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29/08/2014 13:09 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Racismo no futebol: jogador santista é vítima de ofensas no Rio Grande do Sul

reprodução

A importante vitória do Santos sobre o Grêmio por 2 a 0, em Porto Alegre, na noite desta quinta-feira (29), ficou em segundo plano por conta de mais um caso de racismo registrado no futebol brasileiro. O goleiro santista Aranha foi ofendido por parte da torcida gremista, tendo sido chamado de "preto fedido". Torcedores também imitaram gestos de macaco em provocação ao jogador.

O atleta santista chegou a alertar o árbitro Wilton Pereira Sampaio sobre o ocorrido, ainda durante a partida, mas foi repreendido pelo juiz, que não viu as ofensas racistas e, no momento, avaliou que era o goleiro quem estava provocando os torcedores rivais.

Depois da partida, visivelmente abatido, Aranha desabafou: "O fato de ter uma campanha contra o racismo no telão da outra vez não é à toa. A torcida xingar e pegar no pé é normal. Mas daí começaram a falar ‘preto fedido', ‘cambada de preto', fiquei nervoso, mas fiquei me segurando. Fizeram rápido e pouco um coro de macaco, para não dar tempo de pegar. Pedi para o câmera virar e mostrar, mas ele não fez isso. Fico p.. com essas coisas acontecerem aqui. Mas isso dói, dói. Não é possível. Vem falar que eu estava insultando a torcida, virei e falei que eu era preto sim, negão", afirmou o goleiro.

Embora o incidente, mais um registrado no futebol brasileiro, tenha ganhado forte repercussão, o jogador do Santos não prestou queixa formal na delegacia. "Como tomar providência? No meio de tanta gente, fica difícil assim. Graças a muito esforço, tem leis, mas no futebol a gente sabe que o torcedor usa de várias maneiras para desestabilizar o torcedor. Sou mais experiente agora", falou Aranha.

As câmeras da ESPN Brasil registraram uma torcedora gremista gritando, enfaticamente, para Aranha : "Macaco!"

De acordo com o jornal Zero Hora, a gremista foi identificada como Patrícia Moreira e afastada, nesta sexta-feira (29), de seu trabalho, no Centro Médico Odontológico da Brigada Militar.

Quem também pode se dar muito mal é o Grêmio. Embora o diretor gremista Marcos Chitolina tenha afirmado que não irá "compactuar com o racismo", ressaltando que a "a administração da Arena tem todas as condições de buscar a identificação" e que "assim que for encontrado, vai punir e tomar as medidas necessárias", pregando que "o Grêmio não pode ser punido por um ato individual", a legislação esportiva brasileira indica que o clube pode até ser eliminado da Copa do Brasil por conta do incidente.

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Se o caso for levado para o STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) e deve ser levado já que o juiz Wilton Pereira Sampaio enviou, na manhã desta sexta-feira (29), um e-mail com o adendo relatando o ocorrido que não constava em sua súmula original, o Grêmio pode ser enquadrado no artigo 243-G do CBJD (Código Brasileiro de Justiça Desportiva), que prevê que atitudes discriminatórias que envolvam raça e cor possam acarretar em perdas de pontos e até eliminação ao clube ao qual a torcida que promoveu as ofensas seja vinculada.

Para Oswaldo Sestário, advogado atuante do STJD, em entrevista à ESPN Brasil, afirma que "o clube pode perder pontos e até ser eliminado. Se os torcedores forem identifcados, eles também serão punidos". Para ele, de nada adiantará o clube identificar os torcedores para tentar escapar de uma punição. "A identificação de torcedores para evitar punição só funcionar para o artigo 213, que é o de desordem. Se a denúncia vier no 243-G mesmo, o que vale está nos parágrafos dali, podendo haver sim punição ao clube", completou.

