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25/12/2014 16:17 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:35 -02

6 coisas que os obituários podem ensinar sobre viver melhor

Luiz Gustavo Leme

Para muitos, os obituários podem parecer uma tarefa triste de realizar, mas nada poderia estar mais longe da verdade para as pessoas que os escrevem. "Eu nunca descrevo como as pessoas morrem”, disse Anne Wroe, que escreve obituários para a revista The Economist, em uma entrevista ao The Hairpin. "Porque eu não acho que isso seja algo importante. Eu acho que um obituário é uma forma de celebrar a vida."

E dentro dessas "celebrações" impressas existem muitos temas e lições comuns que podem servir de inspiração para o resto de nós — sobre o que realmente importa e como podemos aproveitar ao máximo o tempo que nos resta.

"As pessoas têm um medo primordial da morte, mas 98% dos óbitos não têm nada a ver com a morte e sim com a vida", disse Margalit Fox, escritora do New York Times, em entrevista ao Paris Review. "Nós gostamos de dizer que é o departamento mais alegre do jornal", disse. Com isso em mente, eis aqui algumas lições que os obituários podem ensinar sobre como viver melhor:

1. Não espere

Bryan Marquard, que escreve obituários para o jornal The Boston Globe, escreveu um post sobre as muitas lições que ele aprendeu enquanto escrevia sobre a vida de 800 pessoas — e uma dessas lições é tão simples quanto urgente: aja agora.

"Por eu pensar muito sobre a morte, eu percebi no ano passado que se eu viver exatamente o tempo que meu pai viveu, eu tenho ainda mais 25 anos pela frente. Essa epifania, juntamente com outros fatores, me levaram a mudar da Grande Boston para uma pequena cidade em Vermont" escreveu Marquard. "É uma longa viagem até o Boston Globe, mas eu amo onde moro. Acredite no que diz um escritor de obituários: não deixe pra depois o que você sempre quis fazer."

2. O humor sempre tem lugar

Ocasionalmente, podemos dar gargalhadas com alguns obituários, lembrando aos leitores que o humor e o riso são bens preciosos. Eles são, muitas vezes, o que as pessoas mais se lembram de uma pessoa.

"Você não quer tirar sarro de ninguém, mas você quer apreciar excentricidades, lembrar eventos incomuns e retransmitir incidentes ou comentários engraçados", disse Bruce Weber, que tem escrito obituários para o New York Times, em uma entrevista de 2008. Pegue o exemplo do popular obituário de 2013 para Mary Agnes Mullaney, conhecida por amigos e familiares como "Pink". Ele celebrava as muitas lições humorísticas que ela transmitia. “Nunca jogue fora uma meia-calça velha. Use as mais velhas para amarrar calhas, armários à prova de crianças, travas da privada ou pendurar enfeites de Natal", dizia o obituário. "Faça uma bagunça todas as manhãs."

3. Seja ousado

A escritora de obituários Laura Huber escreveu sobre as coisas que ela aprendeu em uma coluna de 2013 para o Jornal The Suffolk Times, e uma de suas principais mensagens era "viva uma vida sobre a qual valha a pena escrever".

"Eu tenho escrito e lido sobre pessoas que navegaram ao redor do mundo, serviram em guerras, ensinaram crianças a ler ou tiveram que cuidar dos seus netos", ela disse. Seja qual for a sua paixão, ela continuou, abrace-a com todo o coração, não importa o que os outros pensam.

"Se você gosta de escrever, comece um blog. Se você gosta de música, toque-a bem alto", escreveu Huber. "Se você ama corridas, entre na pista. Você é muito mais do que a mesa onde você se senta ou do que as crianças que você deu à luz. Viva apaixonadamente, pelo menos um pouco, a cada dia."

4. Seja grato

Quando a defensora do Death With Dignity ("Morte com Dignidade", em tradução livre) Brittany Maynard morreu no outono deste ano, sua família lançou um obituário "oficial", que incluía uma mensagem final da moça de 29 anos, que se concentrava em uma coisa apenas: gratidão.

"Nessa mensagem final, ela queria expressar uma nota de profundo agradecimento a todos os seus belos, inteligentes e maravilhosos amigos a quem ela 'procurava como quem procura água’ durante sua vida e na doença, para ter insights, apoio e compartilhar a experiência de uma bela vida", afirmava o obituário. Ela terminou com a seguinte citação da própria Maynard: "as pessoas que pausam para apreciar a vida e dar graças são as mais felizes.”

5. Lembre-se, todos somos humanos

Enquanto os obituários nem sempre pintam um quadro completo de toda uma vida, eles podem nos fazer lembrar que todos — não importa o quão famosos ou amados — somos falíveis, e que isso é ok. "Os obituários no The Times frequentemente se referem a temperamentos furiosos, infidelidades conjugais, crimes cometidos — coisas que podem ser atestadas em entrevistas ou que foram documentadas em notícias ou outras fontes", disse Weber em uma sessão de perguntas e respostas do New York Times.

Bob Chaundy, que já trabalhou como editor de obituários na BBC, por quase duas décadas, escreveu no jornal The Independent: "Se eu encontrava um número suficiente de pessoas que diziam que a pessoa tinha um temperamento violento ou que não aturava tolices de forma boa, então eu incluía estas fragilidades a fim de que essas pessoas parecessem mais humanas".

6. Coloque os relacionamentos em primeiro lugar

Enquanto algumas pessoas optam por escrever seus próprios obituários, ou até mesmo pagam um escritor profissional de obituários para fazer isso por eles, as lembranças são mais frequentemente escritas por amigos e familiares ou — no caso de indivíduos bem conhecidos — um escritor pessoal para uma determinada publicação. O que significa que a história contada não só depende de como os outros lembram de um indivíduo ("Esta é a minha chance de ficar no telefone conversando com a família e os amigos, capturando aquela pessoa", disse o antigo escritor de obituários Kay Powell ao CBS News), mas que aquelas memórias, muitas vezes, se baseiam em como ele ou ela faziam os outros se sentirem.

"Seja uma boa pessoa", escreveu Marquard ao Globe. "Não importa o quanto você conquistou na vida — você será lembrado pela forma como trata as pessoas."

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.