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16/12/2014 16:10 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Gabriel Medina, o rei da praia

REPRODUÇÃO/INSTAGRAM/GABRIELMEDINA

Cinco e meia da tarde de uma segunda-feira nublada. Estamos em Maresias, São Sebastião, litoral norte de São Paulo. No mar, quatro surfistas disputam uma etapa do O’Neill SP Prime, espécie de segunda divisão do circuito mundial, que dá acesso aos atletas à elite do surfe, o WCT. Mas as centenas de pessoas que se acotovelam na areia parecem alheias ao que acontece na água. Elas olham fixamente para o palanque erguido na praia, onde um garoto alto e bronzeado encontra-se agachado, prancha sob o braço, concentradíssimo nas músicas que saem de seus grandes fones de ouvido.

Ele só sai da espécie de transe quando o padrasto dá as últimas instruções. Coloca a camiseta vermelha da competição e sai rumo ao mar. Como em uma procissão, as pessoas o acompanham. Ele agacha de novo na areia, cabeça baixa. A multidão forma um semicírculo em volta, mas ninguém o incomoda – ao menos por enquanto. Homens, mulheres e crianças parecem entender aquele ritual. Quando ele entra na água, a plateia vibra a cada manobra. Quando sai do mar, cinco seguranças o protegem até o palanque. Já do lado de dentro das grades, o surfista fica mais de 15 minutos tirando selfies com os fãs, sendo vítima de beijos roubados de meninas e tiazinhas, autografando pacientemente camisetas, bonés, fotos.

Gabriel Medina virou um popstar. E está bastante à vontade em seu novo papel.

Prestes a completar 21 anos, dia 22 de dezembro, Gabriel, criado lá mesmo em Maresias, pode se tornar o primeiro brasileiro campeão mundial de surfe este mês. Ele, que lidera o ranking mundial do WCT, compete o Billabong Pipe Masters entre 8 e 20 de dezembro. Seus principais adversários são o australiano Mick Fanning, três vezes campeão mundial, e o monstro americano Kelly Slater, que levou o título para casa 11 vezes. Isso, no entanto, não parece preocupar o garoto. “Kelly é a lenda do esporte, me espelhava nele desde pequeno. Nele e no Mick – e são justamente os dois que estão brigando pelo título mundial comigo”, diz Gabriel. “É muito maluco isso, nunca imaginei essa situação. Mas, na hora, deixo essa história de eles serem meus ídolos de lado e sei que estamos nessa de igual para igual. Eles são adversários como os outros.”

gabriel medina

Gabriel começou a surfar perto dos 9 anos de idade. O padrasto, Charles Rodrigues, alçado à posição de técnico (e a quem o garoto chama de pai), se lembra exatamente do dia em que percebeu que o menino levava jeito pra coisa. “Era uma tarde dessas de família. Fomos para a praia e o Gabriel pediu minha prancha emprestada. Eu fiquei na areia olhando e lembro bem que falei para a Simone, mãe dele: ‘Caramba, esse moleque tem o maior talento’. Fazia só uns quatro meses que ele estava surfando. Inscrevemos ele depois em competições e ele começou a se dar bem.” Além da habilidade nata, dessas coisas que não se explicam, duas outras características foram imprescindíveis para que Gabriel, de um garoto que surfa muito bem, virasse um profissional com chances reais de ser campeão mundial: determinação e muita competitividade. “Sempre fui competitivo. Quem sofria com isso era meu irmão. Eu ficava enchendo o saco para jogar futebol, bolinha de gude e empinar pipa só para poder ganhar dele”, relembra. “Mas só quando comecei a competir no surfe, com 10, 11 anos, é que percebi que gostava da ansiedade do campeonato. Foi quando decidi que queria ser surfista profissional. E que queria ser campeão do mundo.

