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08/11/2014 20:45 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:45 -02

25 anos após a queda do Muro de Berlim, estas barreiras ainda estão de pé pelo mundo

Em 9 de novembro de 1989, os moradores de Berlim se reuniram dos dois lados da barreira de concreto que os dividiu por quase três décadas e começaram a demoli-la, pedaço por pedaço. O muro que separava Berlim Oriental e Berlim Ocidental logo deixaria de existir.

25 anos após a queda do muro, porém, ainda existem algumas barreiras ao redor do mundo. Elas separam comunidades, países e até mesmo continentes inteiros.

Para marcar o aniversário dos eventos históricos de 9 de novembro, nossos editores do Huffington Post de todo o mundo contam as histórias de barreiras aparentemente intransponíveis que os cercam até hoje.

Líderes mundiais, chegou a hora derrubarmos estes muros:

CERCA NA FRONTEIRA

A foto abaixo, de 23 de outubro, mostra parte da cerca de 12 quilômetros na cidade de Melilla que separa a Espanha do Marrocos, a Europa da África, a prosperidade do desespero. Cueta, o outro encrave espanhol no Magreb, também tem sua barreira.

As separações foram erguidas em 1998 e, na época da construção, eram simples cercas de 2,5 metros de altura, cujo objetivo era controlar a chegada de novos imigrantes, a maioria do África Subsaariana. Nos últimos anos, o governo tem reforçado as barreiras: elas estão mais altas e contam com sensores, câmeras, luzes, arame farpado, cercas intermediárias etc. Mas nada disso dissuade os imigrantes que se dispõe a correr o risco da travessia.

Muitos tentam, poucos conseguem. E há outros métodos mais eficientes para entrar clandestinamente. Em 2013, nenhum imigrante conseguiu passar pela cerca de Cueta, mas 2.244 atravessaram a fronteira de outras maneiras. Em Melilla, onde imigrantes costumam tentar pular em grupo, a taxa de sucesso é maior. Dos 2.638 que conseguiram entrar em Melilla ilegalmente em 2013, mais de 800 passaram pela barricada.

O governo da Espanha gastou 72 milhões de euros (89 milhões de dólares) desde 2005 para expandir os dois muros. Eles também parecem ser impermeáveis aos direitos humanos, é o que denunciam organizações humanitárias como o Conselho Europeu e a Comissão Europeia. Imagens recorrentes mostram a violência contra os imigrantes. Expulsões sumárias são frequentes, assim como as desculpas do governo para justificar essa violação de leis nacionais, internacionais e europeias.

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Imigrantes tentam cruzar a cerca em Ceuta, perto de um campo de golfe
(Jose Palazon)


DUAS NAÇÕES

O Canadá é conhecido como um país multicultural, mas há muito anos é divido entre as partes que falam inglês e francês.

A questão da independência de Québec ganhou as manchetes dos jornais do mundo inteiro em 1995, quando a Província votou em seu segundo referendo para se separar do Canadá. Os separatistas perderam por pouco naquela ocasião, mas, nos últimos 20 anos, a ideia tem se mantido em segundo plano. Hoje, menos de 40% dos quebequenses apoiam a ideia de separação. O Parti Québecois, pró-independência, deixou o poder em abril passado, depois de governar por 18 meses.

Outras divisões fazem parte da realidade canadense. As diferenças na economia entre as províncias criaram uma divisão também entre "os que tem" e "os que não tem". E as comunidades aborígenes do país, conhecidas como First Nations, querem mais controle de seus recursos naturais e mais poder de decisão. Elas também exigem reparações por abusos cometidos no passado.

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Apoiadores do partido separatista de Québec reagem aos primeiros resultados do referendo de independência, em 1995
(AP Photo/Eric Draper)


ILHAS EM DISPUTA

Em setembro de 2010, um pesqueiro chinês se chocou com dois barcos da guarda costeira japonesa perto das ilhas Senkaku/Diaoyu, no mar da China Oriental. A disputa pelas ilhas – controladas pelo Japão e reivindicadas pela China – criou uma “cortina de ferro” entre os dois países, a segunda e a terceira maiores economias do mundo.

Em resposta à crescente assertividade chinesa nas disputas territoriais marítimas, o governo japonês nacionalizou em 2012 três das ilhas contestadas, o que levou Pequim a cortar todas as discussões de alto nível com Tóquio.

