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15/09/2014 11:54 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

O último boxeador old school

Rodolfo Viana

George Arias encara-se no espelho. Sustenta o olhar fixo enquanto gira os braços. Nada parece ser capaz de tirar sua concentração – sequer ouve os primeiros acordes de Another Brick in the Wall tocarem no rádio ou um cachorro ordinário latir desesperado do lado de fora da academia, um lugar de tijolo à mostra e reboco inacabado que fica na Vila Medeiros, zona norte de São Paulo. Em certo momento, o boxeador parece fazer o impossível: ser um décimo de segundo mais rápido que o homem de 1,82 metro refletido no espelho.

Um décimo de segundo. É tudo que precisa para nocautear um oponente. Também é tudo que o separa de beijar a lona. O tempo é inclemente, mas não forte o bastante para impedir que Arias busque superar a si mesmo numa idade em que muitos boxeadores penduram as luvas. Aos 40 anos, sendo 23 deles dedicados ao boxe, o paulistano, nascido e criado na zona norte, “está mais preparado do que nunca” para ser campeão mundial dos pesos pesados.

São aspas de Carla, mulher tão forte quanto doce que se divide nos papéis de esposa e técnica. É o nome dela que ele chama quando, diante do espelho, de súbito, para de girar os braços para reclamar de dor no ombro esquerdo. Há dias sente o músculo. “All in all it’s just / another brick in the wall”, repetem Roger Waters e David Gilmour, lembrando-o que nem toda dor é uma abstração.


1. As luvas do pai; 2. O nome do pai; 3. O filho; 4. A imprensa

Carla começa a massageá-lo com movimentos rápidos. Quando se sente melhor, ele calça as luvas e passa a dar socos em si mesmo – arranca disposição à força. O gongo soa. Arias está no córner azul; Carla, no vermelho.

“Jab”, ordena a esposa, com a voz meiga de sempre. Arias obedece: acerta a manopla na mão esquerda da mulher com violência e rapidamente volta a se fechar na guarda. Carla quer mais. “Jab de novo. Agora cruza. Agora ‘um, dois’. Não! Melhor! Mais! Mais!”

O treino dura dez rounds de três minutos, com intervalos de um minuto. Os cinco primeiros assaltos são de manopla, em que lança 47 golpes; nos cinco últimos, mescla manopla e corda, 343 batidas por round. Cansativo, sim; mais exaustivo ainda é saber que aquele era o terceiro treino do dia. Pela manhã, correra dez quilômetros nas ladeiras da Vila Medeiros. Ao meio-dia, havia feito musculação na pequena sala nos fundos da academia, onde guarda equipamentos e máquinas enferrujadas, tudo doações de amigos.

Entre um treino e outro, Arias é personal trainer. Sua academia recebe cerca de 20 alunos, que pagam 150 reais por hora de aula. É daí que efetivamente tira a renda da família – afinal, viver de boxe profissional é impossível no Brasil. Não há patrocínio, estrutura ou organização. “Isso é uma vergonha”, afirma Raphael Zumbano, primo de segundo grau de Eder Jofre e campeão brasileiro e sul-americano dos pesados – possível adversário de Arias no futuro. Ele explica que “graças à Lei Pelé, qualquer pessoa pode abrir uma federação, confederação, associação… É muito cacique para pouco índio. Tirando algumas poucas pessoas, só tem espertalhão no meio do boxe brasileiro”.

Além de não dar dinheiro, o boxe brasileiro toma o pouco que se tem. Não raro, tira do próprio bolso para poder lutar. Na luta de maio deste ano, contra Adilson Careca Santos, teve de alugar ringue, ginásio, carro do som e ambulância; pagar a taxa da federação (que varia entre 2 mil e 2,5 mil reais) e as seis lutas preliminares na mesma noite, conforme exigência da federação. Ele também pagou a bolsa de 4 mil reais do oponente. Ou seja, além de não ganhar nada por sua vitória, desembolsou para que o seu oponente participasse. “Uma disputa de cinturão brasileiro, por exemplo, não sai por menos de 40 mil reais”, diz. Teria tudo para desistir, mas um boxeador sem o boxe é um morto que caminha. Luta-se, pois, por amor.

A persistência de Arias é notável. Como também o que ele conquistou em mais de duas décadas de carreira. Hoje, é o campeão brasileiro dos pesados (acima de 90,719 quilos), pela Federação Nacional de Boxe Profissional Brasileira e pelo Conselho Nacional de Boxe, e campeão interino pela Associação Nacional de Boxe. Na categoria anterior, cruzador (de 79,379 a 90,719 quilos), foi campeão brasileiro, sul-americano, latino-americano e chegou a disputar o título mundial. Em abril de 2013, entrou para o RankBrasil, livro brasileiro dos recordes, como o boxeador com mais disputas de cinturão consecutivas – 25 desde 1998. “Estou em contato com o Guinness. Agora tenho 27 disputas de título e bati o recorde mundial, que era 26”, revela.

