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09/10/2014 11:07 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:03 -02

Estado Islâmico: mitos e verdades sobre o grupo extremista

AP Photo

Quando se trata do Estado Islâmico, grupo extremista que tomou grandes áreas do Iraque e da Síria com táticas aterrorizantes, não faltam especulações sobre sua história e suas ambições.

Mas nem todas as afirmações sobre a organização são verdadeiras. Eis alguns dos maiores e mais problemáticos equívocos sobre o EI.

MITO 1: Estado Islâmico = Al Qaeda

O Estado Islâmico e a Al Qaeda são coisas diferentes. Na realidade, os grupos não mantêm relações amistosas. Eis o histórico:

As raízes do Estado Islâmico vêm de um grupo militante sunita fundado por Abu Musab al-Zarqawi, que jurou lealdade a Osama bin Laden em 2005 e deu a seu grupo o nome de al-Qaeda no Iraque.

As relações dos dois, entretanto, eram tensas, e eles divergiam em táticas, objetivos e estilos de liderança.

Depois da morte de al-Zarqawi, num bombardeio americano em 2006, o grupo mudou seu nome para Estado Islâmico no Iraque. O atual líder do grupo, Abu Bakr a-Baghdadi, decidiu expandir sua atuação para a Síria com o início da guerra civil naquele país, em 2011.

Em abril de 2013, al-Baghdadi anunciou a fusão de seu grupo com o braço da Al Qaeda na Síria, a Frente Nusra, batizando a nova organização de Estado Islâmico no Iraque e na Síria (ISIS, na sigla em inglês).

Mas a Al Qaeda rejeitou a aliança e, quando al-Baghdadi recusou as ordens para se concentrar no Iraque, a liderança da Al Qaeda cortou os laços com o grupo.

Desde então, os dois grupos podem ser vistos como concorrentes.

MITO 2: O Estado Islâmico foi criado pela CIA

Uma das teorias mais chocantes sobre o Estado Islâmico é a que diz que o grupo é criação dos serviços de inteligência americano, britânico e israelense.

O repórter do New York Time Thomas Erdbrink disse ao HuffPost Live que essa é uma crença comum entre os iranianos.

A origem da teoria é um post de blog dúbio que passou a ser reproduzido pela mídia do Irã e de outros países do Oriente Médio. A mídia conservadora o descobriu e passou a usá-lo como exemplo de conspiração governista.

O Politifact classificou essa versão como uma mentira deslavada.

MITO 3: O Estado Islâmico representa todos os muçulmanos

Como Alastair Crooke explicou em seu post para o WorldPost, o grupo defende uma interpretação ultra-radical do Islã sunita.

No fim de setembro, um grupo de estudiosos muçulmanos de todo o mundo publicou uma carta rejeitando a ideologia extremista do EI.

Os estudiosos rejeitaram as práticas do grupo, chamando-as de antiislâmicas, e listaram ponto a ponto por que a ideologia não tem relação com a crença da maior parte dos muçulmanos.

Eles afirmam que, no Islã, é proibido torturar, matar inocentes e atribuir atos maldosos a Deus. Os estudiosos rejeitam a ideia do grupo de matar pessoas chamadas de “kafir” – infieis que se recusam a se submeter a um líder único de todos os muçulmanos.

Para o EI, os kafir podem incluir outros muçulmanos. Os estudiosos também denunciaram outras práticas e crenças do ISIS, incluindo a conversão forçada e a destruição de tumbas de profetas.

Muçulmanos de todo o mundo têm condenado as visões extremistas do grupo. Um movimento iniciado por muçulmanos britânicos nas mídias sociais com a tag #NotInMyName (não em meu nome) rejeita as táticas brutais do EI e acusa o grupo de “se esconder atrás de um falso Islã”.