A China insiste que uma reaproximação não será possível enquanto o governo do premiê japonês, Shinzo Abe, não estiver disposto a reconhecer que as ilhas estão em disputa e a expressar remorso pelas ações japonesas na Segunda Guerra. O Japão, por outro lado, não deve recuar enquanto estiver sob o comando do nacionalista Abe. O premiê japonês espera estabelecer um “diamante de segurança democrática”, alinhando o Japão com países como Austrália e Índia contra a China.

A disputa territorial contribui para as piores relações sino-nipônicas desde o estabelecimento de relações diplomáticas nos anos 1970. Em uma escalada preocupante, a China anunciou em novembro de 2013 uma Zona de Identificação Aérea (ZIA) unilateral que se sobrepõe a partes da ZIA japonesa.

No entanto, em um sinal de esperança, o governo do Japão anunciou em 7 de novembro que o primeiro-ministro do país vai se reunir com o presidente chinês, Xi Jinping, em negociações paralelas durante o Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico, que está prevista para começar em 10 de novembro em Pequim.

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Pesqueiro de Taiwan (à direita) é bloqueado pela guarda costeira japonesa perto das ilhas Diaoyu/Senkaku
(SAM YEH/AFP/GettyImages)


LDM COREANA

A barreira entre as Coreias do Norte e do Sul nunca foi tão alta.

Oficialmente em estado de armistício, os dois países são separados por uma Linha de Demarcação Militar (LDM) de 650 km. Nos últimos 61 anos – 24 horas por dia, 365 dias por ano – homens fortemente armados se postam frente a frente, de ambos os lados da linha.

Moradores do Norte e do Sul não podem cruzar livremente a linha, e a maioria absoluta dos habitantes de ambos os países nunca visitou o vizinho. Para atravessar a fronteira é necessário uma autorização especial do governo, concedida em raríssimas ocasiões.

A barreira não separa os coreanos apenas fisicamente. É impossível enviar cartas ou telefonar para o outro lado da LDM. A limitação também se estende à internet. Sites norte-coreanos não são podem ser acessados no sul.

Muitas famílias separadas durante o caos da Guerra da Coreia nunca foram reunidas. Algumas “famílias separadas” vivem há décadas sem saber se seus parentes estão vivos. Até hoje, ninguém sabe se eles voltarão a se encontrar.

Depois de 60 anos, as Coreias não são mais os mesmos países. Os sistemas sociais e as culturas são bem diferentes. Até mesmo a língua se desenvolveu de formas distintas no norte e no sul.

Hoje em dia, muitos sul-coreanos se perguntam se a unificação deveria continuar sendo um meta – uma dúvida impensável no passado. Um número significativo de sul-coreanos, especialmente os mais jovens, acredita que uma unificação com o norte pobre significaria enormes dificuldades econômicas.

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Soldado norte-coreano observa o sul na cidade fronteiriça de Panmunjon.


"OS MUROS DA PAZ"

Como o Muro de Berlim, o “Muro da Paz” de Cupar Way, em Belfast, divide há décadas um cenário urbano na metade. Mas, diferentemente do alemão, este muro é frequentemente recomendado no Trip Advisor.

O muro, um de dezenas que dividem a capital da Irlanda do Norte, é listado no site como uma das principais atrações da cidade. Ônibus de turismo param ali perto regularmente e incentivam os visitantes a deixar suas mensagens. Ele está de pé há 45 anos, 17 a mais que o Muro de Berlim.

O “turismo de conflito” vem se tornando um grande negócio em Belfast, assim como em Berlim, onde turistas visitam o Checkpoint Charlie ou compram pedaços de concreto que os camelôs garantem ser lascas originais do muro. Mas, na Irlanda do Norte, há uma clara distância entre os visitantes estrangeiros – sejam eles políticos ou turistas – e os moradores da cidade, que têm lembranças ainda vivas da violência.

As décadas de derramamento de sangue, oficial e eufemisticamente conhecidas como “The Troubles” ("Os problemas") ou às vezes simplesmente “The War” ("A Guerra"), ficaram para trás. Os muros podem parecer monumentos ao passado, para serem grafitados e fotografados. Mas, para quem vive à sua sombra, a violência entre os Unionistas Protestantes, que querem que a Irlanda do Norte permaneça britânica, e os Nacionalistas católicos, que defendem a união com a República da Irlanda, não é coisa do passado. Um estudo de 2012 mostrou que quase 70% dos moradores das “áreas de interface”, perto dos muros, temeriam por sua segurança se não houvesse barreiras.