Briga com Maguila

Apesar de toda sua história, se o público o conheceu, foi fora dos ringues: no Programa do Ratinho, do SBT. Era 2000 e o lendário Maguila estava havia algum tempo sem lutar. Por isso, não figurava mais no ranking e, consequentemente, não poderia disputar o título dos pesados, que era de George Arias. A fama de Maguila o levou ao programa de TV em fevereiro daquele ano, no qual o ex-campeão desafiou Daniel Frank, pugilista ranqueado. Se vencesse, Maguila voltaria ao ranking e poderia pleitear a disputa do título.

No palco do Ratinho, era esperado que Daniel Frank e Maguila trocassem farpas entre si. Mas, juntos, eles partiram para a agressão verbal a Arias. Ao vivo, Maguila chamou George Arias de “bunda mole”. Ao vivo, Daniel Frank chamou George Arias de “moleque bobo”. Os xingamentos eram de escola primária, mas o clima pesado era de gente grande. Na luta entre Daniel Frank e Maguila, o ex-campeão mundial tomou uma sequência de diretos e cruzados e beijou a lona. Nocaute no terceiro round.

Daniel Frank pegaria o “moleque bobo”, em alguns dias, pelo cinturão brasileiro dos pesados. Na véspera, durante a pesagem, Arias declarou: “Eu sinto muito que amanhã não vai ter luta de boxe. Luta de boxe é quando o adversário oferece resistência; amanhã vai ter um espancamento”.

A previsão não se cumpriu: a luta foi bastante truncada durante os dez assaltos, com bons momentos de ambos os pugilistas. “Daniel Frank fez a maior luta da vida dele”, disse, à época, Osmar de Oliveira, narrador do evento, “mas George Arias foi superior tecnicamente”. Arias venceu por pontos e manteve o cinturão pela 13ª vez consecutiva.

No Jornal da Tarde (diário que pertencia ao grupo O Estado de S.Paulo, hoje fechado) do dia seguinte, a contenda foi chamada de “a primeira ‘luta do século’ do século XXI”. Do século? Talvez. Mas certamente não foi a mais importante de sua vida. Em 2001, quando estava em segundo lugar como o melhor boxeador da categoria no mundo, Arias fez a disputa do cinturão mundial dos cruzadores contra o inglês Johnny Nelson. “Ele era afiado”, lembra Nelson, que venceu a luta por pontos. “Mas, na minha opinião, era ingênuo na época. De um ponto de vista egoísta, tive a sorte de lutar com ele antes de ele adquirir tanta experiência.” Nenhuma experiência, no entanto, preparou George Arias para a perda do pai.

Lutador órfão

“George, tá com medo?”, grita uma voz sem dono vinda do fundo do ônibus fretado que leva o boxeador e seus familiares, amigos e alunos a Santos. Lá, em algumas horas, Arias fará uma luta classificatória para a disputa do cinturão brasileiro da categoria dos pesados. “Muito medo”, ironiza. “Cagando de medo.”

Apesar de ter saído em tom de brincadeira, a pergunta fazia sentido. Aquela seria a primeira luta de Arias sem o pai, Santo Arias, ao seu lado. Um vazio na alma que deixava todos apreensivos. “Eu não sei como ele vai encarar o ringue”, confidenciou Carla, antes da luta.


As luvas de Santo Arias

Santo Arias era um ícone do boxe no Brasil. Apesar da breve carreira como pugilista – chegou a ser vice-campeão paulista, mas abandonou os ringues em 1965, depois de ser atropelado e ficar com uma perna engessada por quase um ano –, fez seu nome como técnico de métodos pouco ortodoxos. Por exemplo, ele não era adepto do sparring (treinamento que simula uma luta) por causa das sequelas que a prática deixa no cérebro do atleta.

Quando o filho tinha 17 anos e entrou para o mundo do boxe, Santo Arias passou a treinar o menino. E não foi tarefa fácil transformá-lo em pugilista. “Eu não tinha o menor talento para o boxe”, conta George Arias. “Todas as lutas que ia fazer, travava. Tinha gente no meio do boxe que dizia que eu afinava. Ficava muito nervoso e o psicológico não andava junto com o físico. Eu era muito duro – até hoje sou meio travado. Tanto que fiz aula de jazz para me soltar.”

Santo Arias dizia sempre para o filho se movimentar no ringue e apostar em golpes curtos. Queria que ele se protegesse todo o tempo. Por isso, suas lutas são dotadas de muita técnica e pouco espetáculo, o que o levou a ser procurado por outras figuras do esporte que o viam como atleta de enorme potencial, mas encaravam a presença de Santo Arias como um obstáculo. “Em reuniões e depois de lutas, outros técnicos e empresários me chamavam de canto e diziam: ‘O seu pai está te atrapalhando’”, conta. Apesar da pressão, nunca cogitou abandonar o “veio”, como chamava o pai. “Hoje vejo que ele tinha razão. Enquanto a maioria dos lutadores da minha época já parou [de participar de combates], eu ainda estou em atividade.”

A seu modo, o pai fez de George Arias o segundo melhor boxeador do mundo entre os cruzadores, segundo o ranking da Organização Mundial de Boxe. Mas, em setembro de 2013, aos 71 anos e com a saúde debilitada, Santo Arias teve um infarto e morreu. George Arias perdeu o pai e o técnico.

