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04/08/2014 17:33 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

5 personagens femininas dos games que desafiam os estereótipos

A indústria dos games é um mundo masculino. Segundo a International Game Developers Association, em 2014, apenas 22% da força de trabalho no setor é composta por mulheres. O número baixo de mulheres nos bastidores influencia bastante na criação das histórias. Mesmo assim, essa coisa de que as personagens femininas estão lá para serem salvas pelo herói já está saindo de moda.

Elas não são a maioria, mas há diversos exemplos notórios de mulheres que vão além do estereótipo criado e mantido durante as décadas de 80 e 90. Nada mais de princesas indefesas e pares de peitos ambulantes: o que temos agora são seres humanos bem construídos e interessantes, independente do seu visual e dos homens que as cercam. Nós listamos alguns exemplos.

1. Clementine

A heroína dos jogos inspiradas na série The Walking Dead é apenas uma jovem garotinha. Mas esse é um dos aspectos que a tornam um personagem ainda mais incrível.

Clem começa sua jornada no mundo infestado por zumbis depois que é descoberta sozinha, dentro de casa, pelo ex-presidiário Lee. Ele decide levar a garota consigo por pena de deixá-la à mercê dos mortos vivos logo no primeiro episódio da série.

Clementine é, para todos os efeitos, a sua consciência: uma criança que perdeu os pais (mas ainda tem esperança de reencontrá-los) e que está acostumando a uma realidade cruel. Enquanto essa experiência obriga os adultos a tomarem decisões difíceis, incluindo escolher quem vive e quem morre para o bem de todo o resto do grupo, o olhar curioso de Clem é fatal: a inocência com que ela enxerga o mundo deixa todos nus e envergonhados do que fazem.

Na segunda temporada, porém, ela assume o papel de protagonista no lugar de Lee, e aí podemos ver um outro lado da personalidade: a da criança que foi forçada a crescer rápido demais, em um ambiente hostil demais. Se antes o fato de ser criança colocava peso e culpa nas decisões dos crescidos, agora ela é obrigada a fazer coisas das quais até os crescidos duvidariam. A qualidade do roteiro desenvolvido pela Telltale Games faz essa trajetória da heroína ser uma das mais impressionantes da história do meio.

2. Jade

Jade é a protagonista do pouco conhecido Beyond Good and Evil, jogo de aventura lançado pela Ubisoft em 2003. Ele fez muito sucesso entre a crítica mas vendeu muito pouco, o que desencorajou a publisher de continuar com a franquia (mesmo que um segundo game esteja supostamente em produção).

O game se passa em um futuro distópico em que pessoas estão presas entre duas grandes forças: um governo ditatorial e a invasão de uma força alienígena. No meio disso, Jade é uma garota que cuida de um orfanato e decide aceitar um trabalho de fotojornalista, o que dita o foco do jogo. Em vez de simplesmente invadir bases e espancar malvadões, o game vira a fórmula da aventura de cabeça para baixo e coloca você para tirar fotos de provas que possam ajudar a expor tanto as pretensões militares dos aliens quanto os desmandos do governo.

Beyond Good & Evil ainda tem um pouco de ação: Jade é capaz de se defender usando um bastão longo, usado em artes marciais, e isso só ajuda a compor o quadro do que a torna um personagem tão interessante: ela é forte, ágil, sagaz, independente e carismática, encarando o trabalho de revelar os segredos de uma grande conspiração intergalática sem depender de ninguém para isso.

3. The Boss

Criminosa, heroína, mentora, amante e mãe – The Boss, a grande antagonista de Metal Gear Solid 3: Snake Eater engloba todos esses elementos, e dessa forma tornou-se uma das mulheres mais complexas e interessantes dos games.

Ela era líder da Cobra Unit, tropa de soldados super-poderosos durante a Segunda Guerra Mundial, e foi a responsável por treinar o agente Naked Snake, que depois se transformaria em Big Boss. Em dado momento do início da Guerra Fria, ela e os outros membros da Cobra desertam o exército dos Estados Unidos e fogem para a Rússia com uma missão secreta própria, levando foguetes nucleares. Mas Volgin, outro dos vilões do jogo, decide disparar um desses explosivos – o que deixa aparente a traição do grupo e cria tensões entre as duas superpotências. Diante disso, o governo dos EUA é obrigado a mandar Snake assassinar a sua velha mentora.

