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28/09/2014 17:56 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:57 -02

Toninho do Diabo, grande nome do cinema trash nacional, recruta pessoas feias para 'Hospital Amaldiçoado', seu próximo filme

Daphne Ruivo/VIP

A chuva pesada substituía as picapes do Madame, tradicionalíssimo reduto underground do bairro paulistano da Bela Vista, e ditava a trilha sonora da noite. Do lado de dentro das paredes negras do recinto, um encontro entre seres da escuridão e aspirantes a ator — ou os dois juntos. Em comum entre todos, uma figura que leva as trevas até no nome: Toninho do Diabo, a grande bandeira do satanismo e da trasheira tupiniquins desde o Zé do Caixão de José Mojica Marins.

Atraídas por um flyer curioso que convocava pessoas feias ou com dotes especiais, quatro destemidas almas compareceram ao teste de elenco do novo filme de Toninho do Diabo, o ‘Hospital Amaldiçoado’: Pekinez Garcia, ator e vocalista da banda punk paulistana ‘Excomungados’; Masuque de Oliveira, ator; Scarllet Sokolova, dominatrix, dançarina de pole-dance, performer e modelo gótica; e Alexandre Winck, roteirista da trupe do Diabo que resolveu ‘atacar de ator’.

A prática é praxe para Toninho e sua turma. É assim que a produtora consegue escalar elenco para seus filmes e, para centralizar o casting e facilitar a vida de todos os envolvidos, Toninho do Diabo criou a Agência Assombração. Com a ajuda do produtor e braço direito Daniel Vardi, o cineasta recebe e filtra os possíveis participantes de seus filmes. “Recebemos muito material pelo e-mail ou pelo Facebook”, diz Daniel. Segundo os dois, a Agência Assombração é uma oportunidade para aqueles que não atendem aos padrões de beleza impostos pela sociedade. Todo mundo é aceito, exceto portadores de deficiência física: “Não queremos que ninguém se entretenha às custas disso. Por isso, para não entrar em qualquer mal-entendido, evitamos”, explica Toninho. “Queremos gente feia mesmo. Mas não pouco feia não. Tem que ser muito feia! Queremos trombada de caminhão com Maria Fumaça”, avisa o chefe.

Depois da primeira fase de seleção dos portfólios, Daniel e Toninho convocam os pré-aprovados para um teste tête-à-tête. Aqui, os candidatos precisam mostrar seus talentos. Depois de uma apresentação livre, Toninho interfere e dirige uma cena com o postulante. Essa fase geralmente acontece na produtora de Toninho, na Zona Oeste de São Paulo, mas, como se tratava de uma noite diferente, com a presença da equipe do site da VIP, a trupe do Diabo encarregou-se de transportar o casting para o Madame.

toninho do diabo

O primeiro a subir no palco foi Alexandre Winck. O gaúcho de 40 anos já trabalhou como roteirista dos gibis da Turma da Mônica, mas se encontrou na vida agora, quando entrou para o mundo das trevas. A história repete-se com a maioria dos atores escalados para os filmes de Toninho. “Grande parte tem empregos normais. Trabalham em escritórios, empresas, hospitais”, diz Toninho. O monólogo de Winck abordou um clichê muito visitado no terror: a do pai exemplar que, na verdade, é um assassino. Ele até agradou, mas Toninho pediu a palavra. “Falta você usar mais essa sua cara de psicopata”, disse antes de passar um texto improvisado em que o ator deveria detalhar como matou e esquartejou sua vizinha com uma faca. A melhoria foi notória.

toninho do diabo

Masuque de Oliveira, claramente o mais preparado para atuar, apresentou um personagem autoral desenhado para ser o antagonista de Toninho: um pastor de Igreja Neopentecostal. Toninho e Daniel sugeriram que ele soltasse o cabelo em determinado ponto da performance, simulando estar possuído pelo capiroto. Pedido acatado — e ganho absoluto no show. O Diabo mora mesmo no detalhe. O músico Pekinez Garcia estava lá para chocar. Subiu ao palco sem calças e com inúmeros alfinetes espetados no rosto. Toninho pediu mais raiva e a – até então inocente — verborragia de Pekinez transformou-se em um acesso de ódio genuíno.

Quem fechou a noite foi Scarllet Sokolova, que iniciou sua apresentação com um manto de monge e pedindo Marilyn Mason no som. O manto rapidamente foi abaixo, revelando uma lingerie branca e muita desenvoltura da dançarina (posteriormente, em seu Facebook, Scarllet descreveria sua performance como responsável por deixar “queixos no chão e outras coisas de pé”). O único acréscimo que Toninho fez à apresentação da moça foi a de si próprio. Pela primeira vez na noite, Toninho do Diabo iria contracenar com um dos candidatos. A cena acabou com Toninho cravando os dentes no pescoço de Sokolova, que gritava desesperadamente. Os dois foram festejados por todos os presentes.

toninho do diabo

Ao que tudo indica, ‘O Hospital Amaldiçoado’ não irá fugir do padrão de qualidade de Toninho do Diabo. Sucesso.