A tristeza veio acompanhada da dúvida: era hora de se aposentar? Ficou cerca de sete meses sem treinar, remoendo pelos cantos uma resposta para a pergunta. “Ele dizia: ‘Será que continuo?’, ‘Será que vou ter coração para isso?’”, lembra Carla. “Por fim, ponderou: ‘Acho que abandonar o boxe não é o que meu pai queria’.”

Voltou a treinar, mas voltou pela metade, com espírito cansado e corpo exausto. No primeiro treino sem Santo Arias, o campeão trôpego não chegou ao décimo round: desabou no quarto. “Ele não aguentou”, lembra Carla. Amuado, seguiu amiúde, um treino de cada vez. A tristeza ainda era palpável, mas não o nocautearia. Em pouco tempo, retomou a rotina. Não podia desistir. Santo Arias, ainda que em espírito, não deixaria. O pai seria tão determinado quanto fora anos atrás, quando aceitou trabalhar com Don King e, logo em seguida, decidiu rescindir o contrato.

Na era Don King

Dana falava castelhano. No telefone, apresentou-se como secretária de Don King e foi direta: King tinha interesse em assinar com Arias. Em 2002, o controverso promoter trabalhava com o boxeador porto-riquenho Fres Oquendo e queria uma luta com Arias – na época, o 12º lutador do mundo – valendo o cinturão latino-americano dos pesados.


George Arias: mais confortável na laje de casa que no fabuloso reino de Don King

Don King já tinha trabalhado com Muhammad Ali, George Foreman, Mike Tyson, Evander Holyfield, Joe Frazier e tantos outros medalhões do boxe. É difícil dizer “não” para uma lenda. Assinaram o contrato de três lutas naquele ano: a defesa do título (que renderia a Arias 20 mil dólares) e mais duas, que seriam acertadas e cujas bolsas seriam de 50 mil e 80 mil dólares, respectivamente.

“Nos Estados Unidos, foram nos buscar no aeroporto de limusine”, lembra. “E ficamos no Ceasar’s Palace. Ele nos tratou superbem.” Somente então se encontraram pessoalmente com Don King. Apesar do tratamento de estrela, Santo e George Arias não estavam felizes com a relação com Don King: o contrato regia três lutas naquele ano, mas a primeira foi marcada apenas para dezembro de 2002. Além de não poder realizar as outras duas lutas sob o apadrinhamento de Don King, Arias não poderia fazer combates por outras organizações, porque era exclusivo de King. Faria a luta com Fres Oquendo, mas rescindiria o contrato logo em seguida.

No ringue, foi derrotado. Não por nocaute nem por pontos: no 11º round, ele recebeu uma cabeçada involuntária de Oquendo e o supercílio começou a jorrar sangue. O árbitro, julgando o ferimento sério demais para ser ignorado, decidiu encerrar a luta. “Foi uma sacanagem”, contesta ainda hoje. Depois da luta, pai e filho se encontraram com Don King e uma tradutora. Santo explicou o motivo e King acatou. Não havia mais contrato.

Devotos de Santo Arias

Letra a letra, Carla escreve em caneta preta o nome de Santo Arias na bandagem e depois beija as mãos do marido. Todos ali são devotos de Santo e esse ato é uma oração. Aquela é a primeira vez que isso acontece na história do boxeador – e que, ao que tudo indica, será o ritual de todas as lutas que virão. “É uma forma de ter o pai com ele”, diz Gerson Domingues, diretor comercial de uma empresa de logística e aluno do boxeador. Domingues e todos que estão ali sustentam no olhar uma certa apreensão: será que ele, agora órfão, está pronto para ir ao ringue?

George Arias caminha de um lado para outro. Concentra-se. Cala-se. Em poucos minutos, o filho de Santo Arias está diante de Adilson Careca Santos, seu oponente. Eles lutam por uma vaga na disputa do título brasileiro dos pesos pesados. O vencedor enfrentaria Raphael Zumbano. Mas isso apenas em uns minutos; por enquanto, todos que povoam a sala fazem um círculo em torno de Arias. Entoam um Pai-Nosso que termina com alguém gritando ao fundo: “Santo Arias está aqui”.

Às 21h23, Arias calça as luvas. É hora de dar orgulho ao “veio”. O gongo soa. Careca começa agressivo. No segundo assalto, peita Arias. No terceiro, fica lesado de tanto tomar golpe no tronco. No quarto, cai, mas rapidamente se recupera. No quinto, serve de saco de pancada de Arias. E no sexto. E no sétimo. No oitavo, deixa seus 102,9 quilos se esparramarem pela lona. Cai em câmera lenta. George Arias vence por nocaute.

Raquel, filha de Arias, só chorava. Misto de felicidade e saudade do avô, que certamente estaria orgulhoso. Em pouco menos de dois meses, em data que ainda não foi confirmada, Arias defenderá o cinturão sul-americano em luta contra o argentino Gonzalo “El Patón” Basile. Será sua quinta defesa de título desde 2008. Santo Arias estará junto. “Vou levar a urna com as cinzas do meu pai para ele me acompanhar.”

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