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07/01/2015 10:16 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Mais de mil trabalhadores são demitidos pela indústria automobilística e número pode dobrar no 1º trimestre de 2015

Montagem/Estadão Conteúdo

Desenhada há meses, a crise na indústria automobilística do Brasil já respingou nos trabalhadores em 2015. Mais de mil funcionários das montadoras Volkswagen e Mercedes-Benz foram demitidos nesta segunda semana de janeiro, segundo o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC paulista. Na Volks, uma greve se inicia nesta quarta-feira (7). Na Mercedes, uma pode ser deflagrada. E mais demissões podem dobrar o número de desempregados no setor no primeiro trimestre de 2015.

“Não podemos aceitar esta demissão em massa”, disse o secretário-geral do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC paulista, Wagner Santana, o Wagnão, durante a assembleia na manhã de terça-feira (6). Os 13 mil trabalhadores da fábrica Anchieta da Volks, no ABC, aprovaram uma paralisação por tempo indeterminado após a demissão de 800 metalúrgicos. Os funcionários irão comparecer à unidade, mas cruzarão os braços até que as demissões sejam revertidas.

“Pelo acordo, negociado em 2012, não poderia ocorrer demissões na fábrica desta forma unilateral como aconteceu”, completou Wagnão, explicando que demissões só poderiam ser feitas por meio do chamado PDV (Plano de Demissões Voluntárias) ou por tempo de aposentadoria. As dispensas na Volks podem aumentar nas próximas semanas, com 1,3 mil funcionários ameaçados, já que a montadora vê um excedente de 2,1 mil trabalhadores.

Telegramas como o abaixo foram enviados aos trabalhadores já demitidos pela empresa, que havia prometido estabilidade aos trabalhadores até 2016, com base no acordo firmado em 2012.

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Carta enviada aos trabalhadores já desligados (Reprodução/Sindicato dos Metalúrgicos do ABC)

Já a direção da Volks informou, em nota, que procurou negociar com o sindicato em 2014 “uma proposta que permitisse a adequação necessária da estrutura de custos e efetivo da unidade”, porém o acordo foi rejeitado em assembleia da categoria no dia 2 de dezembro. “Mas continua urgente a necessidade de adequação de efetivo e otimização de custos para melhorar as condições de competitividade da Anchieta, motivo pelo qual a empresa inicia a sua primeira etapa de adequação de efetivo”, explicou a montadora. Cortes na unidade de Curitiba não foram informados.

Na Mercedes, o sindicato afirma que 244 trabalhadores já foram demitidos. A entidade dos trabalhadores disse ao G1 que havia um acordo de renovação para o layoff (modalidade em que parte do salário é paga pelo governo federal, via Fundo de Amparo ao Trabalhador) de todos os 1.015 funcionários afastados por mais cinco meses, até abril deste ano. Contudo, 244 funcionários ficaram de fora. Parte teria aderido ao PDV da montadora. A Mercedes confirmou dispensas, mas não divulgou números.

Uma assembleia com trabalhadores da Mercedes de São Bernardo do Campo acontece nesta quarta-feira e uma paralisação, nos moldes da em andamento na Volks, não está descartada.

Cenário pode piorar

O ano de 2014 terminou com uma queda de 7,1% nas vendas totais da indústria automobilística no Brasil. Foram comercializadas 3,5 milhões de unidades, incluindo caminhões e ônibus, mas o cenário, em porcentual, foi o pior registrado pelo setor em 12 anos. A isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) não foi o bastante no ano passado e a taxação retornou a partir de janeiro, o que aumenta a pressão para as empresas.

As exportações de veículos produzidos no País também se retraíram em cerca de 40%, o que também contribuiu para uma queda de 15% na produção de veículos.

Além disso, o afastamento de trabalhadores em outras montadoras está em andamento, segundo reportagem do Bom Dia Brasil, da TV Globo. No interior de São Paulo, a Ford suspendeu contratos de 160 funcionários que também trabalham em sistema de layoff, até o fim de março. Na General Motors, em São José dos Campos (SP), outros 800 trabalhadores do mesmo regime tiveram contratos suspensos até fevereiro. Os outros funcionários estão em férias coletivas até o dia 19 deste mês.

Ou seja, o número de demitidos pode dobrar no primeiro trimestre de 2015. Segundo o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, até novembro de 2014 as montadoras demitiram 10,8 mil funcionários, de um total de 146 mil trabalhadores. Um levantamento consolidado do ano passado deve ser fechado ainda nesta semana pela entidade.

“A mobilização dos companheiros da Volks tem toda nossa solidariedade. É necessário toda unidade na luta contra esses ataques. Por isso, chamamos todas as centrais sindicais a se unirem e exigirem da presidente Dilma a edição de uma medida provisória que determine a estabilidade no emprego”, afirma o secretário-geral do sindicato, Luiz Carlos Prates, o Mancha.

Ministro do Trabalho tenta ‘apagar incêndio’

Ciente das demissões no ABC paulista, o ministro do Trabalho Manoel Dias esteve em contato com dirigentes do sindicato e da Volkswagen. De acordo com ele, há disposição em dialogar em busca do que chamou de “saída” para o embate. Todavia, os trabalhadores querem mais do que somente evitar as demissões, conforme disse Wagnão.

“Precisamos reequilibrar as relações entre capital e trabalho e isso só será feito de forma coletiva e solidária”, disse. “Precisamos de um mecanismo que seja uma vacina permanente para estas situações”, complementou o presidente do sindicato do ABC, Rafael Marques, que se mostrou favorável a um novo sistema de proteção dos empregos no setor junto ao governo federal.

“Esta proteção já existe em alguns países, que conseguiram com isso diminuir o impacto da crise europeia sobre suas economias, como é o caso da própria Alemanha, que abriga a matriz da Volks. Essa política de proteção ao emprego evita que o trabalhador pague o preço pelas oscilações que são frequentes no mercado, se já existisse poderia ter sido utilizada no caso desta planta da Volks”, concluiu.

“Nos últimos anos, a presidente tomou uma série de medidas que garantiram os lucros dos empresários e não pode assistir calada a tantas demissões e ataques aos trabalhadores”, emendou Mancha, do sindicato de São José dos Campos.

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