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03/10/2014 17:06 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:57 -02

O que você precisa saber sobre o Sínodo da Família, o primeiro grande teste do papa Francisco

TONY GENTILE/REUTERS

Enquanto os brasileiros vão às urnas para decidir quem será o próximo presidente do Brasil, o papa Francisco inaugurará neste domingo (5) o Sínodo Extraordinário da Família, o primeiro grande teste de seu papado, iniciado em março de 2013.

O tema do encontro é: Os desafios pastorais da família no contexto da evangelização. Ou, como explica o correspondente da Reuters no Vaticano, Philip Pullella, de forma mais atraente: "O sínodo será uma reunião de 250 pessoas, a maioria delas bispos de todo o mundo, para discutir o futuro da família e as ameaças a ela."

Segundo Pullella, além de ser o primeiro grande teste para Francisco, favorável a uma Igreja que seja mais próxima dos pobres, mais compassiva e menos obcecada com questões como homossexualidade, aborto e contracepção, é a primeira vez que a Igreja Católica Romana promove uma assembleia universal para discutir um tema específico. Além dos bispos, participarão 13 casais católicos.

Veja alguns dos temas que poderão ser discutidos durante a assembleia nas próximas duas semanas, com base no documento de trabalho (Instrumentum Laboris) do Sínodo.

Católicos que se separam e casam novamente podem receber a comunhão? Esta é uma questão muito importante para católicos de todo o mundo que, após um primeiro casamento fracassado, se sentem marginalizados e abandonados pela igreja caso venham a se casar novamente, pois, de acordo com as regras atuais, vivem em adultério e não podem comungar.

Segundo o cardeal alemão Walter Kasper, considerado um dos teólogos com maior influência sobre o atual papa, a Igreja deve encontrar formas de mostrar misericórdia às pessoas cujo primeiro casamento fracassou e querem permanecer como parte integrante e ativa da comunidade católica. Uma possível saída seria analisar caso a caso e, após um período de penitência, dispensar casais das regras restritas praticadas atualmente.

O próprio papa já deu indícios de ser favorável a uma maior flexibilidade. Há alguns meses, após receber uma carta de uma divorciada argentina relatando seu sofrimento por ter sido proibida de comungar pelo padre de sua paróquia, Francisco teria telefonado pessoalmente para ela e sugerido: "Vá comungar em outra paróquia."

A Igreja deve facilitar o processo de anulação de casamentos? Por um lado, há pressões para que o processo de anulação de um casamento pela Igreja Católica seja simplificado. Por outro, há o temor de isso que causaria a impressão de que a indissolubilidade deste sacramento já não é mais respeitada pelo Vaticano e que já existe uma espécie de "divórcio católico".

Como lidar com a realidade das uniões 'de facto'? Segundo o documento de trabalho, elaborado a partir de um questionário enviado a dioceses de todo o mundo, "nos países ocidentais, a sociedade já não vê a situação (das uniões de facto) como problemática". "Manifesta-se uma ideia de liberdade que considera o vínculo matrimonial uma perda de liberdade da pessoa", diz. Devem ser discutidas ações para "recuperar o vínculo entre família e sociedade, para sair de uma visão romântica do amor" e "transmitir aos jovens a certeza de que não estão sozinhos na construção da própria família".

Como lidar com o casamento entre homossexuais? Ainda segundo o documento, deve-se buscar um balanço entre a ausência de fundamento para alterar a definição católica do casamento como união entre um homem e uma mulher e uma atitude respeitosa e sem pré-julgamento com os casais homossexuais.

Também estão na pauta do Sínodo Extraordinário da Família questões mais gerais como dificuldades de relação e comunicação dentro da família, violência e abuso, pedofilia e pornografia, como lidar com dependência de drogas e álcool e até mesmo com o novo fenômeno do impacto da internet e das redes sociais nas relações familiares.

"A televisão, o smartphone e o computador podem ser um impedimento real do diálogo entre os membros da família, alimentando relações fragmentadas e alienação: também em família se tende cada vez mais a comunicar através da tecnologia", diz o documento.

O Sínodo Extraordinário, que será seguido de uma Assembleia Ordinária no segundo semestre de 2015 (o processo todo durará mais de um ano), também quer discutir pressões externas à família como o impacto de conflitos e guerras, a questão migratória, consumismo e individualismo.

O Instrumentum Laboris não traz respostas nem mesmo indicações do que deve ser decidido durante o Sínodo. E o papa Francisco fez questão de, na escolha dos participantes da assembleia, contemplar todas as vertentes de pensamento da Igreja, das mais progressistas às mais conservadoras.

Em carta dirigida às famílias católicas de todo o mundo, Francisco pediu:

"Vamos todos rezar para que, no decorrer desses eventos, a Igreja realize uma verdadeira jornada de discernimento e adote os meios pastorais necessários para ajudar as famílias a lidar com os desafios presentes com a luz e a força que vêm do Evangelho."

Em seu primeiro ano de papado, Francisco surpreendeu por sua simplicidade e pelo toque pessoal com que exerce a função de líder máximo da Igreja Católica. Mas ele mesmo não se considera um revolucionário.

De acordo com o site Vatican Insider, Francisco quer que as discussões do Sínodo sejam baseadas em situações da vida real, problemas concretos, expectativas e experiências das famílias que participam da vida da Igreja e não em estudos sociológicos ou teológicos. "O objetivo de qualquer debate, reforma ou decisão deve ser apenas 'salvar almas'", disse o papa em reuniões preparatórias.

Segundo John Allen, correspondente do Boston Globe no Vaticano, o Sínodo deve resultar em novas práticas e não em novas doutrinas. "O papa Francisco não é um radical doutrinário. Ele não é um Che Guevara de batina", afirmou Allen à BBC. Para Allen, Francisco, em seu âmago, não é um teólogo ou um líder político, mas um pastor.

Segundo Jane Livesey, superiora-geral da Congregação de Jesus, ordem que reúne 2.000 freiras em todo o mundo, a mensagem de Francisco é: "Há diferentes maneiras de interpretar a doutrina, e o meu jeito é fazer isso sob o prisma da misericórdia e do perdão."

Revolucionário ou pragmático, o argentino Jorge Mario Bergoglio (nome de batismo) estará mais do que nunca sob os holofotes. Se ele quer fazer uma real diferença na forma com a Igreja Católica lida com as questões da atualidade, nada melhor do que discutir a família. Vai, Francisco!

Com Reuters.