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12/10/2014 16:45 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

Decepção, estratégia e retorno: O que se desenha para o futuro político de Marina Silva após as eleições presidenciais de 2014

GABRIELA BILÓ/ESTADÃO CONTEÚDO

Pouco mais de dois milhões de votos a mais e um novo ciclo de quatro anos depois, Marina Silva se encontra em 2014 em uma posição que já conheceu em 2010: fora do segundo turno e com muitas decisões pela frente. A primeira diferença entre um ciclo e outro é que, neste domingo (12), a candidata à Presidência pelo PSB anunciou o seu apoio ao tucano Aécio Neves. Há quatro anos, ela permaneceu neutra. E agora? O que o futuro reserva para a ex-senadora petista?

Os 22.176.619 de votos conquistados neste pleito foram inegavelmente um avanço em relação à votação obtida nas eleições presidenciais anteriores. Entretanto, o patamar aparentemente estável de um eleitorado cativo contrasta com o potencial perdido ao longo do primeiro turno, e a aliança firmada com o PSDB contra a presidente Dilma Rousseff (PT) terá um ônus a pagar por Marina daqui para frente.

“Ela vai frustrar muita gente da própria Rede Sustentabilidade (partido a ser oficializado por Marina). Conheço alguns, é uma moçada muito boa e qualificada, mas que não gosta nem do PT ou do PSDB. Muitos vão se sentir traídos por ela, decepcionados porque acreditavam que ela poderia fazer alguma outra coisa contra essa política que eles não querem”, analisou o sociólogo Wagner Iglecias, professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da USP.

Parece natural a união de Marina aos tucanos, ainda mais diante da desconstrução feroz praticada pela campanha de Dilma no primeiro turno. Contudo, em maio deste ano, a então vice do candidato à Presidência Eduardo Camposmorto em agosto em um acidente aéreo – afirmava categoricamente, em entrevista à TV Folha, que “o PSDB no segundo turno cheira à derrota”.

Tal fato expõe mais uma dentre as várias contradições que atingiram a candidatura de Marina. O apoio a Aécio já gerou críticas não só entre integrantes da Rede, mas ‘rachou’ o PSB, partido que a abrigou neste período eleitoral, mas do qual ela deve em breve formalizar a saída, justamente para oficializar a Rede. Para analistas ouvidos pelo Brasil Post, ter se mantido neutra também era uma alternativa, mas não deixaria de representar algum tipo de perda para ela neste pleito.

“Acho uma pena que ela não tenha conseguido avançar ao segundo turno, já que estava se apresentando com um certo frescor, com uma interlocução com os movimentos. Esse apoio ao Aécio é um basta em qualquer novidade, acho que a única opção razoável ao projeto dela era a neutralidade, já que apoiar o PT não tinha como após tanta cacetada”, opinou o professor da USP Pablo Ortellado.

Futuro mantém Marina em trajetórias próximas a PSDB e PT

Caso Aécio seja eleito, é muito provável que Marina receba alguma oferta de cargo no novo governo. Já se Dilma for reeleita, será necessário a Marina reavaliar ganhos e perdas desta eleição. O que é certo é a urgência dela em definir o papel da Rede Sustentabilidade como a chamada “terceira via”. É o que o cientista política David Fleischer, da Universidade de Brasília (UnB), acredita que ela fará.

“Ela vai remobilizar o partido dela. Isso já foi conversado entre ela e o (Eduardo) Campos quando ela entrou para o PSB, que foi o ‘porto seguro’ que apareceu (...). Ela não está sozinha nesse projeto. Talvez a Rede se organize já para as eleições municipais de 2016”, disse Fleischer. Para Iglecias, o cenário mais favorável para Marina se viabilizar em uma nova eleição presidencial, em 2018, é justamente se inspirando no que fez o PT no passado.

“Acho que ela pode se beneficiar desse cansaço de PT e PSDB, a medida que não atendam os anseios da sociedade (...). Apesar do desgaste interno na Rede, melhor ela passar quatro anos sem um mandato formal e montar o partido, o que ela tentou desde 2010 e não deu certo. Pode ser uma boa estratégia começar de baixo para cima, em 2016, mais ou menos o que o PT fez. Mas isso demora muito tempo, ela não é mais uma jovem e tem que escolher”, afirmou.

O que é certo é que, ao contrário do que foi alardeado por alguns setores após o fim do primeiro turno, Marina Silva não está ‘politicamente liquidada’. Porém, ela tem uma série de decisões e ações a tomar em um curto espaço de tempo. É o que a consolidará como um projeto que naufragou ou uma realidade viável em quatro anos.

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