COMPORTAMENTO
10/09/2014 19:07 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Pare de fazer dieta

malias/Flickr
After scoffing lots of curry and chips while in London I've decided to go on a diet. Here's a picture of Thursday's yummy lunch <a href="http://www.paris-talk.blogspot.com/">www.paris-talk.blogspot.com/</a>

Gorda. É o que vejo quando olho no espelho. E me bate a Rainha Má ao contrário: espelho, espelho meu, existe alguém no mundo mais gorda do que eu? Não há como negar: estou acima do peso alardeado como ideal. O que é irônico, afinal, passei boa parte da minha vida de dieta.

Longe de ser exceção, minha história é a mesma de muita gente que tentou perder peso. Entramos em um ciclo vicioso de emagrecer, engordar, odiar-se, emagrecer, engordar. Felizmente, há uma luz no fim do túnel. Uma mudança de paradigma em que a comida deixa de ser sinônimo de culpa. E em que a obesidade deixa de ser doença. Sim, é isso mesmo: ser gordo não é o problema. Existem evidências científicas para comprovar tudo isso. Duvida? Vem comigo.

Se você vive nesse planeta, certamente já ouviu falar que ser gordo faz mal. Profissionais de saúde e mídia não cansam de repetir que é preciso emagrecer para prolongar a vida. Acontece, porém, que já está bem estabelecido que é possível ser saudável e gordo. Estima-se que pelo menos 30% das pessoas classificadas como obesas - com Índice de Massa Corporal maior que 30 - são saudáveis em termos cardíacos e metabólicos, incluindo níveis de colesterol e de glicose e insulina no sangue. Somente quando o imc se aproxima dos extremos, a partir de 35, é que os riscos aumentam. E, mesmo nesse nível, a saúde pode ser melhorada sem perda de peso. Em um estudo feito com milhões de noruegueses, comprovou-se que a mais alta expectativa de vida era a das pessoas com sobrepeso. E a mais baixa, a dos muito magros. Fazer exercícios e comer bem é mais importante para a saúde do que ser esguio. Pessoas obesas fisicamente ativas vivem tanto quanto os magros que se exercitam, e mais que os sedentários esbeltos.

Dieta faz mal

O incrível de tudo isso é que muitas doenças que atribuímos à obesidade podem estar sendo causadas pelas armas que usamos para combatê-la, como as dietas. "Mesmo um único ciclo de perder e ganhar peso pode danificar os vasos sanguíneos e aumentar o risco de doenças cardíacas", escreve a pesquisadora Linda Bacon, autora de Health At Every Size ("saúde em qualquer tamanho", sem edição no Brasil). Linda é parte do Health At Every Size (haes), um movimento que luta para que as pessoas esqueçam o peso e mudem o foco para os hábitos. Em seu livro, ela apresenta diversos estudos que corroboram essa ideia. Um deles mostrou que mulheres obesas que tinham feito dieta tinham mais tendência a ter pressão alta do que as que nunca tinham tentado emagrecer. O efeito sanfona está associado a maior risco de diabetes, hipertensão e doenças cardiovasculares, independente do peso.

Outra razão para os indicadores de saúde serem piores em pessoas gordas é o fato de que elas têm tendência a adiar a visita ao médico, por medo de receberam um sermão sobre perda de peso. É a mesma razão pela qual essas pessoas evitam, muitas vezes, fazer academia ou ir à praia: vergonha e medo da discriminação. Ser gordo é visto como algo feio, imoral. Somos severos com as pessoas que julgamos estarem acima do peso. Hoje, sabe-se que o estresse tem papel primordial no desenvolvimento de doenças como diabetes, hipertensão e doença coronária. "A nossa atitude para com a obesidade nos coloca em risco. Estudos mostram que em países onde a obesidade é menos estigmatizada, pessoas gordas têm menos doenças", diz Linda.

OK, dá para ser saudável sendo gordo. Mas você ainda pode estar querendo emagrecer. Afinal, a saúde não é a única razão para perder peso. Queremos gostar do que vemos no espelho.

E aí temos um problema. Porque emagrecer, e permanecer magro, é uma das coisas mais difíceis que existe. Se você já passou pelo efeito sanfona, provavelmente sabe disso. O que você talvez não saiba é a gravidade dessa dificuldade. Diversos estudos apontam que até 95% das pessoas que fazem dieta recuperam todo o peso, e às vezes mais, em até cinco anos. Isso mesmo. Um exemplo foi o Women¿s Health Study, estudo ambicioso que colocou 20 mil mulheres para testar uma dieta pobre em gordura, com 360 calorias a menos. O estudo deu todo o suporte para que elas conseguissem manter o regime. Mesmo assim, depois de oito anos, não houve nenhuma mudança de peso, e a circunferência da cintura delas aumentou. Os resultados foram os mesmos para outros tipos de dieta.

