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13/12/2014 11:21 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

7 momentos surreais da novela 'Império'

Reprodução/Rede Globo

Na última vez em que estive com Aguinaldo Silva, há dez dias, perguntei qual a coisa mais doida que ele já fizera em novelas até então. O autor pensou um momento, provavelmente repassando em sua cabeça cenas como a morte de Jorge Tadeu de Pedra sobre Pedra (1992) ou o incêndio que transformou Altiva numa bruxa assustadora em A Indomada (1997), e respondeu:

“Foi a ventania que varreu Santana do Agreste do mapa em Tieta.”

Explicou que o roteiro do último capítulo da novela de 1989 continha uma artimanha dele e do diretor Paulo Ubiratan (1947-1998) para evitar que fosse feito um seriado com os personagens, muito populares na época. Depois da última semana, pode-se imaginar que a resposta do autor de Império seria outra.

A “nova Cora”, que surgiu com o que vem sendo chamado nas redes sociais de “véu rejuvenescedor”, é uma das maiores ousadias com verniz surrealista da teledramaturgia nacional. Foi uma solução encontrada às pressas, como se sabe, porque Drica Moraes, que vinha interpretando a personagem na fase madura, precisou de uma licença médica. No seu lugar, Marjorie Estiano, que viveu a megera na primeira fase, reassumiu o posto – para deixar os demais personagens e o público de queixo caído.

Muitos foram à internet criticar a saída escolhida pelo autor. Ele poderia, é verdade, matar Cora de vez – mas não seria muito ruim perder a vilã mais manipuladora da novela? Outra alternativa seria trazer uma atriz de idade compatível com Drica e fingir que nada aconteceu – mas não seria bem menos divertido do que convidar Marjorie a voltar? E, sobretudo, a repercussão da “Cora jovem” não atrai muito mais olhares para a novela do que qualquer outro recurso dramatúrgico conseguiria atrair?

Poucos autores poderiam tomar tal liberdade numa novela das 9. No registro realista de Gilberto Braga e Manoel Carlos, por exemplo, seria impensável algo do tipo. Já Silvio de Abreu, que mistura o realismo com um humor fantasioso peculiar, bem que poderia se aventurar em algo parecido. Mas, entre todos, Aguinaldo Silva é o dono da trajetória que o credencia a tal birutice deliciosa. Ainda que desde Senhora do Destino (2004) ele estivesse tentando se distanciar da inventividade surrealista que o consagrou, como um verdadeiro herdeiro de Dias Gomes (1922-1999), Império vem demonstrando que o autor pode até sair do realismo mágico, mas o realismo mágico não sairá dele tão fácil. É que a novela engana os que pensam se tratar de uma obra realista e contemporânea. Com estrutura medieval, ela vem fincando os pés no absurdo aos poucos e muito antes de Cora mudar de cara.

Confira 7 momentos da novela que desafiam a realidade:

7 momentos surreais da novela 'Império'