MULHERES
07/10/2014 11:10 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:03 -02

‘Império': a melhor novela das nove desde ‘Avenida Brasil'

Globo/Paulo Belote

A tarefa não era fácil. Depois de Avenida Brasil, o fenômeno de João Emanuel Carneiro que sacudiu as redes sociais e bateu recorde no Ibope em seu último capítulo, com 52 pontos na Grande São Paulo, as sucessoras tinham o trabalhoso — para não dizer impossível — desafio de manter a qualidade e a audiência do horário. Mas Salve Jorge, Amor à Vida e Em Família se sucederam como tentativas tragicômicas de animar a faixa. As três não só fracassaram junto ao público como foram massacradas pela crítica especializada. Coube, então, a Aguinaldo Silva e sua Império a missão de resgatar um pouco do prestígio das noites da Globo. Nome por trás de novelas marcantes como Tieta e Senhora do Destino e capaz de dar audiência até com obras medianas como Fina Estampa – média de 39 pontos no Ibope, assim como Avenida Brasil –, Silva era uma aposta certeira da emissora. E já dá resultado. Além da qualidade superior das tramas do Comendador José Alfredo (Alexandre Nero) e companhia, Império iguala, com picos que muitas vezes a colocam na frente, a letárgica Em Família, triste despedida de Manoel Carlos. E faria mais, não fosse o horário eleitoral que dissipa a audiência depois do Jornal Nacional. Ao que tudo indica, é uma questão de tempo para Império explodir.

“Império dá audiência: sexta, 34 pontos no Rio e 31 em São Paulo. Sábado, 29 no Rio e 28 em São Paulo. Isso com horário eleitoral e tudo”, comemorou Aguinaldo Silva no último dia 22, no Twitter, rede social usada por ele para divulgar a novela e que vira e mexe é tomada por discussões sobre a trama, durante a sua exibição. O folhetim entra para os trending topics — a lista dos temas mais comentados na rede de microblogs -- e também pauta a moda das ruas, como mostram levantamentos de itens mais desejados por espectadores da Globo. Tudo bem, Silva pode ser considerado suspeito, uma vez que é o autor. Mas ele não é o único a destacar o bom desempenho da novela. Especialistas são unânimes em reconhecer a superioridade de Império sobre as anteriores.

“A novela começou muito bem e recuperou parte da audiência perdida com a novela anterior”, afirma Cintia Lopes, autora do livro A Seguir, Cenas do Próximo Capítulo (Panda Books), em parceria com André Bernardo. De fato, Império arrancou com tudo, chegando a 35 pontos em São Paulo em apenas duas semanas, antes de ter as rédeas puxadas pelo horário eleitoral. Em 26 de agosto, uma semana depois do início da propaganda política obrigatória, Silva trombeteava em seu blog a recuperação da audiência da Globo empreendida pelo folhetim na noite anterior. “Quando os freaks da política saíram do ar, a audiência estava em 13,7!”, escreveu, com o deboche de costume. “Mesmo que a novela tenha disparado até chegar aos 34, na média, enquanto aqueles fins-de-carreira ocuparem os 50 minutos anteriores a ela, Império terá sempre que correr contra o tempo pra botar a audiência no trilho de novo. Eu, que sou viciado em recordes audiência, faço o possível para nem pensar nisso ou me jogo pela janela.”

Os motivos que fazem de 'Império' um 'novelão'

Para a autora de A Seguir, Cenas do Próximo Capítulo, entre os motivos que contribuem para a boa receptividade da novela estão a trama bem amarrada, amparada por ganchos que mantêm os espectadores interessados entre os blocos de cada capítulo e de um dia para o outro, e personagens complexos, interpretados por um elenco afiado.

Já Mauro Alencar, doutor em teledramaturgia pela USP (Universidade de São Paulo) e membro da Academia Internacional de Artes e Ciências da Televisão de Nova York, sublinha a vocação de Império para “novelão”, cumprindo o que Aguinaldo Silva prometeu, três meses antes da estreia. Era a forma de o autor atiçar a audiência, maltratada por uma sequência de tramas pouco envolventes, para o que viria a seguir: quando o folhetim ainda respondia por seu nome provisório, Falso Brilhante, ele foi ao seu blog dizer que faria um “novelão como o povo gosta”.

