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26/11/2014 21:53 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Estupros na USP: Reunião da Congregação reconhece só três casos e anuncia proibição do consumo de bebidas alcoólicas

Francisco Emolo/Divulgação USP

Esperava-se que a aguardada reunião da Congregação da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), realizada na manhã desta quarta-feira (26), trouxesse anúncios importantes contra a série de abusos sexuais e quebra de direitos humanos registrados na faculdade. Contudo, uma única medida foi anunciada, e bem aquém do esperado.

Formada por mais de 100 integrantes, a maioria integrante do corpo de professores da FMUSP, a reunião decidiu suspender por tempo indeterminado as festas e o consumo de bebidas alcoólicas na unidade. “Vamos passar por um novo processo de regulamentação das festas cujo prazo ainda não é determinado”, explicou José Otávio Costa Auler Junior, diretor da unidade.

Somente após a definição de novas regras para os eventos estudantis é que a faculdade definirá de que forma os eventos voltarão a ocorrer – as festas estão suspensas desde o dia 18 deste mês. Entretanto, esperava-se outros anúncios. A importância da reunião da Congregação foi apontada por Auler Junior como uma das razões para não comparecer à audiência na Comissão de Direitos Humanos (CDH) da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).

Segundo reportagem da Revista Veja, a medida anunciada nesta quarta-feira contraria o que disse há uma semana o professor Milton Martins, presidente da comissão de direitos humanos da faculdade, que não via benefícios em proibir a venda e consumo de álcool no campus “A proibição de festas só aliviaria a responsabilidade da diretoria, mas não resolveria o problema do consumo de álcool entre os jovens”, disse.

Questionado sobre os agora dez casos de abusos sexuais, ocorridos na FMUSP e que estão sendo investigados pelo Ministério Público, Auler Junior disse que a instituição reconhece apenas três, e que todos esses estão sendo apurados. “As vítimas de estupro devem ter a hombridade e honestidade de comunicar pessoalmente o caso à direção”, completou, mantendo o discurso oficial de que sindicâncias estão em andamento.

Na primeira quinzena deste mês, a FMUSP anunciou a criação de um Centro de Defesa dos Direitos Humanos, para dar apoio às vítimas de violência na faculdade. Há ainda a expectativa pelo início da operação de uma ouvidoria, que receberá as denúncias e fará o encaminhamento para a direção. Entretanto, quase todas as vítimas envolvidas nas apurações do MP garantem que levaram os crimes que sofreram à FMUSP, mas nada foi feito.

“Nunca algum aluno foi até a minha sala fazer uma denúncia”

Indicado pelo reitor da USP, Marco Antonio Zago, para comparecer à audiência da CDH da Alesp, o professor Alfredo Luiz Jacomo disse que “nunca algum aluno” foi até a sua sala para denunciar abusos ou casos de violência na FMUSP. Presente na vida da universidade há 30 anos – 20 deles dedicados à faculdade de medicina –, ele alegou achar que “trabalha muito” para desconhecer tantos casos denunciados nas últimas semanas.

“Nunca ouvi uma denúncia, é uma realidade e uma verdade, de uma pessoa que fica 10 horas por dia na instituição. O que eu poderia trazer de informação é isso. O que eu percebo é que tudo o que apareceu na mídia nos últimos meses, estranhei as denúncias. Essa é a faculdade onde dou aula e não sabia de absolutamente nada do que a mídia estava trazendo. Achei que era outra faculdade e não a nossa”, comentou.

Jacomo afirmou ainda que, caso tivesse chegado até ele alguma denúncia, teria sido levada automaticamente à direção. Para o professor, as denúncias são “extremamente graves”, porém ele evitou criticar a cúpula da instituição, deixando apenas uma cobrança no ar. “Ninguém pode receber tais denúncias sem tomar nenhuma providência”.

Para a comissão, o relato pouco ajudou e só ajudou a revelar um dado humanístico curioso: Jacomo foi informado às 6h40 desta terça-feira que deveria representar a FMUSP na Alesp. Isso depois de, durante a madrugada, ter aguardado a chegada do filho que estava para nascer. “Quero congratulá-lo por vir aqui, apesar disso”, afirmou, surpreso, o presidente da CDH, deputado Adriano Diogo (PT).

(Com Estadão Conteúdo)

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