Agora pense: se um remédio funcionasse em apenas 5% das vezes, você continuaria tomando?

E não para por aí. Fazer dieta pode, na verdade, ter efeito oposto ao esperado. Um dos estudos mais interessantes sobre o tema foi feito com gêmeos finlandeses. Os estudos com gêmeos permitem avaliar se o que se está pesquisando é decorrente da genética ou do ambiente. Pois bem: essa pesquisa mostrou que os gêmeos que haviam feito dieta tinham de duas a três vezes mais chances de engordar do que os irmãos que nunca tentaram emagrecer.

Nosso reloginho interno

É estranho. Afinal, sempre aprendemos que emagrecer é uma matemática simples: ingerir menos calorias do que gastamos. Infelizmente, não é bem assim. Como espécie, nós evoluímos para interpretar a escassez de alimentos como algo perigoso; no passado, quem tinha tendência a armazenar mais gordura tinha uma vantagem evolutiva. "Biologicamente, seu corpo sente a dieta como inanição, e muda para um modo de sobrevivência primário. O metabolismo diminui e o desejo por comida aumenta", dizem Evelyn Tribole e Elyse Resch, autoras de Intuitive Eating ("comer intuitivo", sem tradução no Brasil). Cada pessoa tem um peso "natural", que ela consegue manter sem esforços. É o que se chama de setpoint ou ponto de referência, que não é um número exato, mas uma gama, que pode variar de 5 a 10 quilos para cima ou para baixo.

Emagrecer mais do que isso aciona nosso mecanismo ancestral de manutenção do peso. A cada perda, o organismo se estabiliza de novo, só que, dessa vez, não mais no ponto normal: o nosso setpoint sobe, ficando mais alto do que antes. A pessoa perde 2 kg, ganha 4 kg. Depois, ela perde 8 kg, e ganha 12 kg.

Quanto aos outros tratamentos para perder peso, eles são cheios de riscos e, infelizmente, também não são garantia de sucesso. Remédios para emagrecer são perigosos e podem causar inúmeros danos ao organismo. No meu último ciclo de perda de peso, emagreci 20 kg com a ajuda de três desses medicamentos (posteriormente, todos foram proibidos pela Anvisa). Fiz tudo de forma responsável, com acompanhamento de um endocrinologista. Ao longo dos meses, minha memória piorou, passei a esquecer compromissos e a ficar doente com facilidade. Eu recebia muitos elogios, embora minha saúde estivesse, no fundo, muito pior do que antes. Parei com os remédios e em três anos engordei de novo. As pessoas que passam por cirurgia bariátrica enfrentam riscos ainda mais altos, com um índice de mortalidade que pode chegar a uma pessoa em cada 200. Ao final, ainda assim, até 40% das pessoas que passam pela cirurgia recuperam boa parte do peso, se não todo, e 51% desenvolvem compulsões alimentares.

O hábito faz a saúde

Então, se fazer dieta não adianta, tudo liberado? Dá para se jogar no sofá, comer fritura toda hora, se afogar de brigadeiro? Não é bem assim. É possível ser saudável em qualquer peso, mas isso não significa que todo mundo esteja saudável do jeito que está. Muitas vezes, é preciso, sim, mudar. Mas sem se preocupar com o peso, mas com os hábitos. Até porque não existe garantia de que a perda de peso ocorrerá. Nosso peso ideal é aquele que conseguimos manter levando a vida mais saudável e prazerosa possível.

No caso da alimentação, isso significa comer melhor. E comer melhor significa mudar não só o que comemos, mas principalmente como. O primeiro passo é aprender a ouvir o corpo. Reconhecer os sinais de fome - e de saciedade. "Hoje é muito difícil achar alguém que sabe quando a fome surgiu, como evoluiu, a partir de que momento ela se sentiu saciada", diz a nutricionista Ana Carolina Pereira Costa, da equipe do Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas de São Paulo e autora do blog O Corpo é Meu, que discute a questão dos padrões de beleza e saúde.

Nosso corpo sabe do que precisa - basta ouvi-lo. Para conseguir isso, é fundamental prestar atenção ao comer, estar presente de fato. É o que se chama de comer "atento" ou "intuitivo". Ou seja, nada de ficar ao celular. Pare por alguns minutos, respire, dê-se tempo para saborear o alimento. No começo, pode ser útil experimentar com suas comidas favoritas, comê-las quando der vontade, para que a aura de "proibidas" se perca e você possa encará-las numa boa.