“A novela tem em sua estrutura dramática uma interessante comunhão entre o folhetim tradicional, que remonta a clássicos da literatura como A Comédia Humana, de Honoré de Balzac, e fatos de extrema atualidade”, diz Alencar. Segundo o especialista, o gênero do folhetim clássico é representado principalmente pela história da trajetória vitoriosa de José Alfredo (Chay Suede/Alexandre Nero), enquanto o elemento contemporâneo fica a cargo, por exemplo, do triângulo amoroso entre Cláudio Bolgari (José Mayer), a mulher, Beatriz (Suzy Rêgo), e o jovem amante, Leonardo (Klebber Toledo).

Maria Immacolata Vassallo de Lopes, professora titular do Centro de Estudos da Telenovela da Escola de Comunicações e Artes da USP, concorda. “Essa novela, como o gênero pede, tem caráter social, dialoga com o momento atual. Os novos arranjos familiares saltam à vista, com a bissexualidade de Cláudio e a anunciada adoção de uma criança por parte da travesti Xana (Ailton Graça) e da manicure Naná (Viviane Araújo).”

É certo que Império não é Avenida Brasil. Nem Senhora do Destino (2004), de que aliás empresta uma série de elementos, como a história do emigrante nordestino que se fez sozinho na vida, nem O Outro (1987), que para Mauro Alencar é a obra-prima de Aguinaldo Silva. “Foi nessa produção que ele estabeleceu seu estilo, que seria observado mais tarde em todos os seus trabalhos”, afirma. Na trama, Francisco Cuoco fazia dois personagens com a mesma aparência, um rico e um pobre, que não se conheciam e não tinham qualquer parentesco. Ao se envolver em um acidente no mesmo lugar, o rico Paulo era dado como desaparecido e era substituído pelo outro, Denizard, que havia perdido a memória.

Cenas quentes

Para aquecer a audiência do horário, Aguinaldo Silva vem investindo em cenas picantes entre seus personagens. José Alfredo e a ninfeta Maria Isis não raro aparecem em meio a lençóis, trocando beijos e abraços apimentados. A estratégia, porém, encontrou resistência dentro da Globo e precisou ser suavizada. Comenta-se que, baseada em pesquisas com espectadores, a emissora passou a promover cortes em cenas de alta temperatura. Daí a atriz Marina Ruy Barbosa agora aparecer na tela com o corpo mais coberto, e não só de lingerie, como no começo do folhetim.

O próprio Aguinaldo chegou a comentar o assunto em seu blog, ASDigital, ao falar sobre a noite de amor do Comendador e sua mulher, Maria Marta. “Quando ele, nu, virou de barriga para cima e Marta viu alguma coisa nele – que a câmera não mostrou – e reagiu maravilhada, eu esqueci que tinha escrito a cena e que sabia o que era e murmurei: ‘Nossa! É agora que a censura me capa!’”, escreveu. “Achei, como o Brasil inteiro, que o que ela estava vendo era outra coisa, e não a cicatriz da bala, lembram? Do tiro que o Comendador levou quando era jovem lá no Monte Roraima.”

Próximos passos

Para manter o ritmo, Império promete reviravoltas nos próximos capítulos. A principal delas vai colocar o reinado de José Alfredo em risco. Ele será ameaçado pelo recém-chegado Maurílio (Carmo Dalla Vecchia), filho de Sebastião (Reginaldo Faria), o homem que iniciou o Comendador no garimpo e no tráfico de diamantes, na primeira fase da novela. O galã vai ser tornar não só o novo amor da mulher de Zé Alfredo, Maria Marta (Lilia Cabral), como seu aliado no plano de vingança que ela jurou executar contra o marido ao descobrir que havia sido trocada por uma ninfeta, Maria Isis (Marina Ruy Barbosa).

Maurílio vai entrar no plano por acreditar que o Comendador matou Sebastião para ficar com o dinheiro que ele guardava na Suíça. A crise chegará à rede de joalherias da família e Zé Alfredo acaba morrendo – só que não. A morte de mentirinha vai ser forjada pelo anti-herói de Império para que ele, fazendo todos crerem que já era, opere a sua revanche a distância, com ajuda da filha que ele enfim reconhecerá, Cristina (Leandra Leal).

A virada iniciada com Maurílio é um recurso antigo das novelas, que Avenida Brasil realizou várias vezes, e com maestria. E marca a primeira grande mudança na trama de Império, que, estrategicamente, vai se dar após o fim do horário eleitoral, marcado para 24 de outubro. Quando os “freaks” da política, como diz Aguinaldo Silva, saírem do ar, Império vai estar no capítulo 83. E, segundo o autor contou a VEJA.com, a virada deve acontecer ao redor do capítulo 120. É aí que o noveleiro aficionado por recordes pode ter seus dias de glória. Ao que tudo indica, é apenas uma questão de tempo para Império explodir.

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