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27/10/2014 16:13 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Quais os motivos do isolamento absoluto da Coreia do Norte?

David Guttenfelder

A Coreia do Norte é um dos países mais isolados do mundo.

As cerca de 24 milhões de pessoas que vivem no estado totalitário têm interações mínimas com o mundo exterior. A mídia estrangeira é proibida, interações com turistas são estritamente controladas e a internet é inacessível para quase todos os cidadãos.

Jornalistas da BBC que visitaram o país em 2010 encontraram estudantes universitários que nunca tinham ouvido falar de Nelson Mandela. E o mundo tem pouca ideia do que acontece no país – seus líderes são capazes de “sumir” de cena por semanas.

O programa de armas nucleares norte-coreano e o terrível histórico de violações dos direitos humanos fizeram do país um pária global.

Sanções internacionais isolam ainda mais a economia socialista e centralizada do país. As políticas econômicas de Pyogyang têm sido desastrosas, agravando a pobreza do país.

Vista do espaço, a capital Pyongyang desaparece na escuridão – uma cruel imagem do subdesenvolvimento crônico do país em relação ao resto da região.

A história da reclusão da República Popular Democrática da Coreia tem raízes em tradições antigas e a sangrenta geopolítica da era moderna.

coreia do norte

Esta foto da NASA de 30 de janeiro mostra a Coreia do Norte, a área escura no meio da imagem, entre a Coreia do Sul, à direita, e a China, à esquerda

As origens do Reino Ermitão

A Coreia tem uma longa história de autoisolamento, mesmo antes de a península coreana ser dividida em dois países no século 20.

A dinastia Choson, que governou a Coreia do século 14 até o começo do século 20, manteve o país isolado do resto do mundo tanto para se defender de invasões estrangeiras como por acreditar numa suposta superioridade de sua cultura confucionista.

Contatos com estrangeiros e viagens para o exterior era proibidos e, depois de uma série de invasões, a dinastia limitou as interações até mesmo com os vizinhos China e Japão.

Essa reclusão era a regra na região – Japão e China também adotaram políticas semelhantes no período --, mas a da Coreia durou mais tempo.

A Coreia foi apelidada de Reino Ermitão pela primeira vez no século 19, quando potências ocidentais foram rejeitadas pelos coreanos quando avançavam na Ásia para fazer comércio e buscar territórios.

“Mesmo quando China e Japão foram obrigados a abrir suas fronteiras para as nações ocidentais, a Coreia era virtualmente desconhecida internacionalmente”, segundo os acadêmicos Uichol Kin e Young-Shin Park.

Em pé de guerra permanente

A Coreia caiu nas mãos dos estrangeiros no século 20, e as guerras que se seguiram só reforçaram o isolamento do Norte.

O Japão anexou a Coreia em 1910. Quando os japoneses foram derrotados na Segunda Guerra, a Coreia foi dividida em territórios controlados pelos americanos e pelos soviéticos.

O arranjo seria temporário, mas nunca se alcançou um acordo permanente, e assim emergiram os dois governos distintos. Josef Stálin nomeou Kim Il Sung como líder da Coreia do Norte – Kim governaria por 50 anos antes de ser substituído por seu filho, Kim Jong Il, e mais tarde por seu neto, o atual líder supremo, Kim Jong Un.

Em meio às tensões da Guerra Fria e às disputas territoriais, Norte e Sul entraram em guerra em 1950, apoiados por seus respectivos aliados. A Guerra da Coreia foi devastadora – bombardeios americanos arrasaram muito da Coreia do Norte, e apenas um edifício ficou em pé na capital. O armistício que encerrou o conflito deixou os dois países tecnicamente em guerra e num estado de tensão constante.

O Norte se sentiu vulnerável e cercado, segundo Charles Armstrong, diretor do Centro de Pesquisas Coreanas da Universidade Columbia. “A Coreia do Norte é uma sociedade com uma mentalidade permanentemente sitiada. O país vive sob ameaça constante de guerra desde os anos 1950”, escreve Armstrong.

Como resultado, Kim Il Sung desenvolveu uma teoria de auto-suficiência, ou Juche, em coreano, que é a ideologia oficial do regime até hoje.

Ele descreveu três princípios: independência política, auto-suficiência econômica e autonomia militar. “Essa postura política levou a Coreia do Norte a se tornar verdadeiramente um reino ermitão, por causa do enorme estigma que o juche associa à colaboração com poderes externos”, escreve Grace Lee para o Stanford Journal of East Asian Affairs.

O juche também foi usado para justificar o isolamento do país até mesmo de outras nações socialistas, além do culto à personalidade de seus líderes.

Depois da reaproximação da China com o Ocidente e, mais tarde, o colapso da União Soviética, a Coreia do Norte ficou mais isolada do que nunca. As relações com o vizinho do sul e com os Estados Unidos pareceram melhorar nos anos 1990, mas voltaram a se deteriorar depois de George W. Bush incluir a Coreia do Norte no Eixo do Mal, em 2002, e de Pyongyang expulsar os inspetores internacionais que monitoravam a construção de armas nucleares.

A Coreia do Norte vai se abrir um dia?

Com tão poucas informações disponíveis sobre o que pensam os líderes do país, previsões a respeito do futuro da Coreia do Norte são notoriamente pouco confiáveis.

Andrei Lankov, especialista no assunto, diz que a maior probabilidade é que o regime entre em colapso e o Norte seja absorvido pelo Sul.

Desertores norte-coreanos afirmaram à NKNews este ano que mais atividade de mercado, a penetração de informações estrangeiras e disputas internas de poder podem desestabilizar o regime, apesar das diferenças de opinião sobre quando isso possa acontecer.

Lakov nota que há outras possíveis direções para a Coreia do Norte: Pequim pode intervir em caso de crise, levando a um regime pró-China, ou a liderança pode sobreviver, tentando políticas de desenvolvimento econômico.

Enquanto isso, é improvável que a Coreia do Norte volte para a comunidade internacional. O país promete manter seu desenvolvimento nuclear, enquanto conversas multilaterais para coibir o desenvolvimento de armas nucleares estão paralisadas desde 2009.

Houve indicações esperançosas de que Pyongyang possa reconsideram seu isolamento, incluindo mais diálogo com a Coreia do Sul (apesar de constantes escaramuças na fronteira).

Alguns veem sinais de uma ofensiva de charme em relação ao Ocidente, enquanto Japão e Rússia também identificam oportunidades de melhorar o relacionamento. A China, única aliada da Coreia do Norte, está cada vez mais frustrada com a beligerância de Pyongyang, levantando a possibilidade de que a Coreia do Norte perca parte da proteção de Pequim, que parcialmente insula o país das pressões internacionais.

Mas resta um entrave crucial, segundo Choi Jin-Wook, pesquisador-sênior do Instituto Nacional de Unificação, de Seul. “Eles querem falar com os Estados Unidos, eles querem ajuda externa, eles querem sair do impasse e da estagnação – mas sem abrir mão das armas nucleares”, diz Jin-Wook.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.