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07/10/2014 10:32 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:03 -02

Descubra quais são as motivações, os organizadores e qual a reação do regime chinês com os protestos de Hong Kong

AP Photo

Um número sem precedentes de manifestantes participou de protestos pró-democracia nos últimos dias, em Hong Kong. Na quarta (1º), o Dia Nacional da China, dezenas de milhares de manifestantes ocuparam avenidas e espaços públicos, paralisando a maior parte da cidade.

Desde o recrudescimento dos protestos, moradores de Hong Kong de todas as classes vêm saindo para as ruas para demonstrar insatisfação com o que consideram uma mudança de posição do governo chinês em relação às eleições diretas para o governo do território. Eis o que você precisa saber sobre os acontecimentos históricos.

1. A QUESTÃO

Os manifestantes estão unidos sob uma questão central: querem poder escolher seu principal líder, o executivo-chefe, sem interferência da China.

Quando o Reino Unido devolveu a colônia para a China em 1997, a cidade se tornou uma “região administrativa especial” dentro da China, com direito a um alto grau de autonomia e, no devido tempo, a um líder próprio.

Hoje, o executivo-chefe de Hong Kong é escolhido por um comitê constituído basicamente por pessoas ligadas ao Partido Comunista, mas o Artigo 45 da Lei Básica, o documento constitucional de Hong Kong, estabelece que esse cargo deve caber a uma pessoa eleita “por sufrágio universal, mediante nomeação de candidatos por um comitê amplamente representativo, de acordo com procedimentos democráticos.”

Em preparação para as primeiras eleições diretas em Hong Kong, marcadas para 2017, as autoridades de Pequim delinearam no fim de agosto os detalhes do comitê nacional que indicaria os candidatos.

Pequim se certificou de que as novas regras garantissem que os candidatos fossem submetidos à aprovação das lideranças chinesas. A decisão desagradou a população de Hong Kong, que esperava poder finalmente escolher seu líder.

2. O ESTOPIM

Os manifestantes pró-democracia de Hong Kong vêm se organizando desde meados do ano, muito antes do crescimento dos protestos nos últimos dias.

Numa tentativa de influenciar a decisão de Pequim com relação ao comitê nacional, uma coalizão chamada “Occupy Central” organizou enormes passeatas nas ruas da cidade.

Mas a coalizão não conseguiu levar a maioria da população para as ruas. Rachel Lu afirma na Foreign Policy que, até setembro, o grupo não contava com o apoio da maioria da população. Muitos moradores afirmavam aceitar a vida com as novas regras de Pequim.

Com a decisão anunciada em agosto pelo governo chinês, porém, os estudantes se juntaram aos protestos e deram nova vida ao movimento. Eles organizaram um enorme boicote na última semana, que culminou com milhares de pessoas sentadas nas redondezas da sede do governo.

As forças de segurança reagiram com violência, retirando os estudantes à força.

Quando os manifestantes bloqueram ruas no Admiralty District, no dia seguinte, a tropa de choque de novo partiu para o enfrentamento. Ao invés de conter os protestos, a resposta agressiva galvanizou o apoio ao Occupy Central.

As imagens de estudantes sendo atacados com gás lacrimogêneo e spray de pimenta levaram milhares de outras pessoas às ruas, numa demonstração de apoio ao movimento.

Os guarda-chuvas usados por muitos dos manifestantes para se proteger do gás tornaram-se símbolo dos protestos.

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3. O CONTEXTO

Além da eleição do executivo-chefe, os manifestantes defendem outras causas.

A Reuters explica que os laços de Hong Kong com a China são complexos – uma relação muitas vezes descrita como “um país, dois sistemas”.

Ambos os lados têm divergências importantes em questões cruciais. “Não seria fácil ter um país no qual uma fronteira divide os dois lados, moedas separadas, carros que andam de lados diferentes da pista e línguas mutualmente incompreensíveis; sem falar nos sistemas políticos concorrentes e suas ideias muito diferentes a respeito de cidadania, lei e transparência.”

Nicholas Bequilin escreveu no ChinaFile que muitos moradores de Hong Kong têm se desapontado com seus líderes recentemente. Muitos acham que os governantes do território estão muito próximos dos ricos e poderosos e não defendem os interesses do cidadão comum.

Além disso, a cidade vem recebendo uma enxurrada de visitantes da China, o que vem aumentando o valor dos imóveis e o custo de vida. “O morador médio está perdendo espaço – nos transportes públicos, nos shopping centers (os maiores espaços públicos do território), nos hospitais, nas escolas, no mercado imobiliário, há muito a melhor caminho da prosperidade para os assalariados”, explica Bequilin. “Hong Kong não vai continuar sendo Hong Kong”, disse o empresário Lawrence Ku ao The Guardian, referindo-se aos visitantes chineses.

Ku também reflete o crescente sentimento na cidade de que Pequim está apertando o cerco sobre o enclave, ameaçando vozes dissonantes e levando a mais autocensura entre os cidadãos. “As liberdades estão desaparecendo desde a transição [de 1997]. Só queremos a mesma liberdade de antes”, disse Ku.

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4. AS PESSOAS

Os estudantes estão na liderança dos protestos pró-democracia, com destaque para um rapaz de 17 anos chamado Joshua Wong. Segundo o Wall Street Journal, os protestos trouxeram à tona uma enorme diferença entre as gerações.

“Os mais jovens não se beneficiaram da ascendência econômica chinesa da mesma maneira que os mais velhos, muitos dos quais ganharam dinheiro trabalhando em fábricas e investindo em imóveis. Este grupo é contra os protestos e contra a luta por menos interferência de Pequim na escolha do líder de Hong Kong.”

Sebastian Veg, diretor do Centro de Pesquisas da China Contemporânea, disse à McClatchy que os moradores mais jovens de Hong Kong também não têm a mesma conexão com a China que os mais velhos. Ele explica que, como muitos dos habitantes mais velhos viveram sob o regime britânico, eles têm uma ligação mais patriótica com Pequim dos que os membros das novas gerações.

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5. A REAÇÃO DE PEQUIM

Os líderes em Pequim condenaram os protestos, mas a resposta oficial é limitada, por enquanto. Mas é improvável que Pequim ceda aos manifestantes.

“As autoridades chinesas não querem que os protestos se espalhem para o continente”, disse o analista político e historiador Zhang Lifan à Associated Press, acrescentando que os líderes do país temem um efeito dominó.

Hong Kong não é a única região do país com ambições de autonomia. “Para uma liderança que já tem de lidar com movimentos separatistas nas regiões ocidentais do Tibete e de Xinjiang, qualquer tipo de movimento de independência bem-sucedido criaria um precedente impensável”, resumiu o Guardian.

Pequim atuou de forma decisiva para evitar que as notícias sobre o movimento democrático chegassem a muitos de seus cidadãos. Os órgãos de notícias chineses mal mencionam os protestos, e a cobertura das redes estrangeiras tem sido censurada.

Surgiram relatos na segunda-feira passada de que o Instagram estava fora do ar na China. Segundo o New York Times, o departamento central de propaganda de Pequim também ordenou que qualquer menção aos eventos de Hong Kong fossem deletados de websites.

Além disso, todas as menções ao Occupy Central foram probibidas no Sina Weibo, uma plataforma de microblogs.