“SOU O QUE SOU PORQUE FUI O QUE FUI”

Toninho do Diabo nasceu Antônio Aparecido Firmino, no dia 20 de setembro de 1971, na paulista Jundiaí. Desde o final dos anos 80, trabalha como cineasta, roteirista e cantor. Ele se define como um artista, “uma metamorfose avoante que percorre terra, ar, trevas e água”. É impossível travar uma conversa com o sujeito sem ouvir (algumas vezes) o seu bordão: “Eu sou o que sou porque fui o que fui”.

O encontro com o cramunhão aconteceu ainda na infância, quando Toninho se apossou de seus indefectíveis chapéu e capa na encruzilhada de um cemitério. Para ele, nada acontece por acaso. Tudo foi com a permissão de Lúcifer, que já tinha escrito seu destino. E a missão dele na terra? “Alegrar o povo, fazer meus filmes e salvar essa classe tão desprezada de artistas de rua”, diz.

Toninho acumula filmes de sucesso no currículo, como ‘O Caçador de Almas’, ‘O Ataque dos Pneus Assassinos’ e ‘A Fazenda do Diabo’, que foram rapidamente elevados à categoria de clássicos na cena trash. Todos feitos, segundo ele, na base do suor e da ajuda de amigos. “Não tenho orçamento nenhum para os filmes”, afirma. Seu maior hit, ironicamente, não é com a sétima arte. Toninho do Diabo ficou conhecido no Brasil depois que Marcos Mion ridicularizou um videoclipe seu no finado ‘Piores Clipes do Mundo’, da MTV.

Depois de gravar até um funk, Toninho — que foi filiado ao PT durante quase duas décadas — agora tenta engatar na carreira política como Deputado Federal, pelo Partido Solidariedade. Os destaques da campanha de Toninho são, como não poderia deixar de ser, os jingles e slogans criados pelo próprio: “Pelo estado laico, vote no diabo”; “A coisa ‘tá preta, vote no capeta” e “Eu sou o Toninho do Diabo, por isso eu taco fogo” são algumas das frases de efeito que ele usa para se promover.

O multifacetado artista bateu um papo com o site da VIP depois que os testes de elenco acabaram. Confira abaixo.

Das suas diversas áreas de atuação, qual é a sua favorita?

A minha favorita é o cinema, a arte. É o poder interpretar, dirigir, escrever meus próprios filmes. Já estou nessa desde 1980, mas comecei mesmo na Boca do Lixo (uma região do centro de São Paulo), junto com o Francisco Cavalcanti, em 1989. Foi quando fugi da minha casa e fui parar na Boca do Lixo, na Luz, perto da antiga rodoviária, onde existia o reduto de Aníbal Massaini, que fez ‘Cangaceiro’, e de tantos outros cineastas que, hoje, não estão mais junto de nós.

Você fugiu de casa já pensando nisso?

Olha, eu costumo dizer que nada foi por acaso, tudo foi na permissão de Lucifer. Eu sou o que sou porque fui o que fui. Em nome do papai Lucifer eu acho que estou aqui porque tinha que estar aqui nesse momento. Não é a gente que escreve o nosso destino, ele já é prescrito. A partir do momento que a gente nasce, que a gente encarna nesse palco, chamado Terra, a gente já é predestinado à uma missão.

E qual é a sua missão?

A minha missão é alegrar o povo, é fazer meus filmes, salvar essa classe tão desprezada de artistas de rua.

Como você percebeu que essa era a sua missão?

Eu comecei desde os 7 anos de idade, quando eu sonhava com um faraó que falava “crie!”. E era sempre em noites de muita chuva que eu tinha essa visão. Foi aí que eu comecei o personagem, uma entidade. A minha primeira capa foi achava em uma encruzilhada de um cemitério e foi quando tudo começou. Da encruzilhada eu fui pro palco da vida, pro palco da morte e pro palco das encarnações.

Mas quem seria o Antônio Aparecido sem a capa e sem o chapéu?

O Antônio é um pai exemplar, um comunicativo, um amigo que vocês podem contar. Ele é apenas a carcaça, o criador de Toninho do diabo. Antônio é o moço que anda de dia e de noite, mas é um mistério. O Toninho do Diabo é a ciência. O Antônio pode virar o Toninho a qualquer momento. Ele não precisa, como os heróis americanos, de cabine de força para se transformar.

Se você for eleito, você vai legalizar a maconha?

Não só legalizar, mas também para utilizar em tratamentos. A maconha tem que ser legalizada, fiscalizada, com controle de qualidade. Muita gente fala que a maconha é droga, e não é não. A droga é o cigarro. Meu pai fumou maconha a vida inteira e não via disco voador, não matava sucuri no quintal. Ele era um homem trabalhador e ele sabia usar. Se você beber café demais, você vai ficar xarope. Se beber pinga demais, vai ficar xarope. E se você fumar maconha demais, você vai ficar xarope. Tudo que é demais, fica de menos.

Você já fumou maconha?

Não, nem cigarro. Eu sou um laranja, era chamado de “rockeiro sukita”. Nunca fumei, nunca bebi, mas gosto de um bom vinho. Costumo dizer que o maior vício é treinar o ninjitsu.