodrigues da Costa, estudante da FMUSP e atleta de beisebol, defendeu as ações da entidade sob sua gestão. Segundo ele, a festa posterior à "Carecas" acabou cancelada devido aos problemas. As músicas entoadas eram antigas e "não deveriam ser levadas ao pé da letra".

Tesoureiro da Atlética em 2012, Pedro Henrique Shimiti Hashizume negou conhecer grupos de ódio dentro da faculdade e saber de atos de alcoolização forçada. Ele reforçou que as bebidas alcoólicas são fornecidas por empresas, a cujos contratos a CPI espera ter acesso.

André Orik Custódio Abe, aluno do 4º ano da FMUSP, ex-diretor social da Atlética, negou que "cafofos" sejam locais para estupros, mas sim para armazenamentos de bebidas. Ele negou ainda a exibição de filmes pornográficos e a presença de prostitutas nas festas.

O orgulho pelo Show Medicina, espetáculo teatral acusado de sexista e recheado de preconceitos contra minorias, é esboçado no perfil de alguns dos veteranos de Medicina.

Aliás, o show só voltará a ocorrer se "for reformulado", disse o diretor da FMUSP, José Otávio Costa Auler Junior. Ele não escondeu que mantém conversas com os veteranos e garantiu que as coisas terão de mudar.

"Veja bem, a Atlética terá de passar por uma reestruturação na questão da sua administração. Nós já estamos conversando com os alunos sobre isso. Eles estão entendendo que é necessária uma reestruturação. Em relação ao Show Medicina, ele no momento precisa passar por uma reformulação. Inclusive existe no Ministério Público um acordo para a construção de um termo de ajuste de conduta. Então vamos aguardar esse TAC e nesse momento todas as atividades estão proibidas. O que vai acontecer eu não sei, vamos esperar o que deve vir dessas discussões que estão surgindo agora."

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Show Medicina aparece com destaque em postagens de veteranos da FMUSP (Reprodução/Facebook)

Na Alesp, alunos negaram os trotes relatados por colegas durante o Show Medicina.

Leonardo Turra, 21 anos, aluno do 4º ano da FMUSP, foi um dos três estudantes que prestaram depoimento neste mês e definiram o show como uma "representação alegórica e jocosa de situações vividas por estudantes e médicos no cotidiano da faculdade". Disse que os participantes não são obrigados a nada e negou o resultado de uma sindicância que o apontou como vândalo de instalações do Serviço de Verificação de Óbitos da Capital (SVOC).

"A convivência é tranquila em clima de amizade", comentou o estudante Michel Oliveira Souza, 28 anos, do 5º ano da FMUSP, criticado por interpretar de maneira jocosa um homossexual no show, inspirando-se em outro aluno da instituição. Ele negou.

Raphael Kaeriyama e Silva, que era tesoureiro da atlética em 2011, afirmou que a entidade não é "esse monstro que estão criando", porém admitiu que as músicas preconceituosas e com palavras de baixo calão devem ser revistas.

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Trecho de canções consideradas 'tradicionais' na FMUSP (Thiago de Araújo/Brasil Post)

... e a verdade exposta

Outro a depor na Alesp foi o residente do 2º ano de Anestesiologia, formado pela FMUSP, Paulo Comarin. Ele compareceu à CPI para falar sobre postagem em grupo fechado da faculdade em que atacou um coletivo feminista.

"Não lembro mais o contexto da postagem", feita em dezembro de 2014, "no calor do momento" do início da CPI, e "nem conheço as pessoas que se sentiram ofendidas", disse Comarin.

O próprio ex-presidente da Atlética, Douglas Rodrigues da Costa, mostrou satisfação ao postar uma foto da chamada 'Espumada', evento no qual, segundo denúncias de calouras, elas ficam vulneráveis, uma vez que a espuma distribuída costuma cobrir a cabeça dos presentes, e não são poucas as que dizem ter sido apalpadas e beijadas a força por veteranos.

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Ex-presidente da atlética diz ter curtido evento alvo de denúncias de abusos (Reprodução/Facebook)

Talvez um alento para quem viveu na pele os absurdos do Show Medicina ou sofreu abusos em festas promovidas pela atlética está no que disse Diego Vinicius Santinelli Pestana, atual presidente da entidade.

De acordo com ele, em razão dos trotes, cada vez menos empresas estão dispostas a patrocinar as atividades da atlética. Como os colegas, alegou não saber de casos de estupro ou violência nos eventos.

Em sua defesa "pela mudança", a própria organização postou fotos de um evento solidário ocorrido neste mês...

... Mas também são comuns postagens como a seguinte, feita dias antes em outro perfil que alega falar pela atlética.

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Alunos de particulares 'fazem a festa' em trotes de 2015

Se os holofotes parecem repousar com mais amplitude sobre a USP, alunos de outras universidades paulistas estão 'fazendo a festa' em trotes contra calouros. A reportagem fez uma breve busca e encontrou vídeos e fotos de alguns eventos realizados por estudantes da Universidade Presbiteriana Mackenzie e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Em comum, as postagens apontam para um suposto clima de diversão, regado a muito álcool e, em alguns casos, outras drogas. Não fica claro, porém, que fim tiveram os eventuais descontentes com o trote - os quais, geralmente, são excluídos da vida acadêmica, quando não agredidos moralmente e fisicamente. Alunos do Mackenzie postaram bem mais conteúdos, os quais você pode ver abaixo.

Em uma delas, é ironizada a morte do calouro da FMUSP Edison Tsung-Chi Hsueh, encontrado sem vida em uma piscina da instituição em 1999.

Houve ainda quem ameaçasse os "bixos" da Mackenzie que tentassem escapar do trote.

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Recados como esse são comuns nas redes sociais (Reprodução/Facebook)

Entretanto, a PUC-SP não ficou atrás. E, claro, não faltaram as canções recheadas de palavrões e ameaças contra outras universidades.

Como se vê, os trotes seguem mais vivos do que nunca. É a realidade do discurso contra a que se vê nas ruas e universidades.

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