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09/10/2014 01:54 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:03 -02

'Ilegal' mostra a luta de mães pela legalização de remédios derivados da maconha e a ignorância do nosso poder público

Anny é uma menininha de 5 anos que tinha cerca de 60 convulsões por semana. Ela é portadora da síndrome CDKL5, rara e grave doença que não tem cura. Os tratamentos convencionais para epilepsia não surtiam efeito algum. Diante deste cenário, a mãe, Katiele Fischer, não teve opção a não ser usar canabidiol (CBD), substância que faz com que as convulsões da filha praticamente cessem.

Canabidiol é um componente da Cannabis — em português claro, maconha. É ilegal no Brasil. Por isso, de acordo com a legislação em vigor, Katiele é uma traficante.

 

O documentário 'Ilegal', que estreia nos cinemas em 9 de outubro, é sobre a luta de Katiele e outras mães cujos filhos precisam de CBD para amenizar os sintomas de algumas síndromes. Mas mais que isso, o filme dirigido por Raphael Erichsen e Tarso Araújo mostra o despreparo (e o certo grau de desprezo) de órgãos púbicos — como a Agência Nacional de Vigiância Santiária, a Anvisa — ao lidar com este assunto.

O longa começa com Katiele ao telefone. Ela liga para a Anvisa. A encomenda de CBD importada dos EUA não chegou em casa. Em vez disso, Katiele recebeu um telegrama pedindo para que entrasse em contato com a agência que regula medicamentos. Aparentemente, a encomenda fora retida no órgão. Ao telefone, a atendente sequer sabia informar o que é preciso para que, enfim, Katiele possa realizar a liberação, ou mesmo quanto tempo mais ela deveria deveria esperar.

Enquanto o CBD não chega, Anny convulsiona — o espectador, testemunha dessa narrativa de sofrimento familiar e descaso público, é exposto ao sofrimento da menina ao vê-la com os músculos retesados, com o corpo frágil chacoalhando, com o cérebro em curto.

"Acho importante separar duas coisas: legalização do uso recreativo e do uso medicinal", comenta Tarso, um dos diretores, em entrevista ao Brasil Post. "São coisas diferentes, igualmente relevantes e legítimas; mas as duas podem ser tratadas separadamente, apesar de toda a ignorância sobre o potencial terapêutico da maconha ser consequência direta de décadas de proibição."

Assim, o filme não trata do uso recreativo da maconha, mas da urgência em se regulamentar seu uso para diversos problemas de saúde. Na página de Facebook de 'Ilegal', uma imagem ilustra bem os benefícios da maconha medicinal:

maconha super

Enquanto diversos países fazem uso de substâncias da Cannabis — como o canabidiol e o THC —, o Brasil segue tratando o assunto com o mais hediondo conservadorismo. "O Congresso Nacional é uma expressão da sociedade", lembra Tarso, "e mais conservador que a própria sociedade em si: como os políticos estão mais preocupados em reeleição, eles morrem de medo de tomar posições progressistas."

O cenário ideal vislumbrado por Tarso é a existência de uma produção de maconha no Brasil, "mesmo que seja com controle estatal". Com isso, seriam viáveis pesquisas médicas que poderiam reafirmar os benefícios da cannabis em diversas terapias. "Temos de falar em uma regulamentação mais abrangente possível, que preveja o uso da maconha para diversas formas de doença, ainda que em caráter experimental."

Isso evitaria que pessoas como Katiele sofressem duas vezes: uma com a doença da filha, outra com a ignorância do Estado.

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