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02/12/2014 21:11 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Paulo Roberto Costa diz que esquema de propina não é exclusivo da Petrobras e que indicações políticas vêm desde a época de José Sarney

Montagem/Estadão Conteúdo

Ele podia permanecer calado, mas resolveu falar. O ex-diretor de Abastecimento da PetrobrasPaulo Roberto Costa, preso pela Polícia Federal na Operação Lava Jato, afirmou na tarde desta terça-feira (2) que o esquema de propina não é exclusividade da Petrobras. Essa foi uma das declarações polêmicas dada por ele durante reunião da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) da Petrobras.

“O que acontecia na Petrobras acontece no Brasil inteiro: nas rodovias, nas ferrovias, nos portos, nos aeroportos, nas hidrelétricas! É só pesquisar, porque acontece”, afirmou. Costa esteve presente diante dos parlamentares para uma acareação com o ex-diretor da Área Internacional da estatal, Nestor Cerveró. Este, por sua vez, negou conhecer qualquer esquema de propina e disse que não houve prejuízo na aquisição da refinaria de Pasadena, nos EUA. “Desconheço qualquer esquema de corrupção. Ratifico que não recebi propina (...). O prejuízo (com Pasadena) é inexistente”, afirmou.

Do outro lado, Costa – que passou seis meses na carceragem da PF, até aceitar acordo de delação premiada, na qual denunciou um suposto esquema de sobrepreço e corrupção na Petrobras – disse simplesmente que reafirmava o que havia dito na delação premiada. Ele não deu nomes ou outros detalhes do que falou à Justiça. “O que eu disse para o juiz Sérgio Moro, eu confirmo”, destacou.

Costa ressaltou que entrou na Petrobras em 1977 e assumiu a diretoria de Abastecimento 27 anos depois, e que em todas as posições anteriores, assumiu sem necessidade de apoio político. Entretanto, Costa destacou que desde o governo do ex-presidente José Sarney (1985-1990) as indicações para diretorias da petroleira e de outras estatais dependiam de apoio político.

“Infelizmente, me arrependo amargamente, aceitei indicação política para a diretoria de Abastecimento. Estou arrependido de ter feito isso. Aceitei esse cargo e esse cargo me deixou e nos deixou aqui onde estou hoje (...). Desde o governo Sarney até o governo Dilma todos os diretores tiveram apoio político para ocupar cargos”, disse.

Ex-diretor nega contato com Dilma e Lula

O ex-diretor da Petrobras disse que enviou no passado, a pedido da própria Casa Civil, um e-mail a então ministra, Dilma Rousseff, apontando irregularidades indicadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU) em obras da petroleira. Costa chegou a dizer que a situação relatada no e-mail o enojava.

“Eu fiz aquele alerta que nós estávamos com problema, esse foi o alerta que eu fiz, não fiz nenhum alerta de continuar no processo, eu não estava satisfeito com aquele processo”, explicou. Ele negou que o e-mail tenha tido por objetivo influenciar para que eventuais irregularidades continuassem, diferentemente do que sugeriu a revista Veja em reportagem recente, que revelou a comunicação eletrônica.

Contudo, o ex-diretor não teve uma conversa “em particular” com Dilmaf para falar sobre irregularidades dentro da estatal. Ele disse que jamais teve contato com ela ou com o ex-presidenteLuiz Inácio Lula da Silva para tratar das supostas denúncias. “Nunca tivemos uma reunião em particular com a presidente Dilma nem com o presidente Lula, por mim, não. Nunca pudemos conversar sobre esse tema de forma clara”.

O ex-diretor destacou ainda que ele não desrespeitou hierarquias ao enviar o e-mail para a Casa Civil, o que foi feito em resposta a uma solicitação, e que o presidente da estatal à época, José Sergio Gabrielli, sabia da mensagem eletrônica. Procurado, o governo afirmou que não vai se manifestar novamente sobre declarações dos ex-diretores na CPI.

Uma fonte do Palácio do Planalto afirmou que o governo nunca negou a existência de tal e-mail e que o depoimento não trouxe novidades. Em nota após a publicação de reportagem pela Veja, o Palácio do Planalto afirmou que tomou medidas após receber informações sobre eventuais problemas na Refinaria do Nordeste, como o encaminhamento da matéria à Controladoria-Geral da União.

Posteriormente, segundo o governo, houve consenso sobre a viabilidade da regularização das pendências identificadas pelo TCU, assim como ficou decidido que a solução das pendências nas obras da refinaria seriam acompanhada. Dessa forma, a Presidência da República decidiu pelo veto à paralisação da obra, argumentando que a avaliação de que as pendências levantados pelo TCU seriam regularizáveis.

Oposição na bronca

O presidente em exercício da CPI mista da Petrobras, senador Gim Argello (PTB-DF), decidiu no fim da tarde suspender a acareação, para que os parlamentares pudessem votar projetos nos plenários da Câmara e do Senado. A decisão de Gim foi resultado de protestos da oposição, que estava receosa com o encerramento "abrupto" da acareação.

Os oposicionistas estavam exaltados com a acareação, uma vez que, desde a abertura da CPI, em maio deste ano, nunca tinham ouvido declarações tão contundentes como as de Costa. Ele disse que confirmava "tudo" o que foi relatado em delação premiada. Invocando o regimento interno do Congresso, o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS) disse que as CPIs poderiam, sim, continuar a ouvir depoimentos, mesmo com o início da ordem do dia.

“Isso foi feito por inúmeras CPMIs. Não estamos fazendo isso para o bem das nossas biografias, a eleição já passou. Isso aqui é um ato patriótico, não é uma comissão menor que tem que ser encerrada porque vai ter uma votação qualquer”, defendeu, ao lembrar que, na CPI dos Correios, que investigou o escândalo do mensalão, a tradição era continuar os depoimentos mesmo com votações em plenário.

Pressionado, Gim Argello, que voltou a presidir a comissão, decidiu suspender os trabalhos por 15 minutos. Mas, em seguida, ela encerrou alegando não ter “amparo legal” para manter a reunião, devido ao início da Ordem do Dia do Plenário do Senado. “Tivemos 18 depoimentos aqui desta CPMI, só este foi encerrado”, afirmou Lorenzoni.

(Com Agência Câmara, Agência Senado, Estadão Conteúdo e Reuters)

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