NOTÍCIAS
31/08/2014 10:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Um ano de Mais Médicos: apesar das insuficiências e falhas, programa é festejado pelos pacientes

José Cruz/ABr

Ao completar um ano nesta terça-feira (2), o Mais Médicos está presente em 3.785 municípios, enquanto os 14 mil profissionais do programa — dos quais mais de 11 mil cubanos — enfrentam desafios para trabalhar. Os médicos deparam-se com infraestrutura precária dos postos, falta de medicamento, déficit de colegas, recusa de encaminhamento para especialistas e violência urbana. Apesar das insuficiências, pacientes comemoram a chegada dos doutores.

Lançado em meio à resistência de entidades médicas, o programa oferece bolsas de R$ 10 mil para brasileiros e estrangeiros e US$ 1.245 para cubanos trazidos por convênio com a Organização Pan-americana de Saúde (Opas). São os cubanos que, involuntariamente, se embrenham nos rincões e nas periferias e assistem a populações de onde antes não havia médico.

Nas Unidades de Saúde da Família (USFs) de Beira Mangue e Nova Esperança, na periferia de Salvador (BA), há um ano, a população ficaria sem médico não fossem os médicos da ilha. As equipes estão completas, mas o posto de Nova Esperança é precário e os pacientes são atendidos em uma igreja. "O lugar não foi pensado para isso", diz um o cubano, que prefere não se identificar. "A iluminação é insuficiente. Não é o ideal, mas a gente precisa continuar o atendimento, porque a população é muito carente de atenção."

"Parece piada que, quando a gente enfim tem médico que vai ficar, não tem lugar para ser atendido", diz a dona de casa Géssica Santos, de 27 anos. "Os médicos são ótimos, mas não é lugar para cuidar de paciente." Segundo a prefeitura de Salvador, 79 dos 112 postos foram reinaugurados e 18 estão em obras e serão entregues em 2015.

LEIA TAMBÉM: Mais Médicos: médicos brasileiros criticam governo por ação paliativa que não trata o SUS

A USF de Beira Mangue chegou a ser interditada pela Vigilância Sanitária. Foi reinaugurada e agora tem de fechar por falta de segurança. "Não temos conseguido fazer as visitas às famílias porque as gangues muitas vezes proíbem nossa circulação", conta um médico. "Há situações em que eles mandam fechar a unidade. Obedecemos."

Em Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife (PE), são 14 profissionais — 12 cubanos e dois brasileiros —, mas ainda faltam oito médicos. "A atenção básica à saúde funciona razoavelmente bem", diz o agente comunitário de saúde Jonas Guimarães de Santana, de 29 anos. "O problema maior é a falta de especialistas, quando aqui no posto se identifica algo a ser tratado ou aprofundado." Ele frisa que a demanda é maior que a estrutura disponível e o paciente muitas vezes desiste do tratamento por causa da demora.

Além dos problemas, a população rende elogios. "Passei por uma consulta de 20 minutos, fiz exames e descobri que tenho pressão alta", conta Ana Paula de Santana, de 33 anos. "Isso é que é qualidade de atendimento", diz, referindo-se à cubana Nancy Maria Garcia Quevedo.

A médica trabalha o básico com os pacientes. "Às vezes chego mais cedo ao posto e falo coisas como não andar descalço nas ruas cheias de lixo, lavar as mãos depois de ir ao banheiro", conta. "Prevenção é o foco."

Inusitado

Em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense (RJ), havia postos de saúde que aguardaram até três anos pela chegada de um médico. As vagas do programa federal foram preenchidas por 30 cubanos e um português. Yudyt Rodriguez Esquivel, de 40 anos, é uma das cubanas.

Com a experiência na Venezuela e na Bolívia, se deparou com uma situação que só viu aqui: pacientes atendidos por planos de saúde que procuram o serviço público em busca de encaminhamento para exames complexos e remédios do posto. "É estranho", sorri. "Muitos pacientes não querem consulta. Já chegam com as receitas, os pedidos de ressonância. Examino e prescrevo aquilo que acho que devo."

