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27/11/2014 22:20 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Crise da água em SP: Professor da Unicamp afirma que volume captado do Sistema Cantareira tinha de ter sido reduzido há anos

Algumas das dúvidas que envolvem o drama em torno do Sistema Cantareira foram esclarecidas pelo professor da Unicamp, Antonio Carlos Zuffo, especialista na área de recursos hídricos. Em entrevista ao Programa Água Viva, produção do Consórcio PCJ, ele comentou que a situação era previsível, baseada nos níveis de retirada de água que vinham sendo aplicados no sistema.

“O sistema não consegue regularizar os 36 metros cúbicos outorgados hoje. Ele tem capacidade sim de regularizar uma vazão mais baixa, em torno de 34 metros cúbicos por segundo a 95% do tempo, pelo menos nesses 40 anos que foram observados. Se nós entrarmos em um período longo de 30 ou 40 anos de chuvas mais baixas, essa vazão será diminuída, que talvez seja na magnitude que ele foi projetado, em torno de 33 a 31 metros cúbicos por segundo. A vazão acima disso ele (Cantareira) não é mais capaz de regularizar”, disse.

Ou seja, a análise de Zuffo mostra que a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp)captou mais do que deveria do Cantareira, mesmo com a outorga de 2004 apontando que deveria ocorrer uma diminuição gradativa da dependência do sistema. A renovação da outorga, postergada neste ano em razão da crise pela Agência Nacional de Águas (ANA), voltará a ser discutida em 2015.

“O Cantareira foi dimensionado para uma situação de baixa, então ele foi subdimensionado para o período que veio depois, de quatro décadas, operando em alta. Os volumes que ele possui não são suficientes para regularizar a vazão que ele regularizou nos últimos dez anos. Então haveria uma necessidade de ampliação da capacidade de reservação, ou com o alteamento de algum reservatório, ou construção de outros reservatórios a montante do Cantareira, para aumentar a capacidade do sistema em regularização de vazões”, explicou o professor da Unicamp.

Para Zuffo, o momento é de economizar e pensar em medidas práticas. No âmbito da população de São Paulo, ele sugeriu algumas saídas. “Nós podemos trocar aparelhos hidrosanitários, que são os maiores consumidores de água dentro de casa. Então, equipamentos muito antigos, com mais de 20 anos e que usam muita água na hora de dar a descarga, você poderia substituir por equipamentos mais econômicos. (Ou) colocar redutores de pressão também nas torneiras de lavatório, porque muita gente escova os dentes com a torneira aberta e acaba consumindo um volume grande de água”.

No âmbito da gestão, o especialista alertou para um problema recorrente: a ausência de políticas mais eficazes de saneamento e cuidado com os recursos hídricos, os quais muitas vezes inviabilizam o uso da água de determinados rios e represas para o consumo humano.

“Acho que deve haver uma mudança de paradigma, tratamento de efluentes (resíduos líquidos resultantes de processos industriais) para aumentar a disponibilidade hídrica pela qualidade, porque já estamos com problema de quantidade e qualidade. Ou seja, se nós conseguirmos melhorar a qualidade da água, nós teríamos vazões de rios que hoje não são potáveis, e com isso poderíamos usar esses pequenos cursos d’ água para o abastecimento”, completou.

Novo relator da ONU também demonstra preocupação

Em entrevista à Deutsche Welle Brasil, o futuro relator das Nações Unidas (ONU) para o Direito à Água e ao Saneamento Básico, Léo Heller, demonstrou preocupação com a situação do abastecimento de água não só em São Paulo, mas em toda a região Sudeste do País. Para ele, as medidas necessárias já estão sendo adotadas, mas não há nenhuma solução a curto prazo para diminuir o impacto para a população.

“Deveria ter tido um planejamento mais adequado, que levasse em conta a possibilidade de estiagem, que é um fenômeno natural e sazonal. Esses momentos precisam ser incluídos no planejamento. Os atuais mananciais e captações de água têm sido insuficientes para atender a demanda, isso requer aumentar e diversificar as fontes de água, não só quantitativamente, mas qualitativamente. Isso inclui água subterrânea e de chuva, por exemplo”, afirmou.

Heller ainda acredita que não é mais possível aceitar o grau de desperdício de água – aqui ele cita a troca do sistema de descarga das casas no Brasil, como sugeriu também Zuffo –, e mudanças ajudariam a atingir esse e outros hábitos da própria população. Para ele, a única solução neste momento é economizar.

“Precisamos sair de uma acomodação e investir não só em novas obras, mas na modernização da gestão. É muito possível que uma parte do problema atual tenha origem nas mudanças climáticas globais, o que sinaliza que esse fenômeno pode ocorrer com mais frequência”, finalizou.

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