MULHERES

Sasha Grey pode ser a mulher mais livre sexualmente de Hollywood, mas não é uma feminista

08/10/2014 16:09 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:03 -02
Epsilon via Getty Images
MOSCOW, RUSSIA - SEPTEMBER 11: Actress Sasha Grey attends the 'Open Windows' premiere at GluvClub on September 11, 2014 in Moscow, Russia. (Photo by Gennady Avramenko/Epsilon/Getty Images)

O vazamento de fotos de nudez é algo estranho para Sasha Grey, que atualmente está promovendo um novo filme, o "Open Windows", sobre voyeurismo criminoso. Ela tornou-se um símbolo da positividade sexual, especialmente desde que sua visibilidade aumentou ao deixar a indústria de filmes adultos. Enquanto Grey descobre aos 26 anos o que significa chamar Hollywood de "casa", ela acabou encenando uma versão muito mais sombria da distorcida cultura da celebridade fora do mundo da pornografia.

sasha grey

"Open Windows" foi filmado em novembro de 2010, então isso é tudo, explica Grey, "uma má hora e um momento terrível para as mulheres na Internet."

Grey interpreta Jill Goddard no filme, uma estrela aterrorizada com espionagem e tortura, aparentemente com o objetivo final de ter que ficar nua na frente de uma web cam. Grande parte do medo é impulsionado por uma voz sem corpo, em vez de vozes de usuários anônimos do 4Chan e Reddit, mesmo que tudo isso pareça um reflexo no espelho do parque de diversões dos vazamentos, que começaram a se desenrolar no final de agosto.

"No que diz respeito à minha própria privacidade ... Eu não quero que o mundo me veja tão vulnerável quanto é possível ser."

Na vida real, Grey é um contra-exemplo interessante para os vazamentos, especificamente com a insistência constante de alguns de que certas estrelas (leia-se: Kim Kardashian) são mais "merecedoras" deste crime, do que outras.

Busque a palavra Grey - que teve pessoas tuitando para ela, ironicamente, para saber se suas fotos seriam compartilhadas em uma próxima rodada de invasão hacker. Você imagina que o seu trabalho anterior em filmes adultos poderiam ter livrado Grey da invasão do "The Fappening." A realidade é que cada mulher envolvida neste escândalo é uma vítima, mesmo que o seu corpo já esteja visível em algum canto da Internet.

"Obviamente, eu não tenho problemas em fazer cenas de nudez. Mas no que diz respeito à minha própria privacidade, não importa o quê, eu não quero que o mundo me veja tão vulnerável quanto é possível ser," disse Grey ao HuffPost Entertainment.

"Antes de mais nada, a resposta mais séria a tudo isso é que ninguém merece ter sua privacidade invadida", continuou Grey. "O meu lado idealista quer que eu diga que isso acontece porque nós deveríamos ser mais sexualmente abertos, porque então não teríamos tantos complexos e tanto medo dessas coisas acontecendo, porque não nos importariam."

Grey enfrenta um pouco de estresse ao gerenciar a distribuição de suas próprias imagens não-privadas. Muitas vezes as fotos aparecem sem sua permissão. Lembra de quando ela pensou que estava nos créditos do "True Detective" e logo descobriu que não era ela? Ela ainda pensa que é.

"Eu não vou mentir", ela disse. "Eu ainda acho que era um amálgama de mim. Quero dizer, até mesmo a minha mãe me ligou tipo, 'Que diabos é isso?' Você sabe, não é mágica do Photoshop e eu posso tomar a rota do Príncipe e ficar chateada toda vez que a minha foto for usada, ou manipulada, ou feita para parecer comigo, ou eu posso simplesmente deixar rolar. Esse foi um caso realmente estranho, mas o que eu vou fazer? Processar os criadores de 'True Detective' e a HBO?"

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Há tanta coisa que Grey, ou qualquer um, pode fazer para controlar o uso da sua imagem e semelhança. Ela tem muito mais com que se preocupar, como o artifício elaborado da cultura da celebridade, que é muito mais complexo do que qualquer outra coisa que ela já teve que lidar na indústria do entretenimento adulto. Afinal de contas, Grey, em uma das reações às suas fotos nuas hackeadas, ficou pensando em quantas pessoas estariam envolvidas nisso.