Charles corrobora. “Ele parece que nasceu para competir. É um monstrinho. Tem calma, é insistente. Às vezes não consegue acertar uma manobra e é teimoso: repete até conseguir”, conta. “E a grande virtude dele é o domínio que tem da prancha no pé. Tem estabilidade, faz qualquer onda, mesmo as mais difíceis como essa que ele vai surfar no fim do ano, Pipeline, parecer fácil. É como quando Messi domina a bola e você nem a vê. Gabriel chama a prancha de ‘eu’.

A competência de Gabriel era evidente desde criança. Em uma matéria que escreveu para a revista Fluir quando o garoto tinha apenas 13 anos e participou de uma clínica de surfe junto de outros 11 minissurfistas, Ricardo Macario, um dos mais experientes jornalistas de surfe do país, afirmou: “Gabriel é o clássico exemplo do atleta indisciplinado que esbanja talento. Nos treinos, foi disparado o melhor, sempre com excelente leitura de onda e manobras arrojadas. Se adapta facilmente a qualquer condição, porém precisa de mais concentração”. Gabriel deu ouvidos à crítica. “Esse foi um dos grandes ganhos que Charles conseguiu em relação a ele: trabalhar foco, concentração, parte mental”, afirma Macario. “Ele hoje consegue ser frio além da média para alguém com sua pouca idade. É claro que falta ainda maturidade, não tem como ser diferente. Kelly Slater, por exemplo, tem 22 anos só de circuito mundial”, diz. É mais tempo do que Gabriel tem de vida.

gabriel medina

O mundo começou a descobrir o “fenômeno Medina” em 2009. Gabriel foi o mais jovem surfista a vencer uma etapa do mundial ao ser campeão do WQS na Praia Mole, com apenas 15 anos. “Ele era desconhecido, surgiu na etapa como um participante qualquer. E chegou à final contra um dos grandes nomes da época, que era o Neco Padaratz”, relembra Roberto Perdigão, diretor executivo da ASP (Associação de Surfe Profissional) South America. “A forma como ele se comportou, com segurança e extrema concentração, já dava mostras do talento. Ele despachou o Neco sem nenhuma cerimônia. Isso ficou marcado na minha memória.”

De lá para cá, a carreira de Gabriel cresceu de forma impressionante. Em 2011, depois de vencer três etapas da divisão de acesso (em Santa Catarina, na França e na Espanha), ele conseguiu a pontuação necessária para integrar o WCT, campeonato do qual só participam 36 atletas do mundo todo. “Tudo foi muito rápido”, diz Perdigão. “Nós que trabalhamos com surfe há muito tempo estamos acostumados a ver carreiras meteóricas, que não dão em nada. Mas o Gabriel tem uma luz diferente.” Sebastian Rojas, o fotógrafo de surfe mais conhecido do país, acompanha a carreira do garoto há algum tempo. “Ele sempre foi meio fora da curva”, conta. “Tinha uma gana por competição. Encarava os campeonatos com aquela coisa de ter que ganhar. E arriscava muito mais que os outros atletas. Numa hora em que tinha que virar uma bateria, em que a pressão é muito grande, ele fazia uma manobra improvável, que talvez nem fosse necessária. Nunca teve medo de ousar.”

Também morador de Maresias, o surfista de ondas grandes Edílson Assunção, ou Alemão, como é conhecido, é amigo de Charles e viu Gabriel crescer e aparecer nas ondas no quintal de sua casa. “Às vezes Simone não o deixava surfar com a prancha por alguma coisa que ele havia feito. E o moleque caía no mar sem nada, fazendo o que chamamos de surfe de peito, no meio do quebra-coco. Ele tinha um quê diferente desde essa época”, conta. “Sua carreira teve um boom de repente. Ele começou a se destacar mesmo quando a Rip Curl entrou na vida dele, aos 15 anos.” Com o patrocínio, Gabriel pôde viajar mais, disputar mais campeonatos, adquirir experiência, surfar em outros tipos de onda. E, como consequência, evoluir.

