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28/08/2014 12:31 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

As sementes levadas pelos peixes semeiam a biodiversidade do Pantanal

Douglas Trent/Lipan

“Quem comer a cabeça de pacu, sempre voltará ao Pantanal,” diz o ditado popular da região. O peixe de carne gorda e saborosa é uma das espécies mais comuns nos cardápios pantaneiros. Confesso que a tal cabeça de pacu foi por muito tempo o meu pesadelo de infância. Ao ver minha mãe e familiares saboreando a iguaria e insistentemente me oferecendo: “coma ao menos o olho,” eu sempre dava um jeito de escapulir para não ver a insólita cena do cérebro do peixe esquartejado.

Agora, preciso corrigir anos de injustiça contra a espécie e defendê-lo: o pacu é um verdadeiro pai da biodiversidade do Pantanal e, para preservar esse ecossistema, precisamos compreender como é importante a delicada relação da flora e da ictiofauna local.

O peixe, que se alimenta de frutos, é um dos mais importantes dispersores de sementes desse ecossistema e o responsável por semear espécies vegetais por grande parte da bacia hidrográfica do Paraguai-Paraná. Na região do Pantanal de Cáceres, essa relação de mutualismo entre plantas e peixes é fundamental para garantir a transição entre a biodiversidade das terras altas para o que seria o portal do Pantanal de águas – que se estende até as áreas das grandes baías.

pesca no pantanal

O primeiro passo para compreendermos a grandeza dessa relação é mapearmos as espécies responsáveis pela função de dispersar sementes. O pacu, por exemplo, na verdade é um nome dado para diversos peixes da família dos caracídeos, na qual se incluem as temidas piranhas. É justamente para desvendar como essa ligação entre peixes e plantas e criar novas ações de proteção ao Pantanal, que a equipe de pesquisa do Projeto Bichos do Pantanal está realizando o primeiro inventário de ictiofauna de Cáceres, no Mato Grosso.

A primeira etapa do estudo tem como objetivo realizar um amplo levantamento da diversidade de peixes da região. “Em todo o Pantanal têm 269 espécies descritas, precisamos descobrir quantas estão presentes no Pantanal de Cáceres, onde acreditamos haver mais biodiversidade de peixes do que nos outros Pantanais”, afirma Claumir Cesar Muniz, doutor em ictiofauna pela Universidade de São Carlos, professor da Unemat e coordenador dos estudos de ictiofauna do Bichos do Pantanal. “Esses dados vão nos dar respostas sobre o grau de colaboração do ambiente do Alto Pantanal para a preservação de todo esse ecossistema”.

A importância da flora para o ciclo de vida dos peixes é um dos dados já revelados pelo estudo, que vem sendo executado também em parceria com o Icmbio e a equipe da Estação Ecológica de Taiamã, coordenada por Daniel Kantek, biólogo e doutor em genética. Além dos pacus, muitas outras espécies comerciais, como a piraputanga, a sardinha e o lambari, também executam esse papel de manutenção da mata ciliar do rio Paraguai.

peixes no fundo do rio

O estudo também reforça a importância do Pantanal para a reprodução dos peixes que povoam vários rios do Sudeste e Sul, bem como rios de outros países (Paraguai, Bolívia, Argentina e Uruguai), uma vez que o rio Paraguai integra a Bacia Platina (Paraguai-Paraná), a segunda maior do Brasil, e percorre todas essas regiões. As baías pantaneiras, que surgem pela cheia dos rios na estação das chuvas, tornam-se um verdadeiro berçário de grande parte da ictiofauna do Brasil.

Um ponto alarmante detectado é que essa delicada relação também vive um avanço em suas ameaças. O desmatamento, os agrotóxicos e as queimadas são os principais problemas. A mortandade em larga escala é um fenômeno natural do Pantanal. Acontece quando as baías ficam muitos meses desconectadas dos rios e a baixa do oxigênio causa anóxia nos peixes. “O problema é que o avanço das ações humanas, como desmatamento e queimadas, estão acelerando esse processo”, explica Muniz, pesquisador do Bichos do Pantanal. “O que buscamos agora é descobrir se essas atividades já estão colocando em risco os estoques pesqueiros”.

vegetação

A esperança dos pesquisadores é descobrirem logo quais são as espécies prioritárias de peixes e plantas necessárias para a manutenção da biodiversidade do Pantanal. Esses dados devem guiar as futuras ações de preservação projetadas para a região. Com isso, espera-se que o costume de comer a cabeça do pacu possa persistir por muitas gerações.