COMPORTAMENTO
19/09/2014 18:53 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

O que realmente podemos aprender com o estudo que compara dietas com pouca gordura vs. pouco carboidrato

Fotomontagem

Um novo estudo que comparou dietas com pouca gordura e dietas com poucos carboidratos está causando rebuliço. Ele concluiu que cortar carboidratos não só resulta em maior perda de peso, mas também diminui os riscos de doenças cardiovasculares, em comparação com uma dieta tradicional com pouca gordura.

O resultado do estudo, noticiado no The New York Times, acirrou o debate sobre o papel da gordura em nossa saúde. Uma recente capa da revista TIME declarou que as décadas tentando evitar gordura e consumindo mais carboidratos foram um engano.

As diretrizes governamentais de alimentação têm se concentrado em dietas com baixo teor de gordura. Elas se baseiam em estudos multinacionais que apontam relação entre o baixo teor de gordura e dados favoráveis de mortes por problemas cardíacos.

Mas dados clínicos mais recentes pintam um quadro mais complicado. Este último estudo reforça a noção de que uma dieta rica em proteínas e gorduras, como Atkins ou Paleo, podem ser melhores para a saúde do que as hoje recomendadas pelo governo para adultos saudáveis: 45% a 65% das calorias de carboidratos, 20% a 35% de gordura e 10% a 35% de proteínas.

Lydia Bazzano, professora de nutrição da Universidade de Tulane, dividiu 148 homens e mulheres obesos e de diversas raças em dois grupos. O primeiro, de baixo carboidratos, foi incentivado a comer somente 40 gramas de carboidratos por dia (o equivalente a duas fatias de pão de forma branco, e o mesmo total recomendado na fase de manutenção da dieta de Atkins).

O segundo, de baixa gordura, foi incentivado a ingerir menos de 30% das calorias de gordura e 55% de carboidratos (baseado nas diretrizes do Programa Nacional de Educação do Colesterol). Por razões éticas, não havia grupo de controle no estudo.

Bazzano descobriu que, ao fim de um ano, o grupo que ingeriu menos carboidratos perdeu, na média, quase 3,5 quilos a mais que o grupo que evitou gorduras. O primeiro grupo também ganhou em média 770 gramas de massa magra e perdeu 1,5% a mais de massa gorda em comparação com o segundo grupo, apesar de ambos terem mantido os mesmos níveis de atividade física.

Finalmente, o grupo de baixos carboidratos teve uma redução significativa nos riscos de doenças do coração nos próximos dez anos, o que não se observou no grupo da dieta de baixa gordura.

O grupo low-carb obteve esse ganhos apesar do fato de, na média, nunca relatarem ter atingido o objetivo de ingerir apenas 40 gramas diárias de carboidratos durante as três checagens realizadas ao longo do ano.

Eles comeram o dobro, às vezes o triplo, dos carboidratos que deveriam, mas ainda assim o total era cerca de metade dos carboidratos ingeridos pelo outro grupo do estudo. O grupo de baixos carboidratos também aumentou o consumo de proteínas, passando de 18% para 25% no fim do estudo.

O grupo que comeu menos gordura, por outro lado, pareceu não substituir a gordura por proteínas, mas sim por carboidratos, muito além dos 55% recomendados pela equipe de Bazzano.

Walter Willet, diretor do departamento de nutrição da Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard, elogiou a condução do estudo (ele não estava envolvido na pesquisa). Para Willet, o fator mais importante do trabalho de Bazzano foi a intensidade idêntica do aconselhamento para os dois grupos estudados.

O aconselhamento em si pode ter efeito no peso. Mas ele não quis declarar nenhuma das duas dietas como superior. Sua atitude era mais na linha do “se funcionar, está bom”.

O importante é persistir

“Os resultados são expressos em médias, e algumas pessoas poderiam ter bons resultados seguindo qualquer uma das dietas”, escreveu Willet num email para o HuffPost. “A questão chave é encontrar uma maneira de se alimentar de forma saudável e que seja sustentável no longo prazo.”

Brad Johnston, professor de epidemiologia clínica da Universidade McMaster, em Ontário, Canadá, concorda com Willet.

Ele diz que resultados comparáveis podem ser alcançados com outras dietas e que o os resultados desejáveis obtidos com a dieta de poucos carboidratos podem ser atribuídos simplesmente ao fato de que as pessoas respeitaram o regime. (As pessoas desse grupo perderam em média de 6,3 quilos, reduziram a circunferência da cintura em quase 18 centímetros e também tiveram redução da pressão arterial, do colesterol e dos níveis de triglicérides.)