gabriel medina

“Ele é um fenômeno”, concorda Ricardo Macario. “O grande negócio é que, além de muito bom, tem carisma e é midiático.” A publicidade já sabe disso. Além da Rip Curl, Gabriel Medina tem outros sete patrocínios e faz duas campanhas, para a Gillette e para a Coppertone. Várias das empresas que investem nele como garoto-propaganda não estão atreladas ao surfe, como a Oi, o Guaraná Antarctica e a Vult Cosmética, mas viram no moleque bonitão, com 662 mil seguidores no Instagram (até o fechamento desta edição), um bom jeito de falar com os jovens. A última a estampar sua marca na prancha de Gabriel foi a Samsung, que anunciou um contrato até o fim de 2015, sem revelar valores – há quem especule que seja de 1 milhão de reais, mas o mais provável é que seja um quarto disso.

Só um atleta no país tem mais patrocínio individual do que Gabriel, de acordo com o jornalista Erich Beting, da Máquina do Esporte, especialista em negócios esportivos. Uma chance para você adivinhar quem. “Neymar tem 15 patrocinadores e o grande mérito dele é que tanto meu filho quanto minha mãe o conhecem”, diz Erich. “Claro que, até pelo esporte que pratica, Gabriel não tem esse alcance. Mas dentro do público dele – e do público que as marcas gostam – ele é formador de tendência e dita comportamento. E é um cara carismático, o que é muito importante. Rivaldo, por exemplo, foi o melhor jogador de futebol do mundo, mas não engajava ninguém, não comunicava. Performance não é tudo.”

Gabriel Medina faz parte de uma geração que está renovando o surfe brasileiro. São tantos talentos de uma só vez na elite do surfe – Filipe Toledo (que ganhou o campeonato citado lá no começo desta matéria), Miguel Pupo, Adriano de Souza, Jadson André e Alejo Muniz, além de vários outros que entram no circuito em 2015 – que eles ganharam o apelido de Brazilian Storm, ou “tempestade brasileira”. Em comum, o profissionalismo. “Os patrocinadores assumiram outra postura em relação à construção de carreira”, afirma Perdigão. “Esses garotos estão surfando fora, outras ondas, fazendo intercâmbio com estrangeiros, não estão mais restritos aos nossos horizontes. Falam inglês fluente, têm opiniões e sabem expressá-las. Saíram do estereótipo do surfista ser aquele cara de praia que só queria curtir.”

 

“Nós pudemos assistir às gerações antigas, ver as poucas oportunidades que eles tinham e como abriram o caminho para a nossa geração”, conta Filipe Toledo. “Era tudo muito mais difícil para eles. Os caras não tinham patrocinadores que os apoiassem ou dinheiro para viajar e surfar ondas diferentes das nossas. O esporte não era muito levado a sério aqui.” Além disso, havia o preconceito contra os brasileiros. Teco Padaratz, que foi durante muito tempo o maior nome do surfe no país, lembra bem disso. “A sensação que dava, nas competições, era que a gente precisava fazer o dobro de esforço para ganhar as mesmas notas que os gringos”, diz. “Os juízes já conheciam o surfe dos caras e só ficavam esperando eles confirmarem na onda o que sabiam que eles iam fazer. Mas, com a gente, queriam que fizéssemos algo muito interessante para saírem da zona de conforto deles. É como se pensassem: ‘Vai, brasileiros, me surpreendam’.”

Para Teco, o Brasil é hoje uma necessidade mercadológica para o resto do mundo. “Somos o país que mais cresce em audiência no surfe. E já somos a segunda audiência do planeta. Gabriel e essa nova geração estão levantando a autoestima dos brasileiros. Com isso, a esperança é que venha mais patrocínio. E o circuito nacional, que está abandonado, pode renascer.” Perdigão concorda. “O fato de estarmos prestes a ganhar nosso primeiro título mundial faz com que as luzes se voltem para o esporte. Gabriel Medina é o agente catalizador de uma nova era. Por trás dele deve acontecer a mobilização de pessoas e de entidades que buscam algo mais profissional. Ele está dando uma resposta às teorias de boicote e preconceito e mostrando que o que é preciso mesmo no esporte é talento, capacidade técnica e mental.”

