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19/11/2014 13:24 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Como os relógios podem prejudicar a sua saúde, felicidade e produtividade

Thinkstock

O ritmo de vida, aparentemente, só aumenta. Nossas listas de afazeres ficam cada vez mais longas, os nossos prazos assustadoramente menores e o acesso constante a aparelhos digitais significa que temos menos momentos ociosos. No local de trabalho, esta pressão pelo tempo pode ser especialmente crítica: uma pesquisa, realizada no ano passado, constatou que mais de oito em cada 10 americanos está estressado com o trabalho, sendo que uma enorme carga de trabalho seria o principal fator atribuído a esse estresse.

No entanto, um pesquisador argumenta que o estresse no trabalho, causado por prazos e flexões de tempo - e o dano que é ocasionado à nossa saúde, felicidade e produtividade - é agravado por um elemento improvável: o relógio.

Correr em função "do relógio", ao contrário de se ter uma forma de conduzir nossas vidas menos focada no tempo, altera fundamentalmente nossa visão de mundo, de acordo com Anne-Laure Sellier, professora associada de marketing da Escola de Negócios HEC Paris.

"Quando você confia no relógio, você coloca o controle da sua agenda nele, e não em si mesmo", disse Sellier no TED talk de 2013, citando a pesquisa que ela realizou com Tamar Avnet, professora associada de marketing da Escola de Negócios Sy Syms, da Universidade Yeshiva. "Sabemos, através da psicologia que, quando as pessoas fazem isso, elas tendem a acreditar que as coisas acontecem no mundo como resultado da sorte, do acaso e outros poderes... [Já que] contamos cada vez mais com o relógio para programar nossas atividades, também começamos a perceber o mundo como um lugar cada vez mais desconectado."

Este é apenas um dos muitos impactos psicológicos ao administrarmos as nossas vidas em intervalos de tempo, o que Sellier se refere como "horas do relógio". Ela explica que existem duas formas usadas pelos seres humanos, historicamente, para agendar suas atividades diárias: "horas do relógio" e "horas de eventos". As horas do relógio mapeiam cada momento, com um horário de começo e fim definidos, que podem ser mudados e reorganizados conforme necessário. A hora de evento, por outro lado, faz com que a tarefa seja a principal atividade - fazemos uma coisa e, em seguida, passamos à próxima coisa assim que realizamos a primeira, permitindo que os eventos levem quanto tempo for necessário para serem concluídos e que estes ocorram em uma ordem sequencial.

Nos países industrializados, a hora do relógio domina. Nós marcamos nossos dias em intervalos de tempo bem definidos - demarcados em blocos de cor cinza, como no calendário do Gmail, e notificações em nossos iPhones - e assim corremos de um compromisso (real ou imaginado) para outro.

Além do mais, em nossas vidas, cada vez mais digitalizadas, a presença física do relógio é inevitável. De acordo com uma estimativa, checamos nossos telefones a cada seis minutos, ou seja, umas 150 vezes por dia. Isso significa que checamos o relógio em nossos telefones 150 vezes por conta própria - sem mencionar que, constantemente, vemos a hora atual no canto superior direito nas nossas telas de computador e nos relógios de nossas casas e escritórios.

De certa forma, isso não é uma coisa ruim. Prazos e pressões de tempo, razoáveis, podem nos dar o impulso que precisamos para fazer as coisas e fazer com que tenhamos tempo para todas as coisas que importam. Mas, o que acontece quando estamos vivendo em um estado crônico de corrida para completar nossa lista de afazeres?

"Nós não vamos eliminar relógios, compromissos e prazos, embora valha a pena lembrar que a palavra 'deadline' (prazo, em português) teve sua origem nos campos de prisioneiros da Guerra Civil Americana: ao invés de um perímetro físico onde, muitas vezes, aparecia uma linha imaginária - a linha da morte (ou dead-line) - que os prisioneiros não deveriam atravessar", escreveu Arianna Huffington, editora-chefe do Huffington Post, no seu livro Thrive. "O uso atual da palavra não está muito longe da sua origem. Hoje nós usamos frequentemente essas "linhas da morte", ou prazos, reais e imaginários - para nos aprisionar"

Embora nós, provavelmente, nunca acabemos com os relógios e os prazos por completo, existem algumas medidas que podem ser tomadas como indivíduos para desenvolver uma relação mais saudável com o tempo.

Aqui estão cinco coisas que você deve saber sobre a "hora do relógio" - e porque, às vezes, é saudável se libertar dele.

A consciência constante do tempo pode nos tornar menos produtivos.

Sellier, conduziu um experimento, com os participantes de uma aula de yoga Bikram - uma prática exigente de yoga quente no qual 26 poses são realizadas duas vezes cada, ao longo de 90 minutos. Ela comparou dois grupos nas aulas de yoga Bikram, um com um relógio na parede, e o outro sem.

O que ela descobriu foi que as pessoas que tinham um relógio na parede relataram sentir-se menos inspiradas depois da aula. Elas também desistiam da tarefa com mais frequência - sentavam-se e não executavam as poses - do que aquelas que não tinham um relógio na parede para ficar checando a hora.

"Só de lembrar as pessoas sobre a presença do relógio era o suficiente para abalar o seu desempenho", disse Sellier. "Então, o relógio pode fazer com que nosso desempenho seja menor."

Para tarefas que exigem foco e controle, concluiu Sellier, o relógio pode ser prejudicial para a produtividade e motivação.

Os horários guiados pelo relógio podem nos tornar menos felizes e criativos.

