NOTÍCIAS
28/01/2015 10:09 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Bala de borracha atirada por PM causa infecção e morte de motorista de ônibus em Biguaçu, na Grande Florianópolis

Montagem/Twitter e Facebook

Descrito pela Polícia Militar brasileira como “munição de impacto controlado” e “não-letal”, o elastômero (nome técnico da bala de borracha) fez uma vítima fatal no município de Biguaçu, na região metropolitana de Florianópolis. A vítima foi o motorista de ônibus Carlos Alexandre Santos, de 32 anos, morreu após ser atingido a uma curta distância por um disparo, contrair uma infecção e morrer após sete dias.

Em conversa com a reportagem do Brasil Post, a irmã da vítima, Ana Cláudia Santos, disse que o atestado de óbito, assinado pelo legista Gabriel Ohana Marques Azzini, aponta como causa da morte de Carlos Alexandre – chamado de Xande pelos amigos e familiares – “choque séptico causado por ferimento não letal (sic)”. “Ele foi vítima de um policial despreparado”, afirmou.

De acordo com a família, na noite do último dia 10 de janeiro um churrasco foi realizado na casa de um das irmãs de Carlos Alexandre. Lá, após algumas horas, um irmão da vítima estava alcoolizado e “houve uma briga”, explicou Ana Cláudia. O motorista teria tentado acalmar o irmão, mas diante da confusão os vizinhos teriam ligado para polícia. A mãe da vítima, Laureci da Rosa, de 53 anos, garante que nenhum dos filhos reagiu e que houve truculência dos PMs.

Os familiares dizem que Carlos Alexandre colocou as mãos na cabeça e não reagiu, mas acabou sendo atingido por um disparo de Taser (arma de choque elétrico). Quando tentava se levantar, recebeu mais dois tiros de bala de borracha dos PMs. Um deles o atingiu na altura da axila e, durante a prestação de socorro, apenas um simples curativo foi feito. Quatro dias depois, ele passou mal e se descobriu o motivo.

“Na quarta-feira ele passou mal e, no hospital, viram que ficou um pedaço da bala de borracha dentro dele”, revelou Ana. O quadro se agravou e Carlos Alexandre morreu no dia 17. Para a família, ficou a tristeza da perda – a vítima deixou mulher e uma filha de oito anos – e a revolta com a ação policial desastrosa. De acordo com a irmã, o PM fez o disparo “a 4 ou 5 metros de distância”, quando o regulamento da corporação pede uma distância mínima de 20 metros, com a mira voltada para os membros inferiores.

“Agora é aquele processo todo. Estivemos na corregedoria (da PM) e eles vão ver se teve abuso. Vamos esperar uma resposta da polícia”, explicou Ana, dizendo que a família ainda não sabe se irá processar a PM e o Estado pela tragédia. Já a empresa de ônibus onde Carlos Alexandre trabalhava vem prestando auxílio financeiro aos familiares, que clamam por Justiça.

postana

Irmã de Carlos Alexandre pede por Justiça após tragédia em Biguaçu (Reprodução/Facebook)

“Meu irmão estava sem camisa e sem arma nenhuma, não apresentava nenhum perigo à eles (PMs). O policial responsável pela guarnição não teve voz ativa p mandar esse ‘animal’ parar de atirar. Foram quatro tiros, sendo que dois acertaram ele. Vamos fazer justiça até o fim. Meu irmão era um cara do bem, pode ser mais um para a corregedoria sim, mas se todos que passaram por isso denunciarem, um dia quem sabe parem com tanta violência. E esse policial vai pagar por ter acabado com minha família. Se não for a justiça do homem, mas a de Deus vai ser feita (sic)”, escreveu a irmã da vítima em sua página no Facebook.

Investigações em andamento

Há dois inquéritos instaurados para apurar o caso, um na Polícia Civil e outro na Polícia Militar. Segundo disse ao Brasil Post o major João Batista Reus, da área de comunicação da PM catarinense, a corporação vai aguardar as investigações antes de se pronunciar. “O inquérito militar de número 49 foi instaurado e vamos esperar, até para não atrapalhar as investigações”, comentou.

Ainda de acordo com o major Reus, os PMs envolvidos na ocorrência seguem trabalhando normalmente, já que “não há nenhum indício de crime” até o momento. “Não podemos prejulgar”, completou. A corregedoria da PM deve concluir as investigações em um prazo máximo de 40 dias, prorrogáveis por mais 20 se necessário. Por ora, apenas uma coisa é certa até mesmo para o porta-voz da Polícia Militar de Santa Catarina.

“Existe uma distância de segurança sim, mas se você atirar a 10 centímetros de distância é lógico que a bala de borracha vai entrar (no corpo)”, concluiu.

Violência da bala de borracha não é nova

Conforme documento disponível no site da Polícia Federal, o emprego da bala de borracha “visa à intimidação psicológica do agressor, preservando distância de segurança entre este e o vigilante”. Existem dez modelos no mercado, segundo um dos principais fabricantes. Entretanto, não é o que se vê por exemplo em manifestações de rua por todo o Brasil. Apenas na semana passada em São Paulo, um jornalista do jornal O Estado de S. Paulo foi alvo de um disparo...


... e a TV Estadão captou bem como há um latente despreparo da corporação em meio à tensão gerada pelos protestos (logo início do vídeo abaixo).

Pior foi a vida de um manifestante que acabou no hospital, com uma bala de borracha alojada na perna. Dois vídeos mostraram detalhes do incidente, semelhante ao que matou o motorista em Santa Catarina.


Também em São Paulo, o uso da bala de borracha já resultou em ferimentos graves, como a cegueira do fotógrafo Sérgio Silva, atingido por um disparo de bala de borracha em 2013. Até hoje ninguém foi punido pelo incidente.

No ano passado, a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) aprovou uma lei que proibia o uso de balas de borracha em protestos por parte da PM. Entretanto, a medida acabou vetada pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB). Na Justiça paulista, o mérito do tema ainda será discutido, já que movimentos sociais questionam o armamento. No Congresso também há uma discussão para regulamentar o uso do elastômero em todo o País.

Curta a gente no Facebook |
Siga a gente no Twitter

LEIA TAMBÉM

- Brasil tem 19 cidades entre as 50 mais violentas do mundo, aponta ONG mexicana (ESTUDO)

- "Matar ladrão é nosso dever e missão", diz PM que atuou no ato #ContraTarifa em SP; vídeos mostram abusos em protesto

- PMs são presos após executarem criminoso que não reagiu e forjarem cena de crime em SP

- A endêmica violência policial que 'nos empurra' para as Jornadas de Junho