Quando você tiver feito as pazes com a comida, e não mais encarar cada refeição como um dilema ético, você pode começar a prestar mais atenção à nutrição e a "o que" comer. Sobre isso, dois conselhos simples. "Coma comidas deliciosas que você goste, principalmente vegetais", diz Linda Bacon. Ou, como escreveu Michael Pollan em Em Defesa da Comida, "coma apenas o que sua avó reconheceria como comida". Uma das razões para termos ganhado peso como sociedade é o fato de que, cada vez mais, comemos alimentos processados, cheios de aditivos que enganam nosso mecanismo de saciedade. "A culpa (do ganho de peso mundial) não é nossa enquanto indivíduos. Não há uma `epidemia mundial de perda de força de vontade' - o que ocorreu é que as calorias passaram a ser baratas, abundantes e quase literalmente empurradas para nós constantemente", diz o médico e professor da Universidade de Ottawa Yoni Freedhoff, autor do blog Weighty Matters, que foca em administração saudável do peso.

Tudo que é obrigatório vira chatice. E tudo que é proibido parece mais gostoso. Na alimentação também é assim. Um comer saudável não é se privar de certos alimentos - isso causará compulsão para comer exatamente aquilo. Mas aprender a comer com gosto, sem neuroses. "Sua relação com a comida só será saudável quando um bolo de chocolate e uma maçã tiverem o mesmo significado para você", diz Ana Carolina Costa. Ou seja: o bolo não pode estar ligado a culpa e tentação; a maçã não pode ser associada a obrigação e tortura. É injusto com o bolo - e, principalmente, injusto com a maçã.

Comida como droga

Também importante é repensar a relação emocional que temos com a comida. Ela não deve ser fonte de culpa, mas também não deve ser nossa única fonte de consolo e prazer. "Não importa se a pessoa pesa 70 ou 150 quilos. Se ela come mesmo que não esteja com fome, está usando a comida como droga. Está lidando com tédio, doenças e perdas, dor, vazio, solidão, rejeição", diz Geneen Roth no best-seller Mulheres, Comida & Deus (Lua de Papel). Geneen lidera retiros para pessoas com transtornos alimentares e escreveu diversos livros ensinando a lidar com a fome emocional. Tem horas que não temos fome de doce, mas de abraço. Tem dias que não precisamos de Big Mac, mas de colo.

A outra parte de uma vida saudável é o exercício. Aqui, outra vez, a lição: tudo que é obrigação fica chato. Esqueça a força de vontade e descubra o prazer do movimento. No início, nem é preciso fazer uma atividade física estruturada. Basta caminhar, optar pela escada, dançar ao som da música favorita. O importante é resgatar o prazer que sentíamos com o movimento quando crianças. Lembra daquela época, em que tudo era tão empolgante que você não andava, só corria e pulava? Seus pais tinham de pedir para que você ficasse quieto. Pois então, recupere esse prazer. À medida que você se sente melhor na própria pele, vai querer se mexer mais.

Eu gostaria de dizer que, se você aprender a comer sem neuras e se exercitar, tudo vai ficar bem. Mas a verdade é mais dura. Vivemos em uma sociedade gordofóbica, que julga os outros pela aparência. Nem os magros escapam: sempre tem alguém para chamá-los de "sacos de ossos" e "cabides". As mulheres sofrem ainda mais, porque o escrutínio sobre o corpo feminino é maior. As pessoas se sentem no direito de comentar sua aparência, independente do peso.

Para lutar contra isso, não tem jeito: é preciso aprender a dar uma banana para as cobranças. Não é fácil. Não acontece da noite para o dia. Muitas vezes, você ainda olhará no espelho e se sentirá miserável. Normal: a mudança é lenta. Nesse processo, é fundamental aceitar o seu corpo como ele é. Parar de odiá-lo. Passamos a vida achando que ser duro consigo mesmo é a melhor motivação para a mudança. E isso só nos leva a um ciclo vicioso de frustração. "Para a pessoa poder mudar, é preciso primeiro entender que tudo bem ela ser como é", diz Ana Carolina. Só nos aceitando é que poderemos fazer mudanças para ter a saúde que merecemos.

Nesse processo, seja compassivo: não se chicoteie por ter tentado, tanto tempo, abordagens ineficazes. A culpa não é sua, afinal. Você fez o que podia com as informações que tinha na época. É o que estou tentando fazer, aos poucos, enquanto aprendo a olhar para o peso de uma maneira totalmente nova. Encarando cada tropeço como um pequeno desvio, que me ensinou algo valioso sobre mim, meus sentimentos, minha relação com a comida. Aprendendo a amar meu corpo, que, afinal, me permite brincar com meus gatos, escrever esse texto, fazer viagens de bicicleta. Estou tentando algo diferente. E lembrando sempre: o único peso extra é a culpa.

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