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14/01/2015 15:38 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

"Matar ladrão é nosso dever e missão", diz PM que atuou no ato #ContraTarifa em SP; vídeos mostram abusos em protesto

Montagem/Estadão Conteúdo e Facebook

A primeira grande manifestação do ano em São Paulo gerou múltiplas versões e, mais uma vez, expôs a truculência da Polícia Militar. Cinquenta e três pessoas foram presas no 1º Ato #ContraTarifa, realizado na última sexta-feira (9) pelo Movimento Passe Livre (MPL), acusadas de vandalismo, desacato e outros crimes. Se não faltam páginas de coletivos para denunciar o abuso policial, também há uma ‘estrela’ do lado dos militares.

O 1º tenente André Silva Rosa integra os quadros das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), a força de elite da PM paulista. Em sua página no Facebook (deletada após a publicação desta matéria), ele não deixou de exaltar a ação policial durante a manifestação de sexta-feira passada, sob o olhar da tropa.

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Curiosamente, ao que parece, o tom conciliador não era uma premissa para a 'ação de choque' descrita pelo policial.

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Sem surpreender, o policial ainda mostra que o discurso do “bandido bom é bandido morto” vigora mesmo. Não por acaso, em uma postagem do dia 14 de dezembro do ano passado, ele lamentou a morte de um colega de farda e deixou claro qual é a missão da PM. “Matar ladrão não é um acaso ou acidente indesejado mas é sim nosso dever e missão (sic)”, escreveu.

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Todavia, casos como a perseguição desastrosa de PMs no Rio de Janeiro, que resultou na morte de uma estudante, mostram que nem sempre quem a polícia considera um criminoso deva ser morto. Não é só: a pena de morte não está prevista na Constituição Federal e ‘justiçamentos’ não são aceitos pelo Código Penal.

“A função da polícia não é matar ninguém. Usar a arma é o último recurso. O PM é agente público, a função é difícil, mas não significa que pode atirar primeiro e perguntar depois”, disse em 2011, ao jornal O Estado de S. Paulo, o então ouvidor da corporação, Luiz Gonzaga Dantas.

1º Ato #ContraTarifa em vídeos


Recentemente, uma outra página que divulgava informações (às vezes fotos de cenas de crime) e exaltava a violência policial foi alvo da Justiça e teve o seu conteúdo barrado.

Violência policial não é ficção

No Brasil, seis pessoas são mortas pela polícia por dia, segundo o 8º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em novembro do ano passado. Nesse aspecto, a PM de SP está entre as mais letais, com 816 mortes entre janeiros e novembro de 2014, segundo reportagem do R7. É uma morte a cada 9,8 horas.

"É uma coisa absurda, que não existe em um país desenvolvido e democrático. Então, esses homicídios eu aproveito para deixar que a imprensa saiba e informe o que está acontecendo no Estado de São Paulo. Por exemplo, na Inglaterra os tiros que são disparados, que são muito poucos, são vistos e revistos e ainda são analisados pelo Estado, para que se saiba quais motivos levaram aos disparos. Aqui, com tantas mortes, é encarado como uma normalidade", disse ao Brasil Post o atual ouvidor das polícias, Julio César Fernandes Neves.

Semana de denúncias contra a PM

A semana após o ato contra a tarifa do transporte público na capital paulista também trouxe outras denúncias contra a PM. A primeira foi a corporação usar suas redes sociais para comparar black blocs com o PCC, facção criminosa que domina os presídios de SP e outros Estados. A montagem repercutiu negativamente e acabou deletada – logicamente, ela continua sendo encontrada na internet.

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Polêmica postagem não foi aprovada pelo governo de SP e acabou deletada (Reprodução/Facebook)

Uma página de black blocs de SP aproveitou para ironizar a postagem policial no Facebook.


Discursos à parte, o governador Geraldo Alckmin reprovou o uso das redes sociais da PM para tal fim. “As páginas oficiais de serviço público sempre devem ter caráter mais informativo”, comentou. Ele pediu ao secretário de segurança pública, Alexandre de Moraes, que reoriente os servidores para que deixem de publicar este tipo de mensagem.

Ao jornal Folha de S. Paulo, a corporação disse que “não faz afirmações nem julgamentos” e que o que há é “apenas uma pergunta que convida à reflexão dos internautas”. Por fim, ela diz defender a liberdade de expressão, “inclusive a nossa”.

Outra denúncia foi divulgada pelo site SPressoSP e diz respeito à conduta de um policial durante o ato da última sexta-feira. Segundo o site, embasado por um vídeo, esse PM teria perguntado para a namorada de um jovem detido durante o protesto se ela “queria dar a b..... pra ele”.

“Doeu mais do que a borrachada”, afirmou a mulher ao site. A Secretaria de Segurança Pública disse que iria investigar o caso.

Um novo ato #ContraTarifa, organizado pelo MPL e outros movimentos sociais, está marcado para esta sexta-feira (16), às 17h, na Praça do Ciclista, na Avenida Paulista.

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