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10/11/2014 18:04 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:45 -02

O que o chá de cogumelo faz para o cérebro? Ciência explica

Thinkstock

Todo mundo já ouviu alguém que usa alucinógenos dizer que a viagem é “uma expansão da consciência” e segundo algumas novas pesquisas, essa descrição poética pode ter base científica.

Usando imagens feitas por ressonância magnética em participantes saudáveis que ingeriram a psilocibina, o ingrediente ativo nos cogumelos alucinógenos “mágicos”, pesquisadores da Imperial College London descobriram que a droga gerou a comunicação entre regiões do cérebro que tipicamente não se comunicam entre si.

Em seu estado normal, o cérebro tem pouca conexão entre diferentes redes. Mas os pesquisadores descobriram que sob a influência da psilocibina, as redes começam a interagir entre si intensamente. E essas novas conexões não são aleatórias. “Não é que o número de conexões aumenta tanto, mas sim o padrão de conectividade que é diferente no estado psicodélico”, escreveu Paul Expert, o principal autor da pesquisa, em um email para o The Huffington Post.

Isso corrobora alguns dos efeitos mais comuns relatados por usuários da psilocibina, com novos insights e percepções, além de sinestesia e pensamento não-linear.

Expert e seus colegas usaram uma nova técnica para a modelagem das redes, desenvolvida para analisar a conectividade por todo o cérebro, ao invés de olhar apenas para sistemas isolados ou componentes químicos. Os pesquisadores compararam as ressonâncias das pessoas que haviam consumido a psilocibina com as ressonâncias de 15 pessoas saudáveis que consumiram um placebo. Especificamente, os pesquisadores estavam analisando a conectividade funcional – a comunicação entre diferentes regiões do cérebro que compartilham características funcionais.

Enquanto que uma simples leitura dos dados parece sugerir que a psilocibina só relaxa os limites da função cerebral e melhora a flexibilidade cognitiva, o que acontece é um pouco mais complexo, diz Expert.

"O cérebro não se torna simplesmente um sistema aleatório após uma injeção de psilocibina, mas na verdade retém alguma de suas funções de organização, só que diferentes de quando está em seu estado normal”, afirmaram Expert e sua equipe no relatório. “As conexões funcionais apóiam ciclos que são especialmente estáveis e só estão presentes no estado psicodélico”.

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Conectividade funcional de um cérebro normal (esq.), comparado com um cérebro sob a influência da psilocibina.

"Descobrimos que o estado psicodélico está associado com um modo menos restrito e com mais intercomunicação de funcionamento do cérebro, condizente com as descrições da natureza da consciência no estado psicodélico”, concluem Expert e seus colegas.

Pesquisas anteriores sobre drogas psicodélicas da Imperial College London mostraram que pessoas que consomem psilocibina tinham padrões de atividade cerebral normalmente associadas com os sonhos e a um estado de atividade emocional aumentada. Em um artigo da revista Slate sobre as novas descobertas, a pesquisadora Robin Carhart-Harris explicou que quando o sistema emocional está ativado, o “sistema do ego” do cérebro, de onde tiramos a nossa identidade, fica mais calmo.

"Evidências desse estudo, e também dados preliminares de uma pesquisa que está sendo feita com LSD, parecem apoiar o princípio de que o estado psicodélico se baseia na atividade desorganizada do sistema do ego, permitindo a atividade sem inibições no sistema emocional”, escreveu Carhart-Harris na Slate. "E tal efeito pode explicar porque as drogas psicodélicas têm sido consideradas facilitadoras muito úteis em alguns tipos de psicoterapia”.

A pesquisa feita por Expert faz parte de um esforço mais abrangente para entender como as drogas psicodélicas atuam e quais as possíveis aplicações para a psiquiatria. Até agora, grande parte da pesquisa tem sido promissora. Um estudo de 2012 mostrou que a psilocibina pode ser uma forma eficaz de intervenção para a depressão, enquanto outra pesquisa publicada esse ano revelou que a psicoterapia com LSD é eficaz no tratamento da ansiedade em relação à morte em pacientes com doenças terminais.

Existem pesquisas sendo feitas sobre a ayahuasca, também conhecida como Daime – é um poderoso alucinógeno, derivado do DMT, que é usado pelos curandeiros das tribos indígenas da Amazônia há séculos – que está sendo estudada como um possível tratamento para síndrome de estresse pós-traumático, dependência química e outras condições.

A própria pesquisa de Expert pode ser um passo importante para a criação de uma terapia para a depressão crônica usando a psilocibina.

"Uma das características de um cérebro com depressão é que ele fica preso em um circuito, travado em um ciclo repetitivo de pensamentos negativos”, explicou Expert ao HuffPost. "Uma analogia seria uma particular que está presa em um espaço mínimo em uma ambiente energético, mas ele está preso lá. A ideia é que o uso da psilocibina pode ajudar a quebrar esse ciclo, mudar os padrões da conectividade funcional no cérebro, ou voltando para a analogia da particular, dar a ela a energia suficiente para que ela conseguir sair da sua ‘prisão’ e explorar o resto do ambiente energético”.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.