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29/09/2014 12:55 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:57 -02

Cinquenta anos depois da primeira tirinha, Mafalda continua atual

Mafalda deveria vender máquina de lavar. Apenas isso. Em 1962, o artista Quino fora contratado para criar tirinhas para a marca de eletrodomésticos Mansfield. O trabalho seria publicado no jornal Clarín, mas o diário rompeu o contato com a marca e Mafalda nunca chegou a ser garota-propaganda.

A personagem seria uma ferramenta do capitalismo. Calhou de ser o oposto.

Dois anos depois, a menina de 6 anos que odeia sopa, ama a democracia e sempre tem um comentário irônico sobre a sociedade e a política apareceu pela primeira vez na revista Primera Plana.

Quino considera a data de publicação da primeira tirinha — 29 de setembro de 1964 — o nascimento de Mafalda.

No ano seguinte, as tirinhas da personagem passaram a ser publicadas diariamente no jornal Mundo de Buenos Aires. Temas como injustiças sociais, guerras, repressão e a falta de coerência em muito do pensamento adulto elevaram Mafalda a uma espécie de "grande pensadora" daquela época. As tiras abordavam eventos contemporâneos, como a Guerra do Vietnã, a corrida espacial, o assassinato de John F. Kennedy, o feminismos e a repressão sexual.

 

Logo, Mafalda deixa as fronteiras da Argentina. Em 1966, passou a ser publicada no Uruguai; dois anos depois, chegou à Europa. Em 1969, uma coletânea de tirinhas é publicada na Itália, com prólogo de Umberto Eco. De acordo com o escritor,

"Mafalda é uma heroína 'enraivecida' que recusa o mundo tal qual ele é. (...) Já que nossos filhos vão se tornar — por escolha nossa — outras tantas Mafaldas, será prudente tratarmos Mafalda com o respeito que merece um personagem real."

As tiras foram publicadas até 1973. Naquele ano, Quino percebeu que, em Mafalda, não teria como comentar os assuntos mais recentes, pois as tirinhas deveriam ser entregues semanas antes da publicação. Decidiu parar com o trabalho. Desde então, novos trabalhos com Mafalda foram apresentados, mas apenas para campanhas publicitárias, como as da Unicef.

Em abril deste ano, durante a Feira do Livro em Buenos Aires, Quino, de 82 anos, disse:

“Fico surpresa quando vejo como temas que abordei há cinquenta anos permanecem atuais. Ate parece que desenhei a tira hoje. Deve ser porque o mundo continua cometendo os mesmos erros”.

Pela atualidade de Mafalda mesmo meio século depois de sua criação, a personagem ainda é um símbolo de contestação admirado pelo público e por muitos outros artistas, como o argentino Liniers, criador de Macanudo. O conterrâneo prestou sua homenagem a Mafalda:

Vida longa a Mafalda!