MITO 4: O Estado Islâmico não tem objetivos

Apesar de suas táticas covardes e seus objetivos irracionais, o grupo não age sem motivos e estratégias. Sua ambição é estabelecer um califado – um Estado Islâmico obediente a seu líder, Abu Bakr al-Baghdadi.

Para isso, o grupo pratica a jihad a fim de capturar atenção, explorar medos, atrair comunidades descontentes, tirar partido das fraquezas da região, espalhar sua mensagem, alistar novos recrutas e levantar recursos.

Se o ISIS é louco, é louco como uma raposa.

MITO 5: O Estado Islâmico está prestes a se infiltrar nos Estado Unidos pela fronteira com o México

Políticos republicanos como o governador do Texas, Rick Perry, o senador Marco Rubio e os deputados Lou Barletta e Trent Franks, além de relatos da mídia, afirmaram recentemente que a fronteira Estados Unidos-México poderia ser – ou até mesmo já teria sido – usada como ponto de entrada para forças do EI no país.

Mas essas alegações não param de pé. As afirmações de Frank de que o EI tem presença no México são altamente improváveis, segundo o site Politifact. Altas autoridades do governo dizem não haver evidências de que agentes do ISIS esteja cruzando a fronteira com o México, nem indicações de que estejam planejando fazê-lo. O governo mexicano disse que a ideia é “absurda”.

MITO 6: O Estado Islâmico é invencível

Apesar das vitórias do grupo na Síria e no Iraque, e da incapacidade do Exército iraquiano de contê-lo, os analistas afirmam que o ISIS não é invencível.

Daveed Gartenstein-Ross, membro da Fundação de Defesa das Democracias, argumenta que a “estratégia do Estado Islâmico é uma bagunça”, pois o grupo se cercou de inimigos. Tanto Gartenstein-Ross como William McCants, estudioso dos militantes islâmicos, notaram que, ao declarar o Estado Islâmico um califado, o EI apostou sua credibilidade numa ideia insustentável.

Zach Beauchamp, do Vox, escreve que há limites geográficos e demográficos que impedem que o EI se torne uma força invencível.

Além disso, as táticas brutais do grupo podem alienar potenciais aliados e eventuais recrutas, além de dificultar a obtenção de apoio popular mais amplo.

Jacob Siegel, repórter do Daily Beast, diz ver sinais de tensão dentro do grupo, o que poderia levar o EI à autodestruição.

E os Estados Unidos e outros adversários acreditam que o ISIS pode ser mantido como uma simples “insurgência rural”, estratégia delineada por Michael Knights, do Instituto Washington de Políticas para o Oriente Próximo.

MITO 7: O Estado Islâmico é apenas um problema regional

Não seria conveniente se fosse verdade? Obama ressalta que, se o EI estabelecesse raízes permanentes no Oriente Médio, interesses americanos estariam correndo riscos.

Primeiro, o grupo afirma que quer estender seu califado além da Síria e do Iraque.

Além disso, há centenas de tropas americanas no Iraque, e empresas americanas estão baseadas na região do Curdistão, no norte iraquiano.

Um Oriente Médio sob controle do Estado Islâmico também pode se tornar uma incubadora de ataques fora da região, nota Michael Singh, do Instituto Washington de Políticas para o Oriente Próximo.

Por intermédio de seu domínio de ferramentas como as mídias sociais, o EI tenta recrutar fora das fronteiras da Síria e do Iraque.

Os analistas estimam haver milhares de ocidentais no grupo, incluindo americanos.

Autoridades americanas afirmam que o Estado Islâmico pode realizar ataques nos Estados Unidos e em outros países ocidentais, ao ampliar o escopo de seus alvos. Também existe a preocupação de que recrutas do grupo voltem para os Estados Unidos, admitiu um integrante do governo Obama.

Finalmente, o grupo decapitou dois jornalistas americanos , dois voluntários britânicos, soldados libaneses e outros no Iraque e na Síria. Acredita-se que o ISIS ainda mantenha mais ocidentais e jornalistas em cativeiro. Um grupo extremista distinto da Argélia decapitou um refém francês por causa da participação da França na campanha contra o Estado Islâmico.

