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06/11/2014 11:52 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Milhões de sírios podem passar fome no inverno, alerta ONU

Vadim Ghirda / AP Photo

O quarto inverno da guerra civil na Síria está se aproximando, e a ONU alerta que seus esforços humanitários estão com recursos financeiros perigosamente baixos.

Milhões de sírios podem passar fome ou frio durante os meses de inverno no hemisfério norte, além de sofrer com a falta de cuidados médicos e de combustíveis, se a ONU não receber mais fundos logo, segundo agências da entidade que trabalham na Síria e nos países vizinhos.

Em seu maior apelo humanitário até agora, a ONU pediu US$ 3,74 bilhões de dólares em recursos para custear as operações humanitárias ligadas ao conflito. A ONU afirma ter recebido apenas 52% do montante anual. Dos US$ 2,8 bilhões adicionais necessários para as operações humanitárias na Síria, a ONU diz ter recebido somente 39%.

O apoio à população do país neste inverno vai custa US$ 113 milhões, segundo estimativas. Esse valor inclui abrigos, hospitais, clínicas, roupas de inverno, cobertores e outros itens de apoio para que a população síria consiga sobreviver às duras condições do inverno.

O Programa Mundial de Alimentos da ONU, que alimenta sírios na Síria, nos vizinhos Líbano, Jordânia, Iraque, Turquia e Egito, diz que será obrigado a fazer cortes no seu programa de cupons de alimentação em novembro e dezembro, caso não haja mais dinheiro. As cestas de alimentos distribuídas na Síria já foram reduzidas em 40% em outubro por causa da falta de recursos.

Uma porta-voz da ONU em Amã, Joelle Eid, diz que a organização não estava com o caixa tão apertado no ano passado. Mas agora cortes serão inevitáveis caso não haja novos depósitos.

“Famílias que dependem dessa ajuda sofrerão um impacto terrível”, disse ela ao WorldPost. “Crianças terão de abandonar a escola. Podemos assistir a um aumento no casamento de crianças, e muitas famílias podem voltar para a Síria, apesar da falta de segurança”.

O Programa Mundial de Alimentos da ONU gasta US$ 3,5 milhões por semana para alimentar 6 milhões de sírios.

"O tempo está acabando", disse ao WorldPost via Skype o coordenador de ajuda humanitária da ONU em Damasco, Yacoub El Hillo.

“Estou preocupado porque a atenção está sendo desviada do sofrimento da população para o ISIS”, disse ele, em referência ao grupo extremista Estado Islâmico, “e também para a ação militar, à custa da população, que é a maior vítima”.

“O temor é que isso esteja acontecendo justamente com a chegada do inverno”, disse ele. “Mesmo que eles tenham conseguido se virar nos anos anteriores, acredito que este ano será mais difícil.”

O Conselho de Segurança da ONU aprovou uma resolução autorizando a distribuição de ajuda humanitária para os sírios sem o consentimento do governo do país, mas grupos de oposição seguem bloqueando o acesso a certas regiões. Os preços dos combustíveis estão disparando, e os civis estão se afundando cada vez mais na pobreza, sobrevivendo com alguns poucos dólares por dia.

O Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários compilou uma lista atualizada detalhando quanto cada país prometeu e quais deles ainda precisam efetuar os pagamentos.

“O mundo pode fazer melhor”, diz El Hillo. “Doadores podem ser mais generosos. Não fazê-lo significa condenar milhões de pessoas. Será um problema não só para a Síria, mas também para os países vizinhos.”

John Ging, diretor de Operações Humanitárias da ONU, alerta que os países que fazem fronteira com a Síria estão “no limite”.

Cerca de 6,5 milhões de sírios foram obrigados a deixar suas casas, e outros 3,2 milhões fugiram do país. A maior parte está no Líbano, na Jordânia e na Turquia.

Em uma conferência humanitária em Berlim em 29 de outubro, o vice-ministro de Relações Exteriores da Turquia, Naci Koru, atacou a comunidade internacional por não fazer mais para ajudar os países vizinhos, que têm de lidar com a maior parte do problema dos refugiados.

Nas ruas cosmopolitas de Istambul, famílias miseráveis de sírios imploram por trocados. Ao longo da fronteira, muitas não conseguem lugar nos campos de refugiados e são obrigadas a dormir em apartamentos vazios ou estações de ônibus.

Enquanto isso, a Jordânia alertou que não pode mais aceitar refugiados, como fez durante três anos e meio. E refugiados também têm sido proibidos de entrar no Líbano, onde os sírios compõem cerca de um quarto da população.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.