LEIA TAMBÉM: Mais Médicos: Brasil pagará quase R$ 974 milhões para renovar custeio de médicos cubanos

Na Clínica da Família da Favela do Jacarezinho, zona norte do Rio, a operadora de supermercado Maria das Dores do Nascimento, de 50 anos, diz que estranhou a língua enrolada de Rolando Bettancourt March, de 46 anos. "Mas ele fica bastante tempo com a gente. Quer ver se a gente entendeu mesmo." Na semana retrasada, ela procurou o médico ao sofrer uma crise hipertensiva. "Ele me salvou." O médico emenda: "A pressão dela chegou a 16x10". Ela sorri, ao ver que o médico se lembrou. "Foi isso mesmo."

Para March, Yudyt e os colegas, os tablets prometidos não chegaram. Eles precisam usar laptops próprios e ainda pagam a internet. Quando têm dúvidas, recorrem a colegas e ao tutor (professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Diante dos entraves, o Ministério da Saúde apresenta números. Segundo o governo, 50 milhões são atendidos pelo Mais Médicos — 5 milhões de consultas por mês. Isso implicou a diminuição de encaminhamentos para hospitais em 21%.

"Mais Médicos não tem prazo de validade"

Em entrevista ao Estado de S.Paulo, o ministro da Saúde, Arthur Chioro, disse que, em um ano, o programa Mais Médicos foi capaz de reestruturar o sistema de atenção básica brasileiro. E deu como quase certa a prorrogação do contrato dos profissionais do programa até 2019.

Quais os principais avanços e o que precisa ser melhorado?

O principal avanço é ter garantido, pela primeira vez, desde que o SUS foi criado, atenção básica para toda a população brasileira.

E os principais desafios?

É dar continuidade à tarefa de garantir a infraestrutura adequada na atenção básica. Estamos fazendo reforma, construção e ampliação de 26 mil unidades básicas, 7.179 estão prontas, 13.046 estão em obras e 5.775 estão em licitação.

A maior reclamação, inclusive de médicos que atuam não programa, é a questão do atendimento de média e alta complexidade. Existe algum projeto para tentar driblar essa questão?

É a tarefa principal a que nós estamos debruçados agora.

Existe a possibilidade de trazer médicos estrangeiros para os serviços de especialidades?

A princípio, não.

E como ficará a atenção básica ao final dos três anos do contrato? Não haverá tempo para formar 14 mil brasileiros...

A formação demora, mas o programa Mais Médicos não é paliativo nem tem prazo de validade. A lei permite que o médico que participe do programa renove a sua bolsa por mais um período de três anos.

LEIA TAMBÉM: Saiba onde estão cada um dos mais de 14 mil profissionais do programa Mais Médicos (INFOGRÁFICO)

Então é quase certa a renovação desses contratos?

Se o profissional desejar.

Mesmo que não queiram ficar, não seriam abertos editais?

Isso, mas sempre dando prioridade para médicos brasileiros. Eu não sei se o Brasil, olhando daqui a 20, 30 anos, para colocar médico no interior da floresta, vai precisar abrir para trazer alguém de fora, mas pelo menos a gente venceu esse preconceito.

Será possível retomar o diálogo do governo com as entidades médicas, que ainda criticam o programa?

Essas são reações de lideranças corporativas. Nós estamos sempre dispostos a dialogar. Não temos conversado sobre o Mais Médicos, mas temos retomado o diálogo e acho que quem perde são as entidades médicas de ficarem apartadas do debate sobre os rumos da saúde no País. Agora é importante frisar: nenhum médico estrangeiro ocupou um posto de trabalho de um médico brasileiro, até porque foram cinco ciclos de chamamento. Sempre as vagas foram primeiro ofertadas para os médicos brasileiros. Em segundo lugar, quando eu converso com os profissionais que estavam segurando as pontas nos postos de saúde sozinhos, eles elogiam muito esses colegas do Mais Médicos.

O senhor acha que quem critica o programa não tem vivência prática do SUS?

Mais do que não ter vivência, não tem compromisso histórico com o SUS.

(Com Estadão Conteúdo e O Estado de S.Paulo.)