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12/01/2015 12:25 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Atentados na França: Entenda como a ‘Guerra do Terror' dos EUA incentiva extremismo como o dos irmãos Kouachi

Montagem/AP Photo

Responsáveis pelo ataque à revista Charlie Hebdo, os irmãos Said e Cherif Kouachi são o reflexo de um extremismo islâmico exacerbado e que preocupa autoridades de todo o mundo. Said, inclusive, conheceu no Iêmen o líder muçulmano Anwar al Awlaki, nascido nos Estados Unidos e ligado à rede terrorista Al-Qaeda. E é isso que coloca ‘sangue nas mãos’ do governo norte-americano.

Anwar al Awlaki foi morto por um bombardeio feito por drones no Iêmen, em 2011. Pouco tempo depois foi a vez do seu filho, de 16 anos, ser morto em um novo ataque – apesar de não ter envolvimento com práticas terroristas. O caso foi amplamente explorado no documentário Dirty Wars (Guerras Sujas, em português), do jornalista investigativo americano Jeremy Scahill. A apuração dele aborda ainda a política militar dos EUA no Afeganistão e na Somália.

“Antes dele ser morto, a família de al Awlaki desafiou o governo americano sobre o direito de matar um cidadão americano sem dar acesso à defesa adequada”, disse Scahill à revista Nation, em abril de 2013. A Casa Branca ligou o líder islâmico a uma tentativa de atentado a bomba em um avião em Detroit, em 2009, e um tiroteio que acabou com 13 mortos em Fort Hood, no mesmo ano - sem provas, de acordo com a investigação de Scahill.

Com ações militares pouco claras e recheadas de unilateralismo, a Guerra ao Terror americana pelo mundo, mais notadamente no Oriente Médio, alimenta o extremismo islâmico – da mesma forma que os atentados da semana passada ajudaram o discurso da extrema-direita francesa, expressa pela líder Marine Le Pen. Pouco depois dos atentados que mataram 17 pessoas em Paris, ela evocou a necessidade da volta da pena de morte no país.

“Terrorismo não é o produto de políticas radicais, mas um sintoma de impotência política”, disse Arun Kundnani, autor do livro “Os Muçulmanos vem aí!: Islamofobia, extremismo e a guerra doméstica ao terror”, ao jornal britânico The Guardian. Como Scahill, ele defende em seu livro como as forças de segurança de países como EUA e Grã-Bretanha vêm respondendo com medidas exageradas o ‘combate ao terror’, invadindo vidas e, por consequência, transformando a repressão em extremismo na vida de alguns indivíduos.

Os irmãos Kouachi estavam em uma lista do governo americano de 1,2 milhões de pessoas consideradas “suspeitas de contraterrorismo”. Um número desproporcional, segundo especialistas, e estigmatiza a comunidade muçulmana.

“Sempre haverá extremismo que recorrem à violência, mesmo na Noruega e nos EUA. Lembra-se de Timothy McVeigh e de Anders Breivik? Nós precisamos nos equipar com forças de segurança que saibam lidar com o problema, mas sem exagerá-lo. A resposta precisa ser cultural, não só policial”, analisou Daniel Serwer, diplomata, historiador e professor da Universidade Johns Hopkins de Washington, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo.

Cúpula de segurança e endurecimento

Longe da França, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, anunciou na semana passada um convite a aliados para uma cúpula de segurança em 18 de fevereiro, em Washington. O foco é tentar evitar ações violentas do extremismo, segundo informou o procurador-geral norte-americano, Eric Holder, após encontrar seus colegas europeus em Paris.

“Reuniremos todos os nossos aliados para discutir formas com as quais podemos contra-atacar esse extremismo violento que existe no mundo todo”, disse Holder a jornalistas. O ministro francês do Interior, Bernard Cazeneuve, afirmou após o encontro que os ministros do Interior europeus concordaram em ampliar a cooperação em um esforço para frustrar ataques jihadistas.

“Todos concordamos que precisamos criar melhores controles de certos passageiros, na base de critérios objetivos e respeitando as liberdades fundamentais e sem interromper as viagens entre fronteiras”, disse. Ele comentou também que a Europa precisava de um progresso urgente na estabilização da base de passageiros europeia, o que facilitaria a troca de dados sobre passageiros entre os Estados-membros.

(Com Reuters)

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