Conduzir nossas vidas em função do relógio coloca o controle dos eventos diários fora de nós, explicou Sellier. Isso pode nos tornar menos ligados ao nosso estado emocional, e, como resultado, menos felizes.

"As pessoas guiadas pelos cronômetros de tempo não precisam ouvir as suas emoções, porque elas se rendem ao relógio", ela disse. "O problema é, que os psicólogos agora sabem que, para sermos felizes, precisamos estar em sintonia com as nossas emoções e, em particular, precisamos ser capazes de saborear experiências positivas."

Mas, infelizmente, a pesquisa tem mostrado que pessoas guiadas pelos cronômetros de tempo são menos capazes do que as guiadas pelos cronômetros de eventos de nos fazer apreciar experiências positivas. Isto é válido em todos os tipos de emoções positivas, incluindo a alegria, a emoção e a gratidão.

"Em todo o espectro, vemos que pessoas guiadas pelos cronômetros do tempo mergulham menos no momento, exibindo menos emoções e compartilhando-as menos com os outros, no calor do momento ou mais tarde", disse Sellier.

Vários estudos descobriram que os horários de trabalho e pressão de tempo excessivas também podem dificultar a criatividade.

Estar muito orientado para o futuro pode ter efeitos negativos na nossa saúde e bem-estar.

Focar demais em cumprir o próximo prazo, em riscar o próximo item da nossa lista de afazeres e realizar tarefas futuras ativamente tira-nos fora do aqui e agora, e pode ter implicações profundas na forma como pensamos e nos comportamos.

Nossa orientação temporal afeta cada decisão que tomamos, de acordo com o psicólogo Philip Zimbardo, mas estamos raramente conscientes disso. A pesquisa de Zimbardo concluiu que todos nós temos uma orientação temporal fundamental do passado, presente e futuro, que pode se manifestar sob uma tendência positiva ou negativa.

"O tempo tem um efeito poderoso em nossas vidas que desconhecemos", disse Zimbardo ao The Huffington Post no ano passado. "Eu argumento que essa é a influência mais poderosa existente em tudo o que fazemos. É tão poderosa porque somos programados muito cedo na vida para vivermos em uma dessas 'zonas temporais'".

As pessoas que são orientadas excessivamente para o futuro tendem a sacrificar o tempo que passariam com a família, os amigos, o cuidado próprio, os passatempos e dormem em nome do sucesso. "Elas vivem para o trabalho, realização e controle", explicou Zimbardo em um TED talk de 2009.

Pesquisas já conectaram este comportamento com o vício em trabalho, com redução no bem-estar físico e mental e não é difícil perceber como o estresse, a privação de sono e a falta de tempo com os amigos e a família podem contribuir para níveis mais baixos de satisfação com a vida e realização pessoal a longo prazo.

Deixe os prazos de vez em quando, mas tenha cuidado para não criar prorrogações

Sob as circunstâncias corretas, deixar os prazos e dizer "eu vou fazer isso, quando eu fizer isso" pode ser profundamente libertador. Mas simplesmente empurrar para depois os prazos só aumenta a ansiedade e a fixação excessiva com o futuro.

Estender prazos pode ser contraprodutivo, pois nos torna mais estressados, de acordo com o psicólogo social Heidi Grant Halvorson. Em vez de nos darmos um descanso, para depois podermos retomar às atividades, como deveríamos, temos a tendência de continuar nos preocupando com o prazo e procrastinando até que ele chegue.

Se você quiser evitar a perda de motivação e prevenir a procrastinação - as duas barreiras mais comuns para lidar efetivamente com a prorrogação de prazos - tente dividir a tarefa em objetivos menores e de curto prazo, que dão uma sensação de realização, sugere Halvorson. Depois, se você deve mesmo dar um prazo específico ou prorrogar o prazo, você pode pelo menos certificar-se de não gastar tempo desnecessário se preocupando e procrastinando.

Diminua o ritmo e saia de cima do relógio para expandir seu sentido de tempo.

Se você está constantemente correndo e se sentindo sobrecarregado com uma sensação de "time famine" (ou famintos por tempo, em português) - também conhecida como "doença da pressa" - talvez seja hora de parar e reavaliar. As possibilidades do aumento do estresse e da ansiedade que seu estilo de vida implacável cria está neutralizando qualquer progresso que você realmente esteja fazendo quando tenta realizar um número desumano de coisas em um único dia.

É um paradoxo cruel: quanto mais cientes do tempo estivermos, mais rapidamente ele se desliza por entre os nossos dedos. Em outras palavras, quanto mais ocupados estamos, o tempo parece voar mais rápido. Felizmente, há uma solução científica para esse tipo de sensação terrível, de que a vida está passando por você tão rapidamente que você quer saber o que aconteceu com o último mês, seis meses, ou o ano. O truque é, simplesmente, prestar atenção. Saboreie experiências. Quanto mais presente você estiver, mais informações o seu cérebro terá e maior a sensação de que o tempo é um luxo e se alonga.

"Mindfulness (ou "atenção plena", em português) permite que as pessoas apreciem o seu ambiente e pode levar à sensação de que o tempo está passando mais devagar", disse o Dr. Steven Meyers, psicólogo clínico e professor de psicologia da Universidade Roosevelt, em Chicago, ao jornal The Huffington Post, no ano passado. "Prestar atenção a eventos que são agradáveis ou interessantes, certamente pode melhorar nosso humor e permitir saborear experiências positivas."

Outra forma de combater o time famine? Tente dar um pouco do seu precioso tempo. Um estudo de 2012 publicado na revista Psychological Science descobriu que gastar tempo com outras pessoas poderia aumentar a sensação de um indivíduo de "abundância de tempo."

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.