MITO 8: A ascensão do Estado Islâmico é culpa de Obama

O argumento se concentra na decisão dos Estados Unidos de retirar suas tropas do Iraque em 2011 e na hesitação do presidente americano em intervir na guerra civil da Síria.

Os críticos argumentam que, se os Estados Unidos tivessem mantido uma maior presença militar no Iraque, o EI não teria sido capaz de se recompor das grandes perdas que sofreu em 2006.

O argumento de que o presidente Barack Obama falhou ao não apoiar forças rebeldes moderadas na Síria nos primeiros momentos da guerra civil foi incensado por Hillary Clinton, ex-secretária de Estado e provável candidata a presidente em 2016, em uma entrevista com Jeffrey Goldberg, da revista The Atlantic. “Ao não ajudar a formar uma força com credibilidade para apoiar aqueles que iniciaram os protestos contra Assad – havia islamistas, secularistas e tudo o mais --, ao não fazê-lo, criou-se um grande vácuo, que agora é preenchido pelos jihadistas.”

Mas a ascensão do EI é resultado de vários fatores. Concentrar-se apenas na presença de forças americanas no Iraque ou na hesitação de Obama em relação à Síria significa deixar de reconhecer outros acontecimentos importantes que afetaram o ISIS e a falta de uma resposta por parte do resto do mundo, incluindo:

- O governo do premiê iraquiano Nouri al-Maliki deu poucas opções aos Estados Unidos em relação à permanência das tropas.

- Apesar de seu tamanho e de sua força, a ação das forças iraquianas contra o EI teve muitos tropeços.

- O grupo se aproveitou das grandes tensões entre xiitas e sunitas iraquianos.

- O governo de Maliki chutou os sunitas iraquianos para a sarjeta. O EI se aproveitou do descontentamento e começou uma guerra sectária contra os xiitas.

- Os esforços do EI para obter apoio público incluem programas públicos, atenção com as crianças, propaganda e apoio a comunidades que sofrem com a guerra.

- Alguns especialistas duvidam que um maior envolvimento dos Estados Unidos na guerra civil da Síria pudesse ter evitado a ascensão do Estado Islâmico. Eles afirmam que a natureza dos combates no país e o caráter improvisado das forças rebeldes teriam limitado a efetividade das forças americanas na contenção do crescimento do grupo.

MITO 9: O senador John McCain se reuniu com o Estado Islâmico

Outra afirmação absurda que aparece pela internet liga o EI com o senador republicano John McCain, um dos maiores defensores da escalada dos ataques contra os militantes.

Tudo começou com uma foto postada por McCain na qual ele aparece numa reunião com os rebeldes do Exército Síria Livre.

A reunião aconteceu durante uma visita de McCain ao país em 2013. Nas redes sociais e em blogs que divulgam teorias conspiratórias começaram a surgir versões de que McCain estivesse reunido com militantes do EI.

A especulação cresceu, sugerindo que McCain tivesse ligação com a criação do grupo e com seu líder, al-Baghdadi: montagens mostravam o senador supostamente condecorando o líder do ISIS.

O senador Rand Paul inflamou ainda mais a polêmica numa entrevista com o Daily Beast, afirmando: “Eis o problema. Ele [McCain] se encontrou de fato com o ISIS e foi fotografado numa reunião [com o grupo], sem saber o que estava acontecendo na época”.

A teoria foi completamente desacreditada. De acordo com um checador do Washington Post, “não há nenhuma evidência de que as pessoas com quem McCain se encontrou na Síria estejam ligadas ao Estado Islâmico”.

Os rebeldes que aparecem na fotografias são na realidade membros do Exército Síria Livre, contrários tanto ao EI quanto ao presidente sírio Assad.