Os muros impedem o cruzamento entre áreas protestantes, de um lado, e católicas, do outro. Alguns muros restringem o acesso completamente, enquanto outros têm portões abertos durante algumas horas do dia, para controlar a movimentação. A segregação é menos intensa do que na época da construção dos primeiros muros, em 1969, quando o exército britânico foi enviado para a Irlanda do Norte para manter a paz após distúrbios violentos.

Noticia-se com frequência que o número de “muros da paz” tem aumentado nos últimos 20 anos. Mas o número real depende de como se faz a contagem. O Departamento da Justiça da Irlanda do Norte administra 53 muros, mas um estudo contou 99 em Belfast, onde está a maioria das barreiras.

Em 1998, o histórico Acordo da Sexta-Feira Santa acabou com quase 30 anos de violência e desarmou os paramilitares e os insurgentes.

Nos últimos anos, houve progressos, mas também retrocessos na jornada para convencer a população a acabar com os muros.

O mais recente Relatório de Monitoramento da Paz, publicado em março, concorda que a derrubada dos muros não será um “evento simbólico e dramático” como a do Muro de Berlim. “Se os muros da paz da Irlanda do Norte cairem, será um processo gradual”, diz o relatório, acrescentando que, com a exceção dos locais, o evento “mal seria percebido”.

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cein quinn

Acima: Alison Quinn com seu filho Cein, 7. Eles vivem na porção majoritariamente católica de Belfast, Irlanda do Norte. Abaixo: O protestante Lee Young, 8, vive há apenas 200 metros de Cein, mas eles provavelmente nunca vão se encontrar. Seus bairro na cidade de Belfast são separados por uma muro da paz. São 40 pés (12 metros) de altura.
(AP Photo/Peter Morrison)


FECHANDO A FRONTEIRA

Um dos poucos lugares na Terra onde o primeiro e o terceiro mundo se encontram, os quase 2.000 km de fronteira EUA-México já foram uma área muito mais aberta do que é hoje. No Texas, a fronteira passa ao longo do Rio Grande, que corta uma série de cidades que já pertenceram ao México. Naquela época, pessoas com raízes familiares em ambos os lados de cidades-irmãs, como Brownville-Matamoros, Laredo-Nuevo Laredo, ou El Paso-Ciudad Juárez cruzavam a fronteira todos os dias para trabalhar, ir à escola ou ver seus entes queridos.

Ainda que exista alguma liberdade, autoridades dos EUA têm cada vez mais fechado a fronteira em consequência das ondas de migração em massa vindas do México, que começaram na década de 1980 e duraram até o início dos anos 2000. A medida em que milhões de mexicanos entraram nos EUA, legal e ilegalmente, as autoridades americanas ergueram cercas e muros para manter os imigrantes fora. Hoje, existem mais de 885 KM de cercas nas fronteiras.

O crescimento das cercas nos antes movimentados corredores no Texas e na Califórnia empurrou os imigrantes que desejam imigrar direto para o deserto entre o estado mexicano de Sonora e o estado americano do Arizona. As autoridades americanas imaginavam que o perigo de atravessar o deserto dissuadiria os migrantes de cruzar ilegalmente.

Eles estavam errados. Desde 2001, mais de 2.100 imigrantes morreram tentando atravessar o deserto, um número mais de 15 vezes maior do que as 136 pessoas que perderam suas vidas na tentativa de cruzar o Muro de Berlim entre 1961 e a sua queda em 1989. Em 2009, uma análise feita pela American Civil Liberties Union descobriu que o risco de morte ao cruzar a fronteira EUA-México é 17 vezes maior que há 10 anos.

Apesar do fato de que as prisões durante travessias ilegais - uma forma de medir os fluxos de imigração ilegal - terem caído para cerca de um quarto do pico de 1986, quando chegaram a 1,7 milhões, o debate sobre a imigração no Congresso dos EUA continua a se concentrar em destinar ainda mais recursos para militarizar o fronteira, com os partidários contra os imigrantes pressionando cada vez mais por novas cercas.

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Tira em 21 de Agosto de 2014, esta foto mostra o americano Enrique Morones da ONG 'Border Angels' em uma das cercas da fronteira México-EUA na cidade de Jacumba, na California.

(MARK RALSTON/AFP/Getty Images)

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.