Johnston realizou recentemente uma meta-análise de estudos controlados (e escolhidos aleatoriamente) que compararam tipos diferentes de dietas. Ele descobriu que não há diferença significativa na perda de peso entre regimes que enfatizam gorduras, carboidratos ou outros macronutrientes. Sua análise foi uma das primeiras a testar dietas “de marca”, e os experimentos tinham acompanhamentos pelos menos seis e doze meses depois de encerrados.

“A moral da história é: escolha um tipo de dieta que você consegue respeitar, já que as diferenças (nos resultados) são mínimas”, disse ele ao Huffington Post. Ainda assim, Johnston descobriu que as dietas de baixos carboidratos e baixa gordura são as mais eficazes nas checagens feitas seis e doze meses depois do fim dos estudos.

Com relação ao estudo de Tulane, Johnston diz que, apesar de os métodos serem de alta qualidade, as pessoas não devem fazer mudanças drásticas com base em um único estudo.

Quem quiser perguntar ao seu médico sobre uma dieta com poucos carboidratos precisa levar em conta que a dieta em si era apenas um dos componentes do estudo.

Bazzano disse que a aderência ao regime era um de fato um objetivo chave para os dois grupos, o que talvez explique o baixo índice de abandono entre os sujeitos (completaram os 12 meses do estudo 82% dos participantes que comeram poucos carboidratos e 79% dos que comeram pouca gordura).

Ao longo de um ano de intervenção, ambos os grupos podiam marcar consultas individuais com nutricionistas e tinham acesso a apoio comunitário e a medidas que os ajudassem a cumprir suas respectivas dietas. Em uma entrevista telefônica com o HuffPost, Bazzano descreveu uma dessas medidas:

“Tentamos manter relações estreitas com os participantes do estudo. Também demos para eles um contrato de compromisso comportamental. Eles tinham de assinar que estavam realmente dispostos a participar do estudo e que entendiam se tratar de um estudo de longo prazo para mudança de estilo de vida – além de terem de assinar um termo de consentimento, é claro. Às vezes, se um participante queria abandonar o processo, nós ligávamos, mandávamos um cartão e incluíamos o contrato que eles tinham assinado.”

O programa também incluía dicas para planejar refeições, evitar exageros, fazer escolhas saudáveis em restaurantes e controlar o tamanho das porções. Os participantes aprenderam a comer de forma consciente, uma técnica que enfatiza comer mais devagar, prestar atenção nas sensações enquanto se está comendo e saber quando se está satisfeito.

Ambos os grupos também foram incentivados a comer óleos monossaturados, como azeite e óleo de canola, e a evitar as gorduras trans, encontradas em comidas processadas.

“Queríamos que eles entendessem o tipo de coisa que os ajudaria a perder peso”, quaisquer que fossem as proporções de nutrientes de suas dietas, diz Bazzano.

Esse olhar abrangente pode explicar em parte o fato de que ambos os grupos reduziram consideravelmente a média de calorias diárias consumidas ao longo dos doze meses, apesar de nunca terem recebido uma meta calórica. Para o grupo de poucos carboidratos, a média de calorias diárias caiu de 1 998 para 1 448, enquanto o grupo que controlou as gorduras passou de 2 034 para 1 527.

Em outras palavras, Bazzano plantou as sementes da mudança de estilo de vida, desafiando os participantes a repensar completamente a relação com a comida – o que todo programa de mudança comportamental ligado a obesidade deveria fazer. Entretanto, ela nega que o estudo simplesmente mostre a importância de cumprir regimes.

“Se você é obeso e tem alto colesterol, acho muito pouco provável que vá ouvir do seu médico que você deve comer menos carboidratos”, diz Bazzano. “A percepção pública é que uma dieta rica em gorduras simplesmente não pode ser saudável, mas ela é saudável, sim, e muito eficiente na redução dos riscos de doenças cardiovasculares, segundo meu estudo.”

De fato, os participantes que comeram menos carboidratos passaram de 32,5% de gordura em suas dietas para 40,7% ao fim de um ano, a maior parte gorduras monossaturadas, que são saudáveis.

Como a maior parte das pessoas que fazem regime ganha de volta o peso perdido – e mais -- depois de quatro ou cinco anos, um estudo de longo prazo vai oferecer a perspectiva mais importante.

Esse tipo de estudo é raro, e os poucos realizados revelam uma realidade deprimente: você não só tem grandes chances de ganhar o peso de volta como tem mais chances de engordar no futuro justamente por ter feito regime e perdido peso.

Bazzano espera um dia encarar esse tipo de estudo, seguindo um grupo menor de pessoas por um período mais longo para saber se as mesmas diferenças serão observadas.