"Sabe, há tantas coisas planejadas, onde as pessoas vazam coisas e agem como se tivesse sido um acidente", ela disse. "Mas esssas pessoas estavam realmente por trás disso e contrataram um publicitário."

"Sabe, há tantas coisas planejadas, onde as pessoas vazam coisas e agem como se fosse um acidente, mas essas pessoas estavam realmente por trás disso e contrataram um publicitário."

Ela tem lidado muito com esse tipo de coisa, o mais notório tem sido pedidos para encontros encenados. "Os agentes de algumas pessoas entram em contato comigo, através do meu agente ou meu gerente, e dizem: 'Sim, será que a Sasha estaria interessada em ir jantar com fulano de tal, e ser fotografada? Então, quem sabe, talvez eles acabem se dando bem!'"

É estranho ouvir o folclore de Hollywood reconhecido tão explicitamente, mas Grey vai além da pompa. "Isso meio que alimenta essa cultura nas pessoas que gostam desse tipo de notícia e esse tipo de fofoca", ela disse. "Eles gostam de acreditar nesses relacionamentos perfeitos. Sabe, você está em Hollywood, você está andando por aí, você está indo para jantares legais. Tudo isso faz parte do jogo."

Outra coisa que Grey acha frustrante sobre o "jogo" de Hollywood é a maneira paradoxal que tratamos a sexualidade das mulheres, a contradição de, ao mesmo tempo, restringir e ceder a isso. Ela se nega a perpetuar esse padrão ambíguo e as escolhas que ela fez refletem isso. Por exemplo, ela tem uma cena de nudez em "Open Windows", mas ela só se dipôs a fazê-la porque fazia sentido na história.

"Estou definitivamente menos inibida, mas há várias cenas que eu digo não, porque elas só dependem da minha sexualidade e eu já fiz o que queria fazer", disse ela. "Então, não há realmente nenhuma razão para que eu me envolva nesses papéis que dependem apenas da minha sexualidade e não há nenhum caráter. Prefiro não ter que atuar assim novamente."

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Não que Grey tente apagar seu passado como estrela pornô. Ela não poderia, nem se tentasse, e Grey é muito inteligente e consciente da permanência da Internet para se incomodar com isso. Quanto às celebridades femininas que são, talvez menos esclarecidas do que Grey, seu único conselho seria o de usarem essa plataforma para realizar uma mudança.

Enquanto suspira sobre as diferenças de gênero na cultura da celebridade, ela sugere que as vítimas atuais façam algo e "tornem a situação clara, a fim de educar as futuras gerações."

"É um pouco difícil para mim me definir como feminista, mas eu definitivamente acredito na força e autoconfiança das mulheres."

Há muito a ser feito no caminho da libertação e longe do tipo de misoginia que permite que esses vazamentos venham a acontecer. O pensamento de Grey é certamente parte desse progresso. No entanto, ela não se autodenominaria uma feminista.

"Eu sempre meio que lutei com essa ideia porque a palavra feminista se tornou um termo desgastado e enfraquecido", ela disse." Algumas pessoas pensam no feminismo e pensam em mulheres que são mais radicais, voltadas à esquerda, elas não usam sutiã e a única maneira que elas têm de chamar a atenção para os direitos das mulheres é estarem nuas. Então há mulheres que são de extrema direita que são exatamente o oposto, e acreditam em ideais e moral muito conservadores".

Embora possa ter sido um bom momento para cuspir na definição aprovada pela Beyonce, em algum nível, Grey já faz jus ao ponto que Chimamanda Ngozi Adichie tenta fazer. "É um pouco difícil para mim me definir como feminista", ela continuou, "mas eu definitivamente acredito na força e autoconfiança das mulheres."

"Open Windows" está disponível em VOD agora e nos cinemas a partir do dia 07 de novembro.

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