Bonito, 1,80 metro de altura, 70 quilos, corpo definido e, ossos do ofício, bronzeado o ano todo, Gabriel Medina virou objeto de desejo de garotas do país inteiro. “Ele não faz sucesso só com menininha. Faz com menina, meninona, mulher, tiazona…”, brinca Alemão. “Gabriel transcendeu essa coisa da maria parafina”, diz Ricardo Macario. “Não é só garota de praia que gosta dele.” Ele tem razão. Quando falei em minha roda de amigas, todas bem-sucedidas e na casa dos 30, que estava fazendo este perfil, a reação foi engraçada: de “ele é um gatinho” a “eu daria para ele”. Tímido, Gabriel ri ao ouvir meu relato. “Todo esporte tem isso, né? Eu acho maneiro”, diz, no maior estilão garoto de praia.

🐜🐶 #Malu 💚

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No auge da juventude, hormônios pululando, Gabriel diz que consegue curtir, mas só em épocas de folgas entre campeonatos e nas férias. “Ele não tem isso de querer ser campeão e querer pegar todas as gatinhas nas festas ao mesmo tempo”, conta Alemão. “Claro, curte suas baladinhas, mas é extremamente profissional. Não deixa isso atrapalhar seu sonho.” “Tenho as mesmas vontades de qualquer moleque da minha idade e sei que tenho que me privar muitas vezes. Aprendi a lidar com isso”, diz o garoto. “Mas eu me permito, depois das finais de campeonato, dar uma volta. Sei que se privar demais deixa a gente doente, não é saudável.” Em Maresias, Gabriel costuma ir ao Morocco e ao Sirena. Um colega jornalista, que acompanhou uma dessas festas em novembro, contou que ficou impressionado com a quantidade de mulher bonita que tentava subir no camarote do surfista – muitas conseguiam, e eram muito bem atendidas por ele. E, dizem os mais próximos, a noitada sempre acaba com um after, com um grupinho que ele escolhe na hora.

Nos dias seguintes à eliminação do O’Neill SP Prime, Gabriel passou a se dedicar à preparação física e aos treinos para o campeonato do Havaí, para onde embarcaria em 20 de novembro. Até lá, disse que tentaria levar uma vida comum. “Nós traçamos um plano”, conta Charles. “Os campeonatos costumam ser a cada 30 dias. Sabemos que, durante dez dias, nossa vida vai sair do normal. É quando ele dá entrevistas, atende os fãs, faz essas coisas novas em nossa rotina. É também a época em que eu dou uma folguinha, para ele sair um pouco. Mas, quanto mais perto do campeonato, mais o blindamos. Tem que ter foco naquilo. É regime militar.”

Sossegadão, típico garoto de praia, Gabriel Medina parece ser o membro da família que menos sofre com a iminência do título mundial. “Ele que nos acalma. É 30 vezes mais tranquilo do que nós”, diz a mãe, Simone. “Temos que tomar cuidado para não pilhar ele.” Gabriel conta que não sente a pressão, mas que está ansioso para que o campeonato em Pipeline chegue logo. “Claro que me preparo para perder também. Perdi pra caraca ano passado. A vida de competição é feita de derrotas e vitórias. Fico puto quando perco, quem tem esse sangue competitivo odeia isso. Mas agora estou indo como líder. Estou 100% preparado”, garante. “Gabriel vai ter que fazer força para não ganhar o título mundial”, acredita Ricardo Macario. “Ele só precisa chegar até as quartas de final pra isso. Nos dois últimos anos, conseguiu os resultados que precisa agora.” O padrasto não consegue esconder a expectativa. “Gabriel diz que eu que falava que ia ser campeão mundial um dia. Só que era ele quem sempre dizia isso. Então eu acreditei nele e ele acreditou em mim. Nunca colocamos metas impossíveis. E agora isso está quase virando verdade”, afirma.

Se a nova geração de surfistas brasileiros é a Brazilian Storm, Gabriel Medina está no olho do furacão. E está do seu jeitão: na boa, na dele.