COMPORTAMENTO

Violência sexual: o desabafo de uma escritora que foi vítima de estupro

20/08/2014 12:01 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Aos 13 anos, fui violentada. Mas só depois dos 30 entendi que a culpa não era minha. Muitas mulheres passam pelo mesmo problema. Mas já é hora de mudar esse pensamento. A culpa de uma violência sexual é sempre da mesma pessoa: do estuprador.

Talvez tenha acontecido com você ou alguém próximo. Bom, aconteceu comigo. Eu tinha 13 anos e era fã de Faith No More, Skid Row e Ramones. Pintava o cabelo de preto-azulado, usava um piercing no nariz e era gamada num menino cujo apelido era Samurai. Ele era mais velho, tinha uns 16 anos e não era da minha escola. Tinha uma festa e seria na casa do tio de um colega. Me arrumei toda linda e roqueira com aquele meu cabelo até a cintura, minha camiseta dos Ramones e fui. Cheguei e procurei Samurai de cara. Ele nunca tinha me dado bola, mas eu sabia que havia crescido naquele ano e que ele talvez me notasse. Eu ganhei até peitos! Vai que...

A casa tinha uma piscina e um bar nos fundos. E foi pra lá que fui. Era onde estavam os meninos mais velhos, né? E foi lá que eu tomei minha primeira, segunda e terceira dose de uísque. E foi lá que eu finalmente consegui beijar o objeto do meu desejo, depois de tanto tempo.

E foi lá, no banheirinho da casa dos fundos ao lado da piscina, que eu fui estuprada. Não foi o Samurai.

Mas os moços que lá estavam acharam que, ora, se essa menina está bêbada e praticamente desacordada depois de vomitar muito, é claro que vamos passar a mão. Vamos levar pro banheiro. Vamos abusar e enfiar garrafas nela, porque ela não devia ter dado esse mole de beber tanto perto dos meninos mais velhos. Quem mandou dar mole?

A história foi barra, sofri no colégio com uma fama que não merecia. Sofri quieta.

Só contei aos meus pais anos mais tarde, com medo de que eles me culpassem e me impedissem de sair, pois achava que a culpa era minha. A culpa era minha por ter bebido. A culpa era minha por estar no meio de gente mais velha. A culpa era minha, minha, minha. Só anos depois descobri que não era. E resolvi falar a respeito quando vi que isso continua acontecendo igualzinho, com o agravante de que agora existem a internet e as redes sociais. Dessa forma, o estupro nunca acaba. Sim, cada vez que um vídeo de estupro se espalha, a violência se repete. Cada vez que um desses criminosos apela para argumentos do tipo “O que ele poderia fazer se a mulher estava pedindo?” é como se o estupro acontecesse de novo e continuasse indefinidamente.

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Vamos chamar as coisas pelos nomes que elas têm. Estupro. Não é “se aproveitar”; é estupro mesmo. Estupro não é apenas ser atacada por um homem estranho, saído das sombras, no caminho de volta pra casa. É todo tipo de violência sexual contra a mulher. Os homens precisam aprender a não estuprar, pois os números mostram que esse é um problema cultural, e não uma doença isolada praticada por alguns poucos monstros. As mulheres aprendem a se resguardar desde cedo. Os homens não aprendem que as mulheres não são corpos disponíveis. Não aprendem que quem cala não consente. Não aprendem que isso é crime. As meninas não deveriam “ter que se cuidar” porque “os predadores homens estão soltos por aí”. Os homens deveriam ser ensinados. Sim, ensinados, para não aceitar que isso é instinto, não. É parte da nossa cultura misógina que pune as mulheres por ocuparem espaços públicos, cultura que as próprias mulheres reproduzem, pois também ninguém ensinou a elas que pode acontecer a qualquer uma.

Não é por causa da roupa, do horário, do excesso de álcool ou drogas. Não é por causa do comportamento sexual pregresso da vítima. Não é por causa da vítima. O único culpado do estupro é o estuprador. E ele sai impune em quase todos os casos. Segundo uma pesquisa divulgada pelo Ipea, apenas 10% dos estupros são reportados à polícia e menos de 2% dos estupradores são condenados. Ainda assim, 50 mil casos de estupro foram registrados no ano de 2012. Quase 90% das vítimas eram do sexo feminino.

V. não achava que tivesse sido violentada. Ela achava que, por ter sido alguém de sua confiança, seu namorado, não tinha sido estupro. Ela dizia que não estava pronta, ele forçou a barra até conseguir, usando a violência psicológica para fazê-la ceder. “Ele falava que iria atrás de outras mulheres se eu não transasse com ele, dizia que era minha obrigação como namorada, que eu tinha 18 anos e já estava velha para ser virgem. Que, se ele me largasse porque eu não quis transar, todo mundo ia saber e ninguém mais ia me querer… Eu sei que ele era um idiota, mas fui ficando fragilizada com todas as coisas que ouvia. Até que um dia eu cedi às investidas. Foi horrível, só senti dor e chorei muito depois.” Sim, isso também é estupro. Sexo forçado é estupro. Sexo forçado dentro do casamento tem nome: estupro marital.

Falar é importante

Cá estamos, falando sobre violência contra as mulheres. As mulheres sabem que isso existe. Boa parte delas sabe de onde vem. Por que não há reportagens como esta em revistas direcionadas a homens? Afinal, 97% dos estupros são cometidos por homens. É um tema desconfortável para eles, como a hashtag #NotAllMen (“nem todos os homens”) comprovou. Uma resposta comum quando a gente toca no assunto de violência sexual ou qualquer tipo de propagação de machismo e violência de gênero - “nem todos os homens são assim” -, demonstrando claramente uma falta de visão do todo: nem todos, mas muitos, então por favor conversem entre si, pois, assim como todas conhecemos alguma mulher que foi estuprada, você provavelmente conhece algum homem que tenha cometido violência em algum momento de sua vida. E, em vez de acobertá-lo, relativizar, culpar a vítima, denuncie. Precisamos, sim, romper o silêncio, precisamos vencer a vergonha e a culpa. E denunciar.

O problema é quando a própria polícia, que deveria proteger as vítimas, acaba por fazer a culpa cair sobre elas. Foi o caso de M., que foi atacada na rua, teve sua roupa cortada e foi estuprada por um homem que manteve uma faca em seu pescoço durante todo o ato. Ela chamou a polícia assim que conseguiu, mas o delegado encarregado, em vez de prestar o atendimento próprio a uma vítima que sofreu violência, começou a questioná-la do porquê de ela estar na rua àquela hora. Senhor delegado, a culpa nunca é da vítima.

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É difícil para o homem se identificar com a violência de gênero. Para eles, é mais fácil dizer "“Gente, que horrível, esses caras são monstros, mas eu não sou assim"”, como se personalizando a questão ela fosse minimizada ou desaparecesse. Mas, se os homens não prestarem atenção nesse tema, ele jamais terá fim. Violência sexual é um assunto de homem, sim, e deveria ser tratado como tal, em vez de afastado deles, como geralmente acontece. Então, leitora, entregue esta reportagem para um cara ler também, combinado?

#NãoMereçoSerEstuprada

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