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11/01/2015 09:17 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Islamofobia: Atentados contra Charlie Hebdo, em Paris, podem piorar discriminação de muçulmanos na Europa

Pascal Le Segretain/Getty Images

Os ataques terroristas em Paris, envolvendo fundamentalistas islâmicos, colocaram, novamente, a islamofobia no centro das discussões.

O mundo assistiu, no final do ano passado e no começo de 2015, uma onda de protestos islamofóbicos na Alemanha, seguidos por manifestações contrárias.

Com os novos acontecimentos da última semana, alguns estudiosos apostam em um aumento da islamofobia na Europa, especificamente na França, onde dois homens armados mataram 12 pessoas durante um atentado contra a redação da revista satírica Charlie Hebdo, conhecida por charges que ironizam, entre outras figuras, o profeta Maomé.

O cientista político Nabil Ennasri, teme que os últimos acontecimentos possam dividir a sociedade francesa. "As mulheres muçulmanas que usam o hijab serão agredidas e nossas mesquitas serão atacadas", afirmou à rede Al Jazeera, acrescentando que não está "nem um pouco otimista".

Owen Jones, colunista do jornal The Guardian afirma que o momento atual é "perigoso".

"Este incidente deve legitimamente horrorizar, mas agora vai, sem dúvida, ser um combustível na já ascendente extrema-direita", escreveu.

Organizados principalmente pelo movimento “anti-islamização”Pegida (sigla em alemão para Europeus Patriotas Contra a Islamização do Ocidente),os protestos chegaram ao ápice na última segunda-feira (5), quando 18 mil manifestantes a favor do grupo se reuniram em Dresden. Em uma tentativa de combate o movimento racista, diversas manifestações foram organizadas contra o Pegida.

Segundo a imprensa local, mais de 30 mil pessoas saíram em todo o país para inibir as marchas islamofóbicas. De acordo com a DW, em Colônia, Berlim e Munique, simpatizantes do Pegida abandonaram os eventos, alegando falta de segurança.

No começo desta semana, a catedral gótica de Colônia ficou às escuras, para que o monumento não servisse de holofote para os protestantes anti-islâmicos. A ação foi replicada em residências e também em outros importantes pontos turísticos alemães, como o Portão de Brandemburgo, em Berlim, a Ópera de Dresden e a sede da Volswagen, em Wlofsburg.

catedral

Além disso, o Bild, maior jornal da Alemanha publicou, na terça-feira (6), uma carta condenando a islamofobia. O manifesto foi endossado por 50 personalidades do país entre políticos, esportistas e astros da música.

O Pegida pede maior rigor na concessão de asilos e refúgios, além do controle dos países europeus sobre a influência de radicais islâmicos. A Alemanha é o país da União Europeia que mais vem admitindo refugiados, muitos deles muçulmanos que fogem da guerra civil da Síria.

As manifestações no país se intensificam desde meados de outubro e, no final de dezembro, 17 mil pessoas se reuniram em Dresden para pedir a “não islamização da Alemanha”. Os muçulmanos somam cerca de 0,4% da população de Dresden enquanto em outra cidades, como Frankfurt e Berlim, chegam a 12% e 9%, respectivamente.

A islamofobia não acontece só na Alemanha, e se concretiza, principalmente, em pequenas atitudes no dia a dia – assim como qualquer atitude racista.

França

Na França, por exemplo, as mulheres são proibidas por lei de usarem o niqab em espaços públicos. Em outubro, uma mulher foi expulsa de Ópera de Paris, por estar com a cabeça coberta.

O uso de um véu que cubra todo o rosto – como é o caso no niqab, que só deixa os olhos e parte da testa a mostra – é proibido no país. Desde 2011, ocultar o rosto em lugares públicos pode acarretar em uma multa de € 150 e na obrigação de fazer um “curso de cidadania”.

O Coletivo Contra a Islamofobia registrou, em 2013, 691 atos islamofóbicos no país – um crescimento de 47% comparado com o ano anterior.

Após os ataques da última semana, Rashid Abdulrahim disse à Al Jazeera temer que "as coisas fiquem ainda piores".

"Mesmo antes dos ataques, era normal nós sofrermos insultos de pessoas que não gostam de muçulmanos".

A mídia francesa também reportou uma série de outros casos envolvendo insultos à muçulmanos - que não tinham nenhuma ligação com os atentados - na última semana. Cerca de 5 milhões de muçulmanos vivem no país.

Em discurso proferido nesta sexta-feira (9), Hollande afirmou que os autores dos ataques são "fanáticos que não tem nada a ver com a religião muçulmana".

Suécia

Na Suécia, no mês passado, três mesquitas foram atacadas. As tentativas de incêndio motivaram um protesto em frente ao parlamento do país pedindo mais respeito aos muçulmanos.

A ministra da Cultura, Alice Bah Kuhnke, afirmou que o governo vai elaborar uma estratégia nacional para conter a islamofobia. “A ideia é educar o povo sobre o islã e frear o preconceito”.

O Partido Democrata da Suécia, que ganhou 13% dos votos na última eleição, em setembro de 2014, quer cortar em 90% os pedidos de asilo ao país.

Holanda

Uma mesquita na cidade holandesa de Enschede também foi alvo de vandalismo no ano passado. Um homem – que não foi identificado – explodiu fogos de artifício em frente ao estabelecimento, e quebrou a janela.

Mais de um terço das 475 mesquitas na Holanda já sofreram vandalismo, foram destino de cartas com ameaças, foram incendiadas ou tiveram cabeças de porcos colocadas em suas portas, de acordo com o pesquisador Ineke van der Valk, autor do livro Islamofobia e Discriminação (em tradução livre).

Internet

Na internet, o racismo – não só contra os islâmicos – é frequente.

Por exemplo: um pequeno comentário publicado no site Politicamente Incorreto, que se descreve como sendo “contra a islamização da Europa”, afirma que o islamismo é um “obstáculo para a integração”. O portal conta com vários outros comentários e vídeos anti-islâmicos.

Grandes redes sociais, como o Twitter e o Facebook têm se recusado a retirar comentários islamofóbicos do ar, segundo investigação feita pelo jornal The Independent. De acordo com a publicação, alguns comentários acusam muçulmanos de serem “estupradores, pedófilos e comparáveis com câncer”.

Inglaterra


O English Defence League, grupo que afirma “protestar pacificamente contra os militantes islâmicos”, começou o ano de 2015 pedindo aos seus quase 180 mil seguidores que boicotem motoristas de taxi muçulmanos. Na Inglaterra, a Polícia Metropolitana registrou 500 crimes islamofóbicos em 2013.

Yasmeen Khalid, 21, contou à Sky News que sempre sofreu abusos em Bromsgrove, no interior da Inglaterra.

Ela afirma que o uso do hijab – véu que cobre a cabeça – a torna um alvo mais fácil.

“Já fui chamada de terrorista, ‘Paki’, taleban, e coisas assim”. “Algumas vezes eu respondo, algumas vezes eu só choro, fujo pra algum lugar e choro, porque não sei o que fazer”.