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27/11/2014 23:01 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Estupros na USP: Ministério Público aponta falhas de segurança em festas de alunos

EVELSON DE FREITAS/ESTADÃO CONTEÚDO

Ausência total de câmeras no espaço das festas, falhas na contratação de empresas de segurança e falta de profissionalização na venda e na distribuição de bebidas alcoólicas foram alguns dos problemas constatados pelo Ministério Público Estadual (MPE) nos eventos estudantis realizados na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

As irregularidades foram detalhadas nesta quinta-feira (27), após depoimento de dois dirigentes da associação atlética, entidade responsável por organizar as festas da faculdade. Eles foram ouvidos pela promotora Paula Figueiredo, da área de Direitos Humanos, que conduz inquérito que apura pelo menos oito casos de abuso sexual ocorridos em festas da FMUSP.

Os estupros vieram a público após serem denunciados por alunas em audiência pública da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), na semana retrasada.

Na tarde desta quarta-feira (26), depuseram o presidente da Atlética em 2014, Douglas Rodrigues da Costa, e o vice-presidente da entidade na gestão do ano passado, Thiago Inner Silva. Eles explicaram como são realizadas as festas no campus.

"Trouxeram alguns documentos que comprovam a regularidade das festas, autorizações do município, mencionaram que informam a polícia, que a organização do evento se dá regularmente. Mas verificamos que os contratos com as empresas de segurança são feitos de forma vaga, que não tem nenhuma câmera de filmagem em todo o espaço da atlética, que eles não pedem uma lista detalhada com o nome e a documentação de todos os funcionários que atuam nos eventos", diz Paula.

Para ela, a identificação prévia dos empregados poderia facilitar as investigações de um possível caso de abuso praticado por um funcionário, como aconteceu com uma aluna da Medicina em 2011. As principais festas da FMUSP reúnem até 3.500 pessoas e têm cerca de 150 seguranças.

A promotora afirmou ainda que os coquetéis servidos nas festas são preparados em barracas controladas pelos próprios alunos, o que também seria um ponto de fragilidade na segurança. "Poderia ser algo mais profissional, porque, dessa forma, é possível que alguém misture algo nas bebidas."

Paula disse que os integrantes da Atlética disseram não compactuar com nenhum tipo de violência e se comprometeram a celebrar acordos com o MPE para a ampliação do sistema de segurança dos eventos. Após prestarem depoimento, os diretores da entidade não quiseram falar com a imprensa.

A Promotoria pediu à entidade que encaminhe, em um prazo de 20 dias, documentos que detalhem como são organizadas as festas e mostrem os repasses que recebem da faculdade. As festas na FMUSP estão suspensas por tempo indeterminado após decisão da Congregação da faculdade.

Show

Também havia sido agendado para quarta-feira o depoimento do responsável pela organização do Show Medicina, evento da faculdade que inclui trotes aos alunos e também tem denúncias de violência. O Show Medicina enviou um advogado como representante, que pediu mais tempo à promotoria para se informar sobre o caso. O depoimento foi remarcado para a semana que vem.

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