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25/10/2014 15:07 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:42 -02

Uruguaios vão às urnas escolher o próximo presidente; veja 'balanço' do governo Mujica

Natacha Pisarenko / AP Photo

Assim como os brasileiros – que escolhem neste domingo o presidente da República – os uruguaios também vão às urnas no próximo domingo (26).

Em março do ano que vem,Jose Mujica, 79, deixa a presidência, após cinco anos de mandato. Diferente do Brasil, o Uruguai não permite a reeleição.

No entanto, o pleito deste domingo apresenta algumas semelhanças com o brasileiro: a Frente Amplia, partido atualmente no poder, ocupa a presidência há dez anos e conta com a simpatia da maioria da esquerda uruguaia. O mandato de Mujica, assim como o de Dilma Rousseff, foi marcado por políticas sociais com foco na redução da pobreza – o Uruguai, país que chegou a ter o nível de pobreza em 38%, hoje contabiliza 11%.

Com uma oposição que se queixa da economia – durante o mandato de Mujica a divida externa uruguaia subiu para 55% do PIB, cerca de US$ 19 bilhões - e, embora discorde de algumas políticas implementadas pelo atual presidente, se comprometa a mantê-las – os candidatos que lideram as pesquisas de voto foram contra a lei do aborto, por exemplo -, tudo indica que o segundo turno entre a situação e a oposição será disputado voto a voto.

Carismático, com um jeito informal e humilde, Mujica projetou o pequeno Uruguai –país de 3,5 milhões de habitantes, com um território menor do que o de São Paulo e situado entre a Argentina e o Brasil – para o mapa da política internacional. Seu governo foi marcado por políticas sociais agressivas e medidas progressistas como a legalização do aborto e da maconha.

Entre os candidatos que disputam a presidência, os com maior índice de intenções de votos nas pesquisas são Tabaré Vázquez, que concorre pelo Partido Frente Amplio e Luis Lacalle Pou, candidato pelo Partido Nacional (PN), também conhecido como partido Blanco.

Todavia, independente de quem seja o sucessor de Mujica, ele terá como (difícil) tarefa, herdar um governo que consolidou o Uruguai no cenário internacional e tornou o presidente com um jeito despojado e, mesmo assim, quase um “popstar”.

Mujica – ex-guerrilheiro que passou 14 anos preso durante a ditadura militar - deixa a presidência com uma aprovação de 58% do eleitorado uruguaio –o pico de popularidade do seu mandato foi 83% de aprovação.

Listamos alguns dos principais pontos de seu governo.

Aborto

A lei foi aprovada em 2012, mas o projeto já era mais antigo. Em 2007, a coalizão governista da Frente Amplia havia proposto o projeto, que foi vetado por Tabaré Vazquez, católico e médico por formação e um dos possíveis sucessores de Mujica. (Ele é o candidato que lidera as pesquisas).

De acordo com a lei, os abortos podem ser realizados até a 12ª semana de gestação em qualquer caso - com acompanhamento médico e psicológico. Mulheres que foram vítimas de estupros têm até a 14ª semana de gravidez para tomar a decisão.

A medida provocou polêmica e reação dos setores conservadores, mas foi adiante – uma tentativa dos religiosos em derrubar a lei surtiu pouco efeito: apenas 9% do eleitorado se propôs a votar, sendo que o mínimo para a realização de um referendo é de 25% dos eleitores. Hoje em dia são realizados cerca de425 abortos por mês no Uruguai. Entretanto, em regiões mais conservadoras, muitos profissionais alegam objeção de consciência, e não realizam o procedimento.

Direitos Humanos

O Uruguai foi o primeiro país latino-americano a receber refugiados sírios bancando 100% dos gastos com seu deslocamento e reassentamento. Em outubro deste ano, um grupo de 42 pessoas chegou ao Uruguai e até fevereiro de 2015, o país deve receber um total de 120 refugiados.

Muijca também anunciou a decisão de receber seis prisioneiros da prisão americana de Guantánamo . No entanto, embora a decisão tenha repercutido bem internacionalmente, segundo a BBC, a maioria dos uruguaios reprovou o movimento do presidente.

Casamento Igualitário

Outra lei importante que passou a valer no governo Mujica foi a que permite o matrimônio igualitário. Com data de abril de 2013, a legislação também permite que os casais homossexuais adotem crianças e ingressem nas forças armadas.

A lei foi proposta pela coalizão governante, mas contou com o apoio de legisladores da oposição. Outro aspecto interessante dessa lei, é que ela permite que o casal homossexual decida a ordem do sobrenome dos filhos e, em caso de descordo, prevê que seja feito um sorteio.

Enquanto a lei tramitava no legislativo, a igreja pediu que os legisladores católicos votassem contra a lei que, em seu ver “ia contra o projeto de Deus”.

Maconha

Ainda em 2013, o Uruguai se tornou o primeiro país que não apenas legalizou a maconha – o seu uso já não era criminalizado -, mas também encarregou o Estado de produzir e distribuir a erva.

Relações Internacionais

Em termos de economia, o Uruguai ampliou significativamente sua participação internacional. Segundo o chanceler do país, Luis Almagro, desde 2004 o país quintuplicou suas exportações e desde 2009, esse número dobrou.

O país também se aproximou de alguns parceiros comerciais estratégicos, como a China, diminuindo sua dependência de mercados próximos.

Segundo Mujica disse à Telesur, há alguns anos, o país tinha bastante dependência da região. “Agora estamos muito mais diversificados”, afirmou o presidente.

“Somos um país pequeno e precisamos ser sábios nas relações internacionais para melhorar a independência”, afirmou.

No âmbito latino-americano, o Uruguai também ampliou sua participação na Unasur (União de nações Sul-americanas), no Mercosul e na Celac (Comunidade de Estados Latino Americanos e do Caribe).

O que ficou faltando

Em entrevistas recentes, o próprio Mujica reconheceu algumas falhas do seu mandato. Ele afirmou a Telesur que seu sucessor poderá “fazer mais coisas” no âmbito da educação.

“Avançamos no ensino técnico e tecnológico, mas estamos longe do que eu pretendo”, afirmou.

Em 2012, o Uruguai ficou em 56º lugar entre 65 países avaliados no PISA, prova internacional que avalia a qualidade da educação.

Outro ponto polêmico de seu governo e, segundo a jornalista Patricia Álvares, é a questão da segurança pública.

“A direita reclama da violência e quer reduzir a maioridade penal. Na semana passada, entretanto, 50 mil pessoas marcharam contra a redução da maioridade penal”, relata.

Sobre isso, Mujica disse que, durante seu mandato, foi feito um “esforço colossal”, e colocou a culpa em gestões anteriores.

“É difícil recuperar uma ferida social. Estamos apenas contendo-a”, afimou, dizendo ainda que a melhora efetiva será vista a médio prazo, e será fruto das políticas sociais implementadas pelo seu governo.