NOTÍCIAS
09/10/2014 23:01 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

‘Fetiche', bola de cristal e farpas: Guido Mantega e Armínio Fraga discordam sobre os rumos da economia na GloboNews

Montagem/Reprodução GloboNews

Muitas perguntas, teorias, números, mas poucas soluções concretas. Foi o que ficou do debate de quase uma hora entre os chefes econômicos de Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB), realizado no programa da jornalista Miriam Leitão, no canal GloboNews, na noite desta quinta-feira (9).

Tanto o ministro da Fazenda Guido Mantega, quanto o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, discordaram desde os pontos mais básicos no que diz respeito à condução da política econômica, seja a do presente ou a do passado. Enquanto Mantega insistiu nos feitos dos 12 anos de PT no poder, sempre comparando com os anos de Fernando Henrique Cardoso, Fraga criticou mais os quatro anos de Dilma e exaltou acertos de FHC que possibilitaram avanços aos petistas.

Como não poderia deixar de ser, o principal tema foi a inflação. Futuro ministro da Fazenda, caso Aécio seja eleito, Fraga disse que o problema da inflação poderia ser ainda pior do que o índice atual de 6,75%, e que ele é sintomático para apontar problemas na condução da economia do País. “A inflação alta e o crescimento baixo mostram um problema”, comentou.

Já Mantega disse que a inflação deve fechar o ano na faixa dos 6,4% e que as pressões no preço da energia elétrica e por conta da seca vêm atrapalhando o controle inflacionário. Durante quase todo o tempo, o atual ministro da Fazenda de Dilma enfatizou o quanto o governo vem se esforçando para não desempregar e não levar perdas salariais ao trabalhador, diante de uma crise sem precedentes nos últimos 80 anos.

“A crise foi em 2009. De lá para cá a economia mundial vem se recuperando”, alfinetou Fraga, sustentando que o problema da economia brasileira não está no exterior, mas dentro do próprio País. “Temos que ter bom senso, não é nada pessoal, mas esse modelo fracassou. A situação fiscal é ruim, se utiliza de critérios flexíveis de contabilidade e precisamos corrigir”, analisou.

Opções para nova guinada econômica

Os dois chefes econômicos de Dilma e Aécio também sugeriram o que seria a solução, sob a ótica de cada um, para a retomada de um crescimento mais robusto do Brasil. Para Mantega, o Brasil está bem posicionado dentro dos principais países do mundo, quase todos afetados pela crise mundial (sim, aquela que Fraga diz não existir desde 2009) e que há uma perspectiva que o cenário se modifique entre 2015 e 2016.

Além disso, o ministro reforçou o que o governo federal já está fazendo para alavancar a área durante os próximos quatro anos. “Temos uma economia muito mais sólida. O que precisamos fazer agora? Aumentar os investimentos em infraestrutura, em construção, mobilidade (...). Agora precisamos do setor de bens e serviços, temos de dar prioridade a isso, investindo mais em educação, aumentando a produtividade e fazendo as reformas”, disse Mantega.

Já Fraga reconheceu alguns dados do atual governo, como o baixo desemprego, mas reforçou sempre a tese de que o modelo praticado não faz o que é preciso para o País crescer. “As coisas não estão acontecendo, mesmo com subsídio o investimento é pouco e a situação macro é perigosa, com muitos restos a pagar, pedaladas contábeis e insegurança (...). Precisamos arrumar a casa, fazer uma reforma tributária profunda e não mais penalizar o investimento, que é o que o atual modelo faz. Podemos crescer 4% ao ano e gastar onde mais importa”.

Bancos públicos, bola de cristal e fetiche

O tema envolvendo os bancos públicos também teve destaque, com Armínio Fraga criticando duramente a atual gestão de subsídios dados pelo BNDES, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil, enquanto Guido Mantega exaltando justamente essa atual forma de gerir e ceder recursos ao mercado, justamente para evitar um cenário ainda mais catastrófico.

“Banco do Brasil, Caixa e BNDES têm níveis de inadimplência hoje menores do que o setor privado. Isso indica que eles são muito eficientes. É claro que eles mudaram muito. No tempo do governo FHC, a Caixa quebrou uma vez, o Banco do Brasil quase quebrou, e eles tiveram de colocar dinheiro. Se não tivesse esse programa do BNDES, nós não teríamos conseguido fazer crescer o investimento em período de crise”, afirmou Mantega.

Já Fraga disse não entender os critérios para bancos públicos emprestarem dinheiro, por exemplo, para a Petrobras, estatal que, pelo seu tamanho, poderia buscar recursos em instituições privadas. “O banco público tem que fazer o seu trabalho, seja fazendo até mesmo um programa emergencial quando necessário. Mas não dá para emprestar para a Petrobras, que tem mercado. A transparência é fundamental. Falta esse debate, e existe certa ilusão de que o dinheiro dos bancos públicos vem do além, mas não é verdade”.

A propósito, o ex-presidente do Banco Central nos tempos de FHC se mostrou muito incomodado com as constantes comparações feitas por Mantega sobre passado e presente – notoriamente colocando a eficiência atual sobre a do passado, bastante complicada e com diversas idas ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Em determinado momento, Fraga não se conteve: “Sinto que há fetiche com Fernando Henrique”, criticou.

O homem-forte de Aécio na economia ainda pediu para “dar uma olhada” no que chamou de bola de cristal de Mantega, diante dos argumentos otimistas do petista. “Ele deve estar com uma bola de cristal, porque crescer em quatro anos dois pontos a menos do que a América Latina, que já não é um bom padrão...”, concluiu Fraga.