Mesmo tendo um decote completamente desnecessário, The Boss é apresentada como uma mulher extremamente digna em sua idade já levemente avançada. É resoluta, habilidosa, extremamente paciente e levemente perturbada pelas coisas que teve que fazer no passado – como assassinar seu próprio amante, outro membro da Cobra Unit – e tem que se sujeitar no presente.

Apesar de o jogo apresentá-la primariamente como vilã, The Boss é mais uma heroína trágica, transformada em vilã pelas circunstâncias. E Naked Snake ser obrigado a matá-la no fim do jogo – em uma cena belíssima, em um campo cheio de flores – é peça fundamental para o seu desenvolvimento no restante da série.

4. SHODAN e GlaDOS

Cada personagem tem seus méritos. Mas, nessa lista, essas duas estão juntas por um motivo: ambas são inteligências artificiais femininas capazes de assombrar, desafiar e intimidar o jogador de formas completamente opostas.

A mais famosa talvez seja GlaDOS, a IA que controla os sistemas nos laboratórios da Aperture Science em Portal e Portal 2. Ela começa fria e amigável, se limitando a dar instruções do que você precisa fazer em cada sala e a fazer um ou outro comentário sarcástico. Mas logo ela vai se soltando, e isso vai se tornando uma conversa unilateral na qual ela explica, com a maior calma, como todos os seus esforços são inúteis, como é impossível fugir e como ela vai te destruir – tudo com um bom humor ímpar. Ela passa pela condescendência, pela raiva, pena e tentativas de negociação, tudo para fazer você se desconcentrar.

Já SHODAN é um pouco diferente. A inteligência artificial criada para controlar a Citadel em System Shock e a nave Bon Braun em System Shock 2 parece ter saído de um pesadelo: seu tom de voz artificial muda constantemente, o som é repleto de glitches e ela parece falar com várias vozes sobrepostas de uma maneira perturbadora. E em vez de fazer piada com a situa situação, como faz GlaDOS, ela constantemente lembra o seu personagem de como ele não passa de um mero rato de laboratório, batendo a cabeça em corredores repletos de monstruosidades espaciais, e o provoca perguntando se você tem medo de morrer.

Esses dois exemplos mostram como mulheres podem ser grandes vilãs sem apelar ao velho recurso da “Femme Fatale”. São antagonistas que mal possuem forma física, mas que conseguem gelar o seu sangue de qualquer jeito.

5. Lara Croft

A heroína da série Tomb Raider foi, por muito tempo, considerada a “musa dos games” original: peitos grandes, lábios carnudos, roupas curtas e grudadas no corpo. Mas definitivamente não é por isso que ela está nesta lista de mulheres notórias.

O reboot de Tomb Raider desenvolvido pela Crystal Dynamics e lançado pela Square Enix em 2013 elevou a personagem a um outro patamar: de uma simples “gata com atitude”, como tantas outras que a década de 90 produziu aos montes, a um personagem de verdade. O game desenvolveu seu crescimento como heroína, deixou sua beleza física em segundo (ou terceiro) plano e a colocou para fazer coisas que poucos seres humanos (homem ou mulher) teriam coragem de fazer.

O começo da aventura coloca Lara Croft como uma aprendiz de arqueóloga levemente mimada, e a partir daí cria uma trajetória para que ela se torne a aventureira experiente que todos conhecemos: mas mais adulta, mais séria e menos rostinho bonito para adolescente ver. O novo Tomb Raider mostra bem como os jogos e personagens estereotipados e rasos das décadas passadas podem ganhar releituras mais cheias de nuances e desdobramentos verossímeis.

Isso parece continuar no novo jogo da série, anunciado em 2014: na sua introdução, Lara está diante de um psicólogo contando o trauma de ter passado por tanta coisa e matado tanta gente ainda nova. A evolução dela como um ser humano de verdade, não uma simples máquina de atirar em bandidos, promete.

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