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11/09/2014 16:21 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:03 -02

Associação do Paraná sugere que quem recebe o Bolsa Família não tenha direito a voto nas eleições

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Uma associação do Paraná apresentou na semana passada uma sugestão no mínimo inusitada para um ano eleitoral: cidadãos que são beneficiários de programas de distribuição de renda e outros auxílios, como o Bolsa Família, não deveriam ter direito ao voto.

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Cartilha faz sugestão "ignorante", na opinião de cientista política (Reprodução/Band News Curitiba)

A polêmica proposta é de autoria da Associação Comercial e Industrial de Ponta Grossa (ACIPG). De acordo com o presidente da entidade, Nilton Fiori, a medida teria como principal benefício tornar as eleições no País “mais justas”, sem eleitores “influenciados”.

“Entendemos que esses beneficiados criam vínculo com aqueles que concedem esses benefícios (...). Em ano eleitoral, isso deve ser evitado para que haja uma equiparidade entre os candidatos”, comentou Fiori, em entrevista à Rádio Band News Curitiba.

Aos que vejam um viés “anti-PT” na sugestão, o dirigente lembra que o impedimento valeria em âmbito federal, estadual e municipal, independente de questões partidárias. Todavia, a ideia por enquanto não passa de um devaneio, já que a Constituição Federal veda qualquer impedimento do gênero, em seu capítulo IV, que trata dos direitos políticos.

Também à Rádio Band News Curitiba, o cientista político da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Ricardo Oliveira considerou a proposta “ignorante”.

“É uma proposta inadequada, ligada mais ao mundo da escravidão, do feudalismo, do que a uma moderna democracia. No Estado moderno de direito, todos têm direito ao voto, à livre participação, e a questão de ser beneficiário de políticas sociais como o Bolsa Família é muito mais uma carência que procura ser atendida pelo governo do que uma forma de limitação dos direitos à cidadania. Erra quem tem essa visão, que é do passado”, analisou.

Apesar de toda a polêmica, a proposta consta em uma cartilha distribuída para candidatos de Ponta Grossa e da região dos Campos Gerais, no interior do Paraná. Segundo a associação, 34 dos 37 diretores aprovaram a sugestão.

Para um País que passou 21 anos em uma ditadura militar, com direitos políticos cassados, qualquer cerceamento de voto parece tudo, menos democrático.