NOTÍCIAS
22/08/2014 11:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

‘Sangria' continua: Campanha de Marina ganha nova coordenação, mas perde integrante e partido na coligação

MÁRCIO FERNANDES/ESTADÃO CONTEÚDO

Nem mesmo o mais ferrenho opositor esperaria que as primeiras 24 horas de Marina Silva como candidata oficial do PSB à Presidência da República fossem tão traumáticas. A ‘sangria’ dentro da coligação da ex-senadora prosseguiu ao longo desta quinta-feira (21) e já traz um novo cenário para esta sexta-feira (22), com novas decisões e até um cenário diferente daquele costurado por Eduardo Campos, morto em um acidente aéreo na semana passada.

Depois da atribulada saída de Carlos Siqueira, nome respeitado dentro do PSB, da coordenação da campanha, após se sentir “desprestigiado” por Marina, alguém que, segundo ele, “não representa” o partido, a ex-senadora viu a saída de outro nome: o coordenador de mobilização e articulação da campanha, Milton Coelho – que era cotado para assumir o posto de Siqueira – também disse ao presidente nacional da sigla, Roberto Amaral, que está fora.

“Meu compromisso era com o Eduardo”, resumiu Coelho, quase que laconicamente. Na tentativa de “apagar o incêndio” que se instalou dentro do partido, o assessor pessoal de Marina e porta-voz da Rede Sustentabilidade, Walter Feldman, dizia que tentaria demover Siqueira da sua decisão de não seguir. Se essa medida não surtiu efeito, coube ao vice de Marina, deputado federal Beto Albuquerque (PSB), tentar melhorar a situação.

Pouco depois, ainda na quinta-feira, Albuquerque dizia poder assumir interinamente a função de coordenador, até que a direção do partido decidisse por um novo nome. “Neste momento de tensão houve um atrito, vencível (...). Marina não ofendeu ninguém, é uma mulher delicada e generosa”, comentou. Parte dos problemas, segundo ele, estaria no fato de que as discussões após a morte de Campos deixaram todos extenuados.

O deputado ainda disse que a decisão de Marina pedir a presença de Feldman “foi compreendido errado, a meu juízo, pelo Carlinhos, que eu prezo imensamente, e ele se estressou com aquela nossa reunião”. “O que está em jogo é mudar o Brasil e não vamos nos perder em intrigas de uma ou outra pessoa. Esse assunto para nós é assunto resolvido”, emendou.

No fim da noite desta quinta-feira, a deputada federal Luiza Erundina, de 77 anos, que já foi prefeita de São Paulo, foi indicada para assumir a coordenação de campanha de Marina, segundo informou o jornal Folha de S. Paulo. Erundina chegou a ser cotada para ser vice de Marina antes da indicação de Albuquerque, o que acabou não acontecendo.

‘Nanico’ ensaia revolta

Além do PSB, a Coligação Unidos pelo Brasil conta com os partidos PHS, PRP, PPS, PPL e PSL. A decisão de escolha por Marina já foi definida pelo PSB, mas depende que a maioria dos coligados vote favoravelmente, antes do registro até sábado (23) no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Todavia, o presidente do PSL, Luciano Bivar, anunciou nesta quinta-feira que a sigla pretende deixar o grupo.

“A gente não foi ouvido em nada. Temos conhecimento dessa coisa toda, mas a gente está muito desconfortável. Acho muito difícil a gente seguir junto com o PSB com a Marina à frente. Com toda a boa vontade que o Roberto Amaral tem, ele não tem cacife pra falar por Marina”, disse Bivar, em entrevista ao jornal O Globo. Se confirmada, a saída do PSL tiraria “nada menos” do que dois segundos de Marina na propaganda da TV, segundo a revista Época.

Ao que tudo indica, o PSL deve ser o único a se revoltar. Se os demais (pelo menos três) também não concordarem com a indicação, caberá ao TSE resolver o imbróglio.

LEIA TAMBÉM

- Marina Silva estreia no horário eleitoral como candidata do PSB com homenagem a Eduardo Campos

- Homenagem: Eduardo Campos é ‘eternizado' com rosto em melancia no Recife (VÍDEO)

- Conheça a verdade por trás do vidente que "previu" a morte de Eduardo Campos

Corrida contra o tempo

Na opinião de peesebistas e militantes da Rede, o único jeito de pôr fim ao sangramento da candidatura e diminuir a impressão de existirem muitas diferenças entre os dois lados dentro da candidatura é colocar a campanha na rua. Nesta quinta-feira, Marina teve que cancelar parte dos compromissos que tinha agendados, inclusive uma rodada de entrevistas, pois há forte pressão para que a campanha seja retomada.

Marina e o vice Albuquerque viajaram a São Paulo para gravar imagens para os programas e fazer sessões de fotos para substituição do material de campanha. O lançamento nas ruas da nova chapa será em Recife, num grande ato no sábado. Na campanha, no entanto, há ainda certa angústia com os próximos dias, uma vez que Marina tem que assumir as ações políticas e tomar pé da situação administrativa da campanha e, ao mesmo tempo, se preparar para uma agenda pesada de debates e entrevistas.

A ex-senadora se opôs a algumas das alianças regionais firmadas pelo PSB, como a feita em São Paulo com o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e a fechada no Rio de Janeiro, com o candidato do PT ao governo do Estado, Lindbergh Farias. Após a morte de Campos os socialistas disseram que ela subiria apenas a palanques em que se sentisse confortável. Também houve necessidade de ajustes no financiamento da campanha. O PSB passará a não aceitar doações de empresas dos setores de bebidas, fumo, agrotóxicos e armamentos.

(Com Estadão Conteúdo e Reuters)