Nesta sexta-feira, a Polícia Civil do Rio Grande do Sul informou que enviará uma carta precatória para Santos, em São Paulo, com o intuito que o atleta possa fazer a representação criminal denunciando ofensas raciais. "O crime será investigado no âmbito criminal pelo delegado titular da 4ª DP, que cobre a área do estádio. Ele reunirá algumas provas, como as imagens da televisão, e vai pedir ao Grêmio que envie imagens do estádio, para que se possa identificar todos os possíveis autores", afirmou o Chefe da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, Guilherme Wondracek.

Tanto o Grêmio quanto o Santos emitiram comunicados oficiais sobre o ocorrido.

Leia a nota oficial do Grêmio, na íntegra:

O Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense lamenta e repudia o ato de racismo ocorrido na noite desta quinta-feira, durante partida realizada pela Copa do Brasil, na Arena do Grêmio. O Clube se solidariza com o atleta Aranha e com seu clube, Santos, ressaltando que atos como esse são fruto de atitudes individuais e isoladas, que em nada representam a grandiosidade e o respeito da torcida gremista.

Informamos que o Departamento Jurídico do Clube, em conjunto com a administração da Arena, já está tomando todas as medidas possíveis para que os envolvidos neste episódio sejam identificados e para que os materiais disponíveis sejam enviados às autoridades policiais, a fim de tomarem as providências cabíveis no âmbito criminal.

No que se refere às ações administrativas, caso os responsáveis identificados sejam sócios do clube, estes serão imediatamente suspensos do Quadro Social e proibidos de ingressar no estádio.

Reiteramos que o Grêmio tem sido um incentivador de iniciativas que visam coibir esse tipo de crime e que continuará alerta e atuante na luta contra a discriminação racial.

Leia a nota oficial do Santos, na íntegra:

O Santos Futebol Clube mais uma vez vem a público se manifestar a respeito de um ato que considera inadmissível.

Aranha, goleiro do elenco profissional, foi vitima de racismo no jogo contra o Grêmio, pelas oitavas de final da Copa do Brasil 2014.

Apesar do Clube acreditar que trata-se de fato isolado, que destoa da postura do respeitado adversário e sua torcida, considera impossível ignorar a manifestação de parte daqueles que estavam na arena e proferiram gestos e palavras ofensivos dirigidos ao cidadão Mário Lúcio Duarte Costa, casado e pai de quatro filhos.

Para esse escudo, o ato representa a ignorância de uma minoria da sociedade, mas por reconhecer o seu compromisso social em colaborar para a inibição de qualquer ato de preconceito, defendendo a sua cultura e a posição de seus torcedores, simpatizantes e ídolos, o Peixe resgata, no dia de hoje, a campanha #RacismoNão. A mesma foi criada há menos de um ano, após situação semelhante que vitimou mais um grande ídolo do alvinegro praiano, o volante Arouca.

“Não tenho outra palavra a dizer, que não seja decepção. Estamos caminhando por um País melhor e vimos muitas manifestações em busca de melhorias nos últimos tempos. Mas atitudes como a de hoje (28 de agosto de 2014, na partida entre Santos FC e Grêmio, em Porto Alegre), mostram que precisamos melhorar como seres humanos.

Caráter é tudo! Se não há homens de bem e pessoas de caráter, há uma contaminação na política, no trabalho, nos eventos e, claro, na vida. É preciso inibir esse tipo de ato, pois se não o fizermos, estamos, de certa maneira, concordando com isso.

Hoje, a vítima fui eu. No entanto, isso já ocorreu com várias outras pessoas e continuará acontecendo se não inibirmos esse tipo de ação. Agora, o mais importante é a consciência daqueles que estão próximos dessas pessoas a convencê-las de que este não é o caminho”, Aranha.

O Clube adotará as medidas cabíveis e espera, tal qual seu atleta Aranha, que esse seja o último caso em que o futebol e a competição saudável percam espaço para um acontecimento desprezível.

Hoje saímos vitoriosos dentro das quatro linhas; mas com ainda mais raça para melhorar o que acontece “fora” delas.

#MuitoAlémdoFutebol #RacismoNão

Confira a repercussão do caso nas redes sociais:

Pelo Instagram, o filho de Aranha prestou solidariedade ao pai: