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16/11/2014 10:53 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Presidente Dilma Rousseff diz que escândalo na Petrobras é "o primeiro investigado" e "pode mudar o País para sempre"

Mario Tama via Getty Images
RIO DE JANEIRO, BRAZIL - OCTOBER 24: Brazilian President and Workers' Party (PT) candidate Dilma Rousseff (R) waves to the audience prior to the debate with Presidential candidate of the Brazilian Social Democratic Party (PSDB) Aecio Neves on October 24, 2014 in Rio de Janeiro, Brazil. The two are squaring off in a run-off election on October 26. (Photo by Mario Tama/Getty Images)

"Eu acho que isso pode, de fato, mudar o País para sempre." Com esta frase de impacto, a presidente Dilma Rousseff (PT) lançou mão da mesma estratégia utilizada durante a campanha eleitoral para tentar se manter acima das graves denúncias de corrupção envolvendo a Petrobras durante os governos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao menos o início de seu próprio mandato.

Como na campanha, Dilma busca posar de chefe de Estado que garante que as investigações irão adiante e insinua que, durante os governos anteriores à chegada do PT ao governo, isso não acontecia.

"Eu acho que isso pode, de fato, mudar o País para sempre. Pode mudar o País no sentido de que vai se acabar com a impunidade. Essa é, para mim, a característica principal dessa investigação. É mostrar que ela não é algo 'engavetável'", disse Dilma, em entrevista coletiva ao final da reunião do G-20, na Austrália, na madrugada de sábado para domingo no Brasil.

Durante a campanha, ao ser questionada por seus adversários sobre os casos de corrupção na Petrobras, ela afirmou que que durante os governos do PT órgãos como a Polícia Federal e o Ministério Público Federal puderam agir com independência e, por isso, surgiram mais denúncias de corrupção, que estariam sendo investigadas com todo o rigor.

Segundo ela, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, a PF não tinha independência e as denúncias eram "engavetadas" pelo então procurador-geral da República.

Ao comentar as prisões do ex-diretor da Petrobras Renato Duque e de mais de 20 executivos das 9 maiores empreiteiras do país, entre eles 5 presidentes, nos últimos dias, ela seguiu na mesma estratégia.

"Eu acredito que a grande diferença dessa questão é o fato de ela estar sendo colocada à luz do sol. Por quê? Porque esse não é, eu tenho certeza disso, o primeiro escândalo. Agora, ele é o primeiro escândalo investigado. O que é diferente", disse. "O fato de nós estarmos com isso de forma absolutamente aberta sendo investigado é um diferencial imenso", reforçou.

Ao posar de chefe de Estado acima das denúncias, Dilma omite o fato de que foi presidente do Conselho da Petrobras durante o Governo Lula (saiu em 2010 quando deixou o governo para ser candidata a presidente), ministra de Minas e Energia e da Casa Civil. Em todas essas funções essenciais, e muito próximas à Petrobras, ela não teria percebido nenhum indício de que algo de muito errado estaria acontecendo na maior estatal do Brasil?

E qual foi a responsabilidade de seu antecessor e padrinho político, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva? E depois, já como presidente, ela continuou sem saber de nada? Estas dúvidas ela não ajudou a redimir durante sua entrevista concedida na Austrália.

Em seguida, ela tentou proteger a Petrobras, enquanto empresa, das graves denúncias. "Não é um monopólio da Petrobras ter processos de corrupção. Eu quero te lembrar que um dos grandes escândalos de corrupção investigados no mundo foi o da Enron. E a Enron era uma empresa privada", afirmou a presidente.

"A maioria absoluta dos funcionários da Petrobras não é corrupta. Há pessoas que praticaram atos de corrupção dentro da Petrobras", disse. Para a presidente, "não se pode condenar a empresa. O que nós temos de condenar são as pessoas. E as pessoas dos dois lados. Dos corruptos e dos corruptores."

"Isso eu acho que mudará para sempre as relações entre a sociedade brasileira, o Estado brasileiro e as empresas privadas", concluiu.

No sábado, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo (PT), já tinha batido na mesma tecla de que o governo é o "garantidor" das investigações: "O governo não mudará um milímetro da sua conduta na perspectiva de exigir investigação, de apurar, doa a quem doer, seja quem for."

Em seguida, ele acusou a oposição de tentar forçar um "terceiro turno eleitoral" ao questionar a responsabilidade de Dilma e de outros políticos do PT ou da base aliada nos casos de corrupção. "Falo isso para repelir, com veemência, tentativas de se construir, em cima dessa investigação, um terceiro turno eleitoral. Aliás, postura muito ruim, que não contribui para os avanços da investigação. Eu repilo veementemente a tentativa de se politizar essa investigação de tentar carimbar forças políticas 'a, b ou c' para que se possa ter um prolongamento do palanque eleitoral", afirmou Cardozo.

Após a fala do ministro, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso negou que a oposição estaria explorando politicamente as denúncias de corrupção na Petrobras. "A oposição sabe que perdeu (as eleições). Reconheceu. Não há ninguém responsável na oposição que tenha outra opinião. Somos a favor da regra do jogo", disse FHC.

"Ninguém está explorando eleitoralmente, que eu saiba. O Brasil está estarrecido com a profundidade do que aconteceu. É muito dinheiro. É muita gente envolvida", afirmou o ex-presidente no sábado. FHC salientou que, por enquanto, as acusações envolvem partidos do governo. "São do seu partido que estão envolvidos nisso. Não basta ficar na posição de juiz. Tem que ir mais longe", afirmou, dirigindo-se ao ministro da Justiça.

Na sexta-feira, quando ocorreram as prisões da 7ª fase da Operação Lava Jato, FHC disse ter "vergonha do que está acontecendo no país".

Já o senador Aécio Neves, candidato derrotado do PSDB à Presidência, disse que, durante os governos do PT, a Petrobras "incorpora a